Um caminho feliz até o trabalho

Os caminhos que passam perto do Hyde Park estão entre os preferidos dos ingleses

Pesquisador cria mapas que indicam os trajetos mais bonitos e cheirosos das cidades

Por Claudia Sarmento | Mobilidade UrbanaODS 16 • Publicada em 18 de janeiro de 2016 - 08:00 • Atualizada em 16 de abril de 2021 - 14:07

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Os caminhos que passam perto do Hyde Park estão entre os preferidos dos ingleses

Quando fazia pós-doutorado no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), o engenheiro de computação Daniele Quercia recorria diariamente a um aplicativo para encontrar o caminho mais curto de Boston, onde morava, ao campus. O italiano pegava sua bicicleta, acessava o app no smartphone e acabava fazendo sempre o mesmo trajeto, em meio a carros e poluição, mas ganhava tempo. Até que um dia cansou da mesmice da paisagem urbana desagradável, deixou a eficiência de lado e optou por um desvio, descobrindo ruas bem mais arborizadas e tranquilas. Perdeu alguns (poucos) minutos na rota de todos os dias, mas ganhou muito em prazer. E sentiu uma certa vergonha por nunca ter enxergado o que estava tão perto dele. Quercia, que hoje é pesquisador da Bell Labs, em Cambridge, no Reino Unido, resolveu transformar sua experiência em estudo. Nasceu assim o conceito dos happy maps, os “mapas felizes”.

Em Boston, meu caminho diário tinha apenas um objetivo: a rota mais curta. Não havia prazer, contato com a natureza ou qualquer possibilidade de olhar as pessoas nos olhos. E isso tudo porque eu queria economizar um minuto no meu deslocamento

Daniele Quercia
Engenheiro de computação

Comandado por Quercia, um time de especialistas em tecnologia da informação criou um game para pesquisar que tipo de imagens urbanas as pessoas gostam de ver e que paisagens – dentre as possíveis numa cidade grande – as deixam mais contentes. O resultado não surpreende. No caso de Londres, por exemplo, milhares de participantes avaliaram fotos via plataformas como Google Street View e disseram preferir as ruas com mais verde ou com as típicas casas inglesas de tijolo vermelho ou construções vitorianas. Ruazinhas menores também deixam os londrinos bem mais alegres do que as grandes avenidas.

E o que provoca a tristeza dos moradores da capital britânica em seus trajetos? Um grande volume de carros, além de prédios isolados que nada têm a ver com a região a seu redor. Ao agregar essas informações, os pesquisadores, que também estimularam o compartilhamento de imagens nas mídias sociais e analisaram a interatividade, criaram um algoritmo para calcular as rotas mais prazerosas, mesmo que sejam um pouco mais longas. O projeto dos “mapas felizes” deverá resultar – com o avanço da pesquisa – em aplicativos para diferentes metrópoles, como Berlim, Barcelona, Turim e Boston. Mas, mesmo em fase experimental, o estudo já serve de alerta para quem se interessa por tecnologia e planejamento urbano, assim como quem busca uma relação melhor, menos estressante, com a própria cidade.

– Em Boston, meu caminho diário tinha apenas um objetivo: a rota mais curta. Não havia prazer, contato com a natureza ou qualquer possibilidade de olhar as pessoas nos olhos. E isso tudo porque eu queria economizar um minuto no meu deslocamento – relembra Quercia, explicando a motivação de sua pesquisa.

Mapa mostra os lugares de Londres que têm cheiro (o laranja são os mais fracos e os vermelhos os pontos de cheiro mais forte) e flora (linhas verdes são aromas de flores, árvores e plantas).
Mapa mostra os lugares de Londres que têm cheiro (o laranja são os mais fracos e os vermelhos os pontos de cheiro mais forte) e flora (linhas verdes são aromas de flores, árvores e plantas).

Para o cientista, não há nenhuma razão para os aplicativos de localização oferecerem apenas as vias mais curtas a seus usuários. Poderiam sugerir também as mais alegres, bonitas ou tranquilas, o que mudaria dramaticamente nossa experiência urbana, acredita. Os “mapas felizes” ganharam o reforço de outros especialistas em tecnologia dispostos a explorar ferramentas digitais para melhorar as cidades. O grupo incluiu nesse novo mapeamento um outro fator até então considerado dificílimo de ser representado graficamente: cheiro. O Smelly Map, um mapa olfativo de Londres, já está no ar. “As cidades são vítimas de uma perspectiva disciplinar negativa. Apenas maus odores têm sido considerados. O projeto Smelly Maps visa a mudar essa visão e, consequentemente, ser capaz de celebrar a complexidade dos cheiros de nossas cidades”, explica o site do projeto.

– O principal objetivo dessas pesquisas é evitar o perigo do caminho único, que impede as pessoas de aproveitarem plenamente a cidade em que vivem. Se você atravessar um parque, e não o estacionamento do parque, terá uma experiência completamente diferente. O mesmo acontecerá se cruzar uma rua onde estão pessoas que você ama e não uma via cheia de carros. É simples assim – explicou o cientista numa palestra para a série de TED Talks da Rádio NPR.

Com a rápida evolução da ciência de dados, a equipe de Quercia sonha em revolucionar a cartografia, transformando representações visuais em experiências sensoriais. A pesquisa é ancorada nas mídias sociais, explorando a “sabedoria das massas” ou a “inteligência coletiva” – dois termos comuns no meio acadêmico. Para montar o Smelly Map, os cientistas criaram o primeiro dicionário dos cheiros urbanos, um conjunto de 258 palavras associadas ao odor. A lista incluiu termos tão diversos quanto gasolina, lavanda, vômito e grama, por exemplo. Eles contaram com a ajuda de anotações feitas por participantes de caminhadas guiadas pela pesquisadora Kate McLean, do Royal College of Art (Londres), por sete metrópoles (Amsterdam, Pamplona, Glasgow, Edinburgo, Newport, Paris e Nova York), cujo foco era a identificação dos aromas. Depois disso, usaram ferramentas como Twitter, Instagram e Flickr para processar dados, combinando os termos do dicionário com milhares de legendas, hashtags e geotags. Londres e Barcelona foram escolhidas como projeto-piloto.

– O homem pode sentir mais de um trilhão de cheiros diferentes. O nosso nariz é uma grande máquina de dados – explicou Quercia durante uma palestra promovida pela revista “Wired” em Londres. – Mas autoridades municipais e planejadores levam em conta no máximo 20 odores. É assim que o planejamento urbano é feito – criticou o pesquisador, cujo trabalho vem sendo apresentado em conferências científicas.

Se digitarmos o nome das ruas mais movimentadas de Londres no Smelly Map, veremos que a maior parte das referências inclui palavras associadas à emissão de poluentes. Perto dos parques, claro, o perfume da natureza ganha. O Hyde Park e o Regent’s Park, áreas verdes bastante centrais, estão entre as mais cheirosas da capital. Em Oxford Street – área comercial permanentemente cheia e muito frequentada por turistas – a maioria dos aromas detectados (63,8%) vem de emissões e 25% estão associados a comida. Em linhas gerais, Barcelona é uma cidade bem mais agradável para o olfato do que Londres. No coração da Catalunha, há menos cheiro de lixo e poluição, e mais de flora e fauna.

O estudo vai muito além do desenvolvimento de aplicativos e pode ser útil para projetos urbanos, incentivando, por exemplo, iniciativas como a criação de trechos exclusivos para pedestres ou plantio de árvores em vias que não têm outro odor a não ser o da poluição.

– O que concluímos é que dois fatores fundamentais, como beleza e cheiros, têm sido totalmente ignorados em pesquisas urbanas porque são aspectos difíceis de serem medidos. Mas esperamos que fique claro que sentimentos não podem ser negligenciados. No fim das contas, o que todos devemos buscar é uma vida melhor nas cidades – resumiu Quercia.

As típicas casas inglesas de tijolo vermelho estão na lista de lugares que deveriam fazer parte de um caminho feliz
As típicas casas inglesas de tijolo vermelho estão na lista de lugares que deveriam fazer parte de um caminho feliz

Claudia Sarmento

Jornalista, PhD em Mídia e Comunicação pela Universidade de Westminster e professora visitante do Departamento de Humanidades Digitais do King's College de Londres.

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