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Altas ondas de inclusão em Santos

Nestes tempos de Medinas e Mineirinhos, escola pública de surf muda a vida de jovens cadeirantes, autistas e cegos em Santos


Ariadne na prancha de body com as professoras
Ariadne na prancha de body com as professoras

Francisco Alfredo Alegre Araña, o Cisco, de 57 anos, veterano surfista e incentivador deste esporte em Santos, tem um motivo para festejar neste fim de 2015, ano difícil por variadas razões. Ele acaba de conseguir da prefeitura local autorização para instalar na orla a Escola Radical de Surfe II, exclusiva para portadores de necessidades especiais.

Pessoas como Ariadne Sacha Perez, de 19 anos, autista. Na tarde de segunda-feira, 14 de dezembro, assistida por duas voluntárias estudantes de fisioterapia e dois professores-surfistas, ela deslizava em uma prancha de bodyboard nas marolinhas do posto 2, na Pompéia, onde funciona a primeira escola pública de surfe do Brasil, criada também por Cisco. “É muito bom para ela”, disse a avó, Sílvia, após a aula. “Ela dorme melhor, come melhor, se acalma e tudo funciona melhor”. Atenta, a jovem completou, a voz arrastada: “Surfar… tudo de bom”.

Havia no cérebro dele uma portinha por onde entrou a alegria do surfe

Cisco Araña, sobre o cadeirante Raphael, de 13 anos
Surfista e professor

Ariadne é uma dos 60 deficientes atendidos atualmente, divididos em três grupos de 20 alunos. Cada grupo faz aula de três em três semanas, às segundas-feiras, em dois horários pela manhã e dois à tarde. Os grupos são subdivididos em quatro turmas de cinco alunos, um deles cadeirante. “No espaço novo, vamos mais que dobrar o atendimento”, anima-se Cisco. “Receberemos 150 alunos, em dois dias por semana”. As aulas devem começar no primeiro semestre de 2016.

Os futuros alunos serão personagens de uma história de vinte e quatro anos, dois ícones e muitos casos de superação.  Começou logo após a criação da Escola Radical de Surfe em 1991. Seu Euclides, então na casa dos 70 anos, reclamou com Cisco que as aulas de surfe e bodyboard atrapalhavam seu banho de mar. Com a calma e a leveza que fazem dele uma das legendas do surfe clássico de Santos, Cisco o convidou a tomar aulas. Ele topou, iniciou no body, passou para o pranchão e se tornou o primeiro aluno idoso.

Histórias como a de seu Euclides atraíram Valdemir Pereira Corrêa, o Val, que ficou cego aos 14 anos por um erro de anestesia em uma operação de glaucoma. Val ouviu numa rádio comunitária uma entrevista de Cisco sobre surfe para idosos e deficientes e procurou a escola em 1997. Estava com 18 anos era o primeiro caso de surfista cego de que se tinha notícia.

João Paulo é colocado na prancha multifuncional por Cisco e assistentes
João Paulo é colocado na prancha multifuncional por Cisco e assistentes

Os primeiros anos foram dedicados a passar para ele referências de localização a partir dos ruídos do trânsito na avenida da praia, do rumor da onda prestes a estourar, do sopro do vento e das marcas e do cheiro da parafina nas pranchas comuns. Um dia Val reclamou da falta da parafina. Cisco deu toda razão ao aluno e, mordido, aplicou suas habilidades de shaper para desenvolver a primeira prancha para deficientes visuais com altos-relevos e guizos, apresentada em 2007. Hoje Val alterna sessões de surfe com a prancha especial e uma comum. E é um dos ícones da Escola Radical de Surfe, que atende alunos de 5 a 80 anos, com e sem necessidades especiais.

O outro ícone é Raphael dos Santos, de 13 anos, cadeirante com paralisia cerebral. (Conheci-o em setembro de 2014, em meu primeiro dia de aula. Conversava com Cisco quando ele chegou para uma filmagem. O veterano interrompeu a conversa e se dirigiu ao pequeno Stephen Hawking mulato que se equilibrava sobre os pés vacilantes com um largo sorriso. O abraço dos dois ao lado da estátua do surfista na fonte em frente à escola foi comovente). “Os médicos diziam que o Rapha nunca ia andar”, conta Cisco. “Mas havia no cérebro dele uma portinha por onde entrou a alegria do surfe e hoje ele está aí, andando”.

As aulas especiais vão de outubro a março, quando a água está mais quente e as ondas, menores. “No período das aulas, os surtos e a medicação forte diminuem. Quando eles estão parados, aumentam”, acrescenta o surfista sobre as reações dos alunos com autismo e deficiências intelectuais. Raphael é um dos que usa a prancha multifuncional, desenvolvida por Cisco em 2012, a partir daquela usada pelos deficientes visuais. Com velcros e peças de espuma, permite colocar com conforto sobre a prancha pessoas com dificuldades motoras.

Foi numa delas que João Paulo Franco Clemente, de 5 anos, e também cadeirante por paralisia cerebral, surfou com Cisco e o professor Pedro na tarde da aula de Ariadne.  O sorriso dele embalado pela onda desperta as mesmas alegria e esperança que a conquista de Raphael. E se une à alegria de todos os surfistas do Brasil com o segundo título mundial consecutivo do país, agora com Adriano de Souza, o Mineirinho, na Pipeline que em 2014 consagrou Gabriel Medina no Havaí.


Escrito por Octavio Tostes

Octavio Tostes. Jornalista formado pela UFRJ, trabalhou em O Globo, Istoé, TVs Globo, Band e CBS Telenotícias Brasil (Miami), Aol Brasil, Globo.com e portal Terra. Atualmente é editor-executivo do Jornal da Record. Cronista no portal R7, mestre em História Social pela USP. Em 2014, aos 56 anos, começou a surfar.

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