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‘Intolerância religiosa cresce no Brasil’

Antropólogo mostra que repressão a cultos de matriz africana nasceu no Brasil Colônia e se tornou violenta com o movimento neopentecostal


Membros de uma religião afro conhecida como Jurema participam de cerimônia no Recife (Diego Herculano/NurPhoto)
Membros de uma religião afro conhecida como Jurema participam de cerimônia no Recife (Diego Herculano/NurPhoto)

Terreiro de umbanda profanado, centro espírita depredado, espaços para cultos afro sem alvará. Longe de estar concentrada nesses episódios, a intolerância religiosa cresceu no Brasil. E, mais de duas décadas depois do episódio conhecido como o chute na santa, envolvendo um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, outro bispo da IURD, este licenciado,  Marcelo Crivella, chega à prefeitura do Rio de Janeiro sob críticas, esquentando os debates sobre o tema. Publicada em 2007 e reeditada recentemente, a coletânea “Intolerância religiosa: impacto do neopentecostalismo no campo religioso afro-brasileiro” (Edusp) não poderia ser mais atual e traz um diagnóstico das raízes desse fenômeno. Organizador do livro, o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, da USP, explica, nesta entrevista, por que esses dois grupos religiosos estão no centro da questão.

#Colabora: Por que, quando se fala em intolerância religiosa no Brasil, o tema é relacionado com frequência a igrejas evangélicas neopentecostais e cultos de matriz afro?  

Vagner Gonçalves da Silva: Esses não são os únicos campos nos quais existem exemplos de intolerância. Mas, se você pega o Brasil nos últimos 30 anos, esses dois campos são os que têm apresentado mais conflitos. Eu nem diria que são dois campos, pois assim dá a impressão de que esses conflitos são mútuos. Eu diria que há mais um ataque das igrejas evangélicas neopentecostais em relação ao campo afro, e este só agora tem começado a reagir. O foco em igrejas evangélicas neopentecostais e cultos afros é por causa da dimensão que essa batalha adquiriu e vem adquirindo, e em relação à politização desses ataques. Eles começam mais internamente, no púlpito da igreja, e até a gente tem que questionar se haveria (ali) realmente um processo de intolerância. Porque, na verdade, o sacerdote dizer o que ele pensa sobre a sua religião e a religião dos outros faz parte, obviamente, da liberdade de culto. No âmbito doméstico da igreja, eu acho que as avaliações sobre o que é certo ou errado, o que é religião verdadeira ou falsa, fazem parte de cada sistema.

Esses ataques chegam ao limite máximo da esfera pública, quando políticos evangélicos e seus aliados tentam criar leis para coibir a expressão dessas religiosidades, como, por exemplo, a lei contra o sacrifício animal, leis contra despachos em áreas públicas

Vagner Gonçalves da Silva
Antropólogo

Se esse comportamento faz parte da liberdade do culto, como acontecem o que chamamos de ataques?

O problema é quando isso começa a sair do interior das igrejas. Primeiro, isso aconteceu atingindo os meios de proselitismo dessas igrejas, por exemplo, rádio, televisão, jornais. Depois, começou com a investida não apenas verbal, mas a física, com a invasão de terreiros, destruição de imagens e agressão aos membros dessas comunidades, em episódios em que foram jogados pedras, sal grosso, enxofre. A ponto de, agora, termos casos que beiram a criminalidade,  com terreiros incendiados, como já aconteceu em Brasília. Esses ataques chegam ao limite máximo da esfera pública, quando políticos evangélicos e seus aliados tentam criar leis para coibir a expressão dessas religiosidades, como, por exemplo, a lei contra o sacrifício animal, leis contra despachos em áreas públicas. Não questionando a legitimidade dessas leis, porque qualquer legislador pode propor qualquer tipo de lei, porque haverá o debate público. Mas, neste caso, a discussão já está contaminada pela pressuposição da coibição da outra expressão religiosa.

E é este movimento (neopentecostal) que põe a batalha espiritual no centro do seu aspecto evangelizador

Vagner Gonçalves da Silva
Antropólogo

Por que esse tipo de ataque começou a ser mais frequente?

Ele começa exatamente como característica do movimento pentecostal. A divisão desse movimento depende do autor, mas é consenso que o neopentecostalismo emerge nos últimos 20 anos. E é este movimento que põe a batalha espiritual no centro do seu aspecto evangelizador. Muitos dizem que eles têm por trás um projeto realmente evangelizador. Já aqueles mais críticos às igrejas neopentecostais dizem que é mais uma prestação de primeiros socorros espirituais e que, no fundo, não faz parte de uma estratégia evangelizadora. Eu discordo, eu acho que faz parte, mas é uma estratégia violenta e agressiva. As pessoas que são exorcizadas na igrejas muitas vezes acabam se tornando membros dessas mesmas igrejas.

Desde a primeira edição do seu livro, em 2007, a intolerância religiosa no Brasil aumentou?

Nos últimos cinco anos, tem piorado, e o processo de reação dos terreiros aumentou muito. Eu digo que a intensidade dos ataques aumenta porque a reação aos ataques por parte dos religiosos afro também cresceu. Nos últimos cinco anos, surgiram muitas organizações de movimentos de terreiros, ONGs e outras entidades em defesa da liberdade religiosa. Tem-se acirrado o confronto e tem-se, inclusive, ido parar na Justiça. A Intecab, que é uma organização religiosa, e a Ceert, que é uma organização de regulamentação do trabalho, entraram com um processo contra a rede Record acusado-a de produzir programas que veiculam intolerância religiosa. As organizações ganharam e, agora, vão ter direito de resposta. Essas vitórias que as comunidades religiosas têm conseguido na Justiça fazem com que haja uma contrainvestida e, consequentemente, um contra-ataque. A ponto de ocorrerem ataques que não existiam anteriormente. Por exemplo, há dez, 15 anos, você não tinha casos de incêndio de terreiros, depredação, agressões físicas.

