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Onda verde para bicicletas na Dinamarca

Ciclistas recebem dispositivo que torna o sinal verde quando se aproximam de cruzamento

© by Flávia Milhorance

Após nossa primeira viagem, olhei para aquela bicicleta de segunda mão recém-adquirida e profetizei: nos daremos imensamente bem ou terrivelmente mal durante este ano. Não sou sedentária e posso dizer que tenho a cabeça verde, mas minha relação com bicicletas se resumia às alugadas laranjinhas para passeios tranquilos na ciclovia da Lagoa Rodrigo de Freitas em raros finais de semana. Internalizá-la como o meu meio de transporte diário, faça chuva ou faça vento (sol não é regra na Dinamarca), seja o trajeto plano ou inclinado (inclinado, sim, é regra na cidade de Aarhus, embora ironicamente o país seja majoritariamente plano), eu e uma multidão de ciclistas disputando minicorridas de um sinal a outro, não estava na minha lista de idealizações antes de me mudar para onde, no imaginário de uma brasileira, a vida seria mais fácil.

Ciclistas recebem dispositivo que torna o sinal verde
Ciclistas recebem dispositivo que torna o sinal verde

Nos trajetos de subida, miro o sinal verde lá na frente e faço mandinga para que feche exatamente antes de cruzá-lo. São dois minutos de respiro garantidos sem que eu tenha que expor meu despreparo. É isso ou ter que invariavelmente saltar da bicicleta para levá-la ao meu lado a pé enquanto me recupero. Por isso que enxerguei com certa desconfiança um novo projeto que vem sendo implementado em Aarhus, mas que traduz bem o que é a cultura do ciclismo para os dinamarqueses : 200 ciclistas já instalaram um pequeno dispositivo em suas bicicletas que torna o sinal verde quando se aproximam de um cruzamento. E os carros e ônibus? Ficam com o sinal vermelho.

Preferência é da bicicleta

Coordenadora do projeto, Rita Westergaard, da ID-Advice, confirmou que a ideia é facilitar a vida do ciclista e dificultar a do motorista. Pouco a pouco, eles vão sendo expulsos da segunda maior cidade do país, que abriga cerca de 300 mil pessoas. Soa agressivo? “Se explicarmos ao público que o sistema apenas faz pelo ciclista o que sensores eletromagnéticos (mais comum nos Estados Unidos e Europa) fizeram por muitos anos pelos motoristas, veremos apenas algumas reações negativas”, argumentou Rita, explicando ainda que o projeto vem na esteira de um plano maior de promoção da bicicleta como meio de transporte, especialmente na área central.

Na Dinamarca, cada vez mais a preferência é da bicicleta. Hoje 24% das viagens de casa ao trabalho/universidade ocorrem sobre as duas rodas, segundo a “Embaixada do Ciclismo da Dinamarca”. Em Copenhague, são dois terços. Há cerca de um mês, o Projeto #Colabora publicou um vídeo mostrando um engarrafamento numa ciclovia da capital dinamarquesa (ver abaixo), enquanto que os carros da via ao lado fluíam como num dia de feriado. É curioso, porém se tornou um problema. Para resolvê-lo, a prefeitura já selecionou seis das áreas mais congestionadas de bicicletas para alargá-las ou convertê-las em corredores destinados apenas a ciclistas. Ou seja, menos espaço para tráfego ou estacionamento de carros.

É para os ciclistas que precisamos criar mais condições. Espaço é um recurso limitado numa grande cidade, então temos que priorizar. E escolhemos priorizar o tipo de transporte que usa menos espaço

Morten Kabell
secretário de Engenharia e Meio Ambiente

“É para os ciclistas que precisamos criar mais condições. Espaço é um recurso limitado numa grande cidade, então temos que priorizar. E escolhemos priorizar o tipo de transporte que usa menos espaço”, explicou ao jornal “Politiken” o secretário de Engenharia e Meio Ambiente da capital, Morten Kabell, acrescentando que serão investidas 400 milhões de coroas dinamarquesas (R$ 227 milhões) nas obras dos próximos anos.

Perguntei a um estudante dinamarquês o que ele achava dessas políticas que focavam cada vez mais na bicicleta, em detrimento dos veículos motorizados. “Já era a hora”, respondeu o jovem que cresceu usando a bicicleta como meio de transporte. Quem, aliás, viu seus pais fazendo o mesmo. A cultura da bicicleta na Dinamarca começou ainda no século XIX. Nos anos 1920, ganhou força e conquistou trabalhadores de diferentes classes sociais. Nos anos 1960, foi ameaçada pelos carros. Mas a crise do petróleo e o movimento ambiental, além de alguns projetos polêmicos de rodovias da época, reverteram a tendência.

Eu e ela

Antes de comprar minha bicicleta, ainda pestanejei: “É realmente útil?”. E ouvi da brasileira que me passava o bastão: “É essencial. É como todos se deslocam”. Um semestre depois, vejo que ela tem razão. O transporte público é caro – em média 20 coroas (R$ 11!) a passagem; as distâncias são curtas – 70% das viagens têm menos de 3 km e 85%, menos de 5 km. As ciclovias são largas, sinalizadas, estão em todos os cantos.

Na teoria, não tem por que não aderir. Só na prática: tive que aprender os sinais de trânsito com as mãos, com uma constrangedora dificuldade de desprender o braço esquerdo do guidão para indicar a direção. Tive que comprar sinalizadores para andar à noite, embora só lembre de instalá-los quando sou repreendida por carros ou outros ciclistas. Levei alguns tombos na pista molhada ou no trânsito, às vezes intenso, de bicicletas apressadas. Fui ultrapassada pela maioria, inclusive idosos. Empenhei-me para consertar minha bicicleta à noite, sem ajuda de boas almas – e, na verdade, não consertei, acabei caminhando com ela ao lado por alguns quilômetros. Tive realmente que absorver que trata-se de um meio de transporte, não um utensílio de lazer.

Poucos dias antes de vir ao Brasil para as festas de fim de ano, conversava em inglês com uma colega e, num determinado momento, usei “she” para me dirigir à bicicleta. E ela me perguntou: “Is your bicycle ‘she’?”. Claro que tinha cometido um erro de tradução, pois enquanto no português usamos o gênero feminino para a bicicleta, no inglês usa-se apenas o “it”, pronome neutro. Mas, por outro lado, parei e pensei. Minha bicicleta já chegou com adesivos de estrelas no corpo, espelhinho rosa, banco com bolinhas brancas. De tão customizada e feminina, é conhecida por todos os meus colegas. Graças a ela, tenho uma vida mais ativa, não espero no ponto de ônibus, nem preciso buscar vaga, além de gostar de saber que não estou contribuindo para o despejo de CO2 na atmosfera. Respondi que sim, era “she”. E confesso que, há apenas duas semanas longe, já estou com saudades. Acho que eu e ela seremos grandes amigas no próximo semestre. Seguindo nosso próprio ritmo, sem instalar dispositivo para tornar o sinal verde por enquanto.

Escrito por Flavia Milhorance

Jornalista com mais de dez anos de experiência em reportagem e edição em veículos de imprensa do Brasil e exterior, como BBC Brasil, O Globo, TMT Finance e Mongabay News. Mestre em jornalismo de negócios e finanças pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres.

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Um Comentário

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  1. Excelente a reportagem . O assunto aborda aspetos muito interessantes mostrando o respeito pelas pessoas e pelo meio ambiente. Os dinamarqueses estão de parabens !

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