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Cidade que não se recicla

Coleta seletiva oficial no Rio de Janeiro não chega a 1% dos resíduos produzidos; cidadãos e empresas têm responsabilidade pelo problema


Galpão da Coopama, Maria da Graça, subúrbio do Rio (Foto Emanuel Alencar)
Galpão da Coopama, Maria da Graça, subúrbio do Rio (Foto Emanuel Alencar)

Na quente tarde do último sábado (dia 2), os fardos repletos de recicláveis da Cooperativa Popular Amigos do Meio Ambiente (Coopama), em Maria da Graça, Zona Norte do Rio, aguardavam há duas semanas o movimento de mãos que separam os materiais por tipo de matéria prima. O galpão estava vazio de gente, num reflexo da paralisação dos caminhoneiros que levou caos ao país. Sem diesel nos caminhões da coleta seletiva da Comlurb, a empresa pública de limpeza da capital, a Coopama parou. Os 14 catadores receberam uma ajuda de custo e foram mandados para casa – só retornaram ao trabalho na última segunda-feira. Oscilação é marca registrada da cooperativa e do mercado da coleta seletiva no Rio.

Dois anos depois de a prefeitura prometer universalizar a coleta seletiva de recicláveis nos 160 bairros da cidade, a realidade é bem diferente. Enfrentando crise sem precedentes, a Comlurb oferece o serviço em 113 bairros, sendo 80 integralmente (ou 50% do total). Os caminhões compactadores recolhem diariamente 56 toneladas de recicláveis (1.700 t. por mês), muito longe das prometidas 280 toneladas/dia ainda em 2016. Todo o material é doado para 22 cooperativas. Considerando o total gerado pelo domicílios da cidade, a coleta seletiva recolhe 0,95%.

No passado a gente tinha de 30 a 25 catadores. Este ano são 14. Até janeiro, recebíamos 12 caminhões por semana da Comlurb. Agora são seis.

Claudio Novaes
Diretor financeiro da Coopama

Uma combinação de alto custo – a coleta seletiva tem custo médio de R$ 1 mil por tonelada, ou cinco vezes maior que a convencional – e baixa eficiência – não raro caminhões cumprem suas rotas com pouco material – ajuda a explicar os avanços tímidos, quase inexistentes. A Comlurb não respondeu ao #Colabora sobre o quanto a coleta seletiva representa no custeio da companhia. Hoje, 13 caminhões fazem o serviço, e há dois anos eram 16. O mercado da reciclagem no Rio, avalia Cláudio Novaes, diretor financeiro da Coopama, é quase totalmente mantido pela informalidade. Uma profusão de caminhões “piratas” ou alternativos, burros-sem-rabo e catadores informais rodam a cidade à caça de papel, papelão, PET, plásticos e alumínio. Sobra pouco material com valor de mercado para os caminhões oficiais da Comlurb.

Coleta seletiva de lixo em Botafogo: carioca não separa resíduos corretamente (Foto Emanuel Alencar)
Coleta seletiva de lixo em Botafogo: carioca não separa resíduos corretamente (Foto Emanuel Alencar)

“Somos a segunda região metropolitana do país e não chega material reciclável”, lamenta Cláudio, um homem negro de rosto redondo e sorriso tímido, nascido no Complexo do Alemão, e responsável por recrutar catadores que atuavam no antigo lixão de Jardim Gramacho, desativado em 2012. “No passado a gente tinha de 30 a 25 catadores. Este ano são 14. Até janeiro, recebíamos 12 caminhões por semana da Comlurb. Agora são só seis. E por causa da greve (dos caminhoneiros), dei uma graninha para cada um e mandei eles para casa. Voltaram agora (dia 4), com a situação normalizada”.

É lei da oferta e procura: quando há muita oferta, o preço da venda dos recicláveis desaba. Veja esses fardos de sacolinha plásticas. Não vendo por mais do que 15 centavos o quilo. É muito pouco

Claudio Novaes
Diretor financeiro da Coopama

Diversificar para sobreviver

Ao rodar o galpão da Coopama com a reportagem do #Colabora, Cláudio mostra a estratégia usada para a sociedade sobreviver: a diversificação dos materiais. A cooperativa recebe toneladas de televisores fabricados com pequenos defeitos de grandes varejistas. A venda dos componentes para a indústria transformadora é um bom negócio. Outra aposta é na reciclagem do isopor – há uma máquina que transforma o material numa espécie de resina – e das embalagens tetra pak, que viram telha ecológica. No entanto, lidar com esses materiais exige expertise e capacitação raros entre os catadores.

Cláudio Novaes, diretor financeiro da Coopama, em Maria da Graça: "Desde janeiro, diminuíram de 12 para 6 caminhões por semana" (Foto Emanuel Alencar)
Cláudio Novaes, diretor financeiro da Coopama, em Maria da Graça: “Desde janeiro, diminuíram de 12 para 6 caminhões por semana” (Foto Emanuel Alencar)

“É preciso recorrer a outros materiais, porque depender da coleta dos resíduos domiciliares complica. É a lei da oferta e da procura: quando há muita oferta, o preço da venda dos recicláveis desaba. Veja esses fardos de sacolinha plásticas. Não vendo por mais do que 15 centavos o quilo. É muito pouco”, diz.

Falta vontade política para fazer o sistema funcionar direito. O poder público deve comprar participação das empresas que geram os resíduos. É lei, tem que fazer

Luiz Carlos Fernandes
Gerente da Coopama

Outra questão que joga contra a Coopama é a baixa qualidade dos materiais domiciliares que chegam ao galpão. É comum os recicláveis virem misturados com lixo orgânico. O índice de perdas pode a superar os 60%. No último sábado, por exemplo, o caminhão da Comlurb descarregou 4 toneladas na Coopama, vindas dos bairros de Botafogo, Humaitá e Lagoa. Se, ao fim e ao cabo, 2,4 toneladas acabem de fato indo para a reciclagem, nas indústrias transformadoras, já será um grande feito. Os ganhos com a venda dos recicláveis garantem salários de R$ 300 para cada cooperativado – mais, é inviável.

O galpão da Coopama, em Maria da Graça: lá não é feita reciclagem, mas, sim, separação de resíduos (Foto Emanuel Alencar)
O galpão da Coopama, em Maria da Graça: lá não é feita reciclagem, mas, sim, separação de resíduos (Foto Emanuel Alencar)

“As pessoas confundem, mas a Coopama não recicla, só recebe a faz a triagem”, explica Luiz Carlos Fernandes, um dos gerentes. “Em resumo, falta vontade política para fazer o sistema funcionar direito. O poder público deve cobrar participação das empresas que geram os resíduos. É lei, tem que fazer”.

Lei federal surtiu pouco efeito

Falta conscientização da sociedade também, argumenta o gari Manoel da Silva Filho. Há 8 anos na Comlurb, ele cansou de ver materiais como seringas e agulhas junto ao lixo reciclável. Acontece que poucos cariocas acondicionam o lixo reciclável em sacos transparentes adequados. Como o produto é caro, a companhia de limpeza recomenda o uso de sacos verdes ou azuis. Evitar o uso dos sacos pretos é fundamental – como a cor impede a visão do lixo, fica impossível saber se o material é reciclável ou orgânico.

Vem muita coisa que não tem nada a ver junto ao lixo reciclável. O pessoal põe seringa na maldade, no meio de outros materiais

Manoel da Silva Filho
Gari

“Vem muita coisa que não tem nada a ver junto ao lixo reciclável. O pessoal põe seringa na maldade, no meio de outros materiais”, critica, olhando para a massa de recicláveis com cheiro que denuncia a presença de lixo orgânico.

Em alguns bairros, conta Manoel, os índices de coleta seletiva chegam a ser desprezíveis, em função da atuação do mercado informal.

Os garis Milene, Isabel e Manoel: seringas são risco no meio dos resíduos (Foto Emanuel Alencar)
Os garis Milene, Isabel e Manoel: seringas são risco no meio dos resíduos (Foto Emanuel Alencar)

“No Estácio e em São Cristóvão por exemplo, quando a gente vai coletar, os burros sem rabo já coletaram tudo”.

A promulgação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (lei 12.305), em 2010, representou uma esperança de alavancagem das práticas de coleta seletiva e reciclagem. Inspirada em modelos de logística reversa europeus, a lei é clara ao preconizar a redução da geração de resíduos e determinar que só pode ir para aterros sanitários o que não for possível ser reutilizado. O texto reforça a proibição, como fizera a Lei de Crimes Ambientais 12 anos antes, dos lixões. Decorridos oito anos, houve mais avanços na destinação final correta, em aterros sanitários, do que na reciclagem.

O ser humano sempre tem muitas preocupações, e, certamente não quer mais uma, ainda mais se preocupar com ‘lixo’. É necessário ressignificar este termo. Lixo não é lixo

Carlos Canejo
Mestre em Engenharia Ambiental

O acordo do setor das embalagens não decolou, e a indústria teme pagar a – alta – conta da logística reversa sozinha. Por enquanto, grandes empresas que colocam as embalagens no mercado sinalizam apenas com mais apoio a cooperativas. Um modelo que vem patinando há décadas.

Lixo não é lixo

Na opinião do Carlos Canejo mestre em engenharia sanitária e ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor da Universidade Veiga de Almeida (UVA), a baixa adesão da população ao tema é um dificultador:

“O ser humano sempre tem muitas preocupações, e, certamente não quer mais uma, ainda mais se preocupar com ‘lixo’. É necessário ressignificar este termo. Lixo não é lixo. É necessário fazer com que a população entenda que ela tem que participar, que existem diferentes tipologias de resíduos e que cada uma delas tem diferentes fluxos de tratamento e destinação”, opina.

Sobre o serviço prestado pela Comlurb, Canejo reflete que a questão a ser debatida é: “Para que queremos ter a coleta seletiva?”.

“Não há indústria de reciclagem no município. A Comlurb coleta e doa para cooperativas, geralmente pequenas e sem poder de negociação. Estas, revendem o material a atravessadores, que pagam muito pouco pelo quilo, pois precisam de escala para comercializar com a indústria, que fica fora do estado. Logo, apesar do potencial, cria-se um mercado insustentável focado na subsistência de poucas cooperativas”, pondera. “É necessário reduzir o custo logístico de transporte ao mínimo possível, por isso a indústria precisa estar aqui. Só assim teremos sucesso em programas de coleta seletiva. Também é muito necessário que o governo regule os valores de venda dos materiais recicláveis, para não haver dissonâncias muito fortes”.


Escrito por Emanuel Alencar

Emanuel Alencar

Jornalista formado em 2006 pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou nos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo, no qual ficou por oito anos cobrindo temas ligados ao meio ambiente. Atualmente, é editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Tem pós-graduação em Gestão Ambiental e cursa o mestrando em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apaixonado pela profissão, acredita que sempre haverá gente interessada em ouvir boas histórias.

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