Você acha que esses exemplos de intolerância não existiam ou não eram notificados?

Eu peguei uma boa parte dos casos, na imprensa, nas etnografias, e fiz um dossiê que é o prefácio do livro. Pelo que saiu na imprensa, casos com esse nível de violência não existiam.  Isso aumentou de 2010 em diante,  quando passam a acontecer mais atos criminosos.

A história dos cultos afro-brasileiros mostra que eles sempre foram alvo de repressão por parte dos tais grupos dirigentes. Se você pega o Brasil Colônia, esses grupos eram condenados e julgados pela prática da heresia

Vagner Gonçalves da Silva
Antropólogo

Pensando na questão histórica, há algum paralelo da intolerância religiosa com a história do Brasil e como os grupos se enxergaram no passado ou  é um fenômeno contemporâneo?

A história dos cultos afro-brasileiros mostra que eles sempre foram alvo de repressão por parte dos tais grupos dirigentes. Se você pega o Brasil Colônia, esses grupos eram condenados e julgados pela prática da heresia. Até aí, você pode dizer: qualquer tipo de religião dissidente seria julgado assim, inclusive o judaísmo. A Inquisição não foi feita para combater as religiões afro, inclusive entravam os judeus novos, qualquer um que professasse a fé da metrópole. Quando você tem o advento da República, a coisa muda. Porque o Estado, obviamente, se separa da Igreja e se torna uma sociedade laica. Mas se a repressão (a essas religiões) não fica mais atrelada à ideologia de Estado, ela fica atrelada ao Código Penal.

Protesto contra intolerância religiosa em São PauloGroups of different beliefs protest against religious intolerance, on Paulista Avenue in São Paulo, em janeiro de 2016 (Gabriel Soares/ Brazil Photo Press/AFP)
Protesto contra intolerância religiosa em São PauloGroups of different beliefs protest against religious intolerance, on Paulista Avenue in São Paulo, em janeiro de 2016 (Gabriel Soares/ Brazil Photo Press/AFP)

Tem exemplos?

O primeiro Código Penal republicano já enquadra crimes de curandeirismo, espiritismo, magia, sortilégios. Então, esse código de 1891 já enquadrava e reprimia os terreiros a partir desta percepção de que aquilo não era religião, era crime. Depois, o código penal de 1940 não mudou isso, ele continua enquadrando esses crimes. Isso engloba uma totalidade? Sim, mas preferencialmente os cultos afros eram julgados por esses códigos. A história desses cultos foi sempre uma história de repressão. Não só por que eles pertencem a populações pobres, mas também marginalizadas e negras. Nos anos 1970, mais ou menos, há uma grande transformação por algumas razões: o crescimento da umbanda no Sudeste conseguiu fazer que esses cultos tivessem uma visibilidade mais positiva, vinda por meio do kadercismo de classe média branca, e também há um movimento da cultura brasileira, que faz com que essas religiões sejam vistas de uma maneira mais positiva. Então você tem a influência de artistas baianos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia… Você tem musicais na TV Globo mostrando Clara Nunes cantando músicas de orixáss. Você tem minisséries na televisão, com mães de santo, como “Tenda dos milagres”, a partir do livo do Jorge Amado. Nos anos 70, então ser do candomblé era algo cool.

As pessoas tendem a minimizar esses ataques porque estão ocorrendo no “andar de baixo”. Quem está atacando quem? É “pobre neopentecostal” atacando “pobre macumbeiro”, como eles chamam. Então isso não está afetando as elites. Isso é uma “guerrinha”, como eu chamo uma guerra nada particular

Vagner Gonçalves da Silva
Antropólogo

Existe alguma variação regional em relação aos episódios de intolerância religiosa?

Eu vejo que independe. Você tem ataques em Salvador, Brasília, Rio de Janeiro, Goiânia. Em relação às igrejas neopentecostais, elas possuem um proselitismo muito padronizado. Eu diria que elas são franquias de um padrão da matriz. O procedimento é o mesmo. Uma igreja neopentecostal em Salvador tem o mesmo procedimento em São Paulo e Rio de Janeiro. Eu vejo pela reação dos terreiros, que estão reportando ataques parecidos. Existem algumas coisas que são simbólicas. Em Salvador, houve uma mobilização na Câmara dos Vereadores para transformar a data da agressão a uma mãe de santo (a mãe anto Gildásia, que morreu em função de um ataque da IURD) em  Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa, que depois virou um dia nacional. Foi um fenômeno local que expressava acontecimentos de âmbito nacional.

Em que espaços falta mais debate sobre intolerância religiosa na sociedade brasileira?

As pessoas tendem a minimizar esses ataques porque estão ocorrendo no “andar de baixo”. Quem está atacando quem? É “pobre neopentecostal” atacando “pobre macumbeiro”, como eles chamam. Então isso não está afetando as elites. Isso é uma “guerrinha”, como eu chamo uma guerra nada particular, é uma guerra que tem implicações em várias questões. Na questão do Estado laico, como ele deve interferir nessas questões? Por exemplo, nós temos concessões de TVs para órgãos religiosos. Esses órgãos religiosos estão usando essa concessão para fazer ataques religiosos. Mas se o Estado vai interferir, ele tem que questionar sua própria condição de Estado laico. Um exemplo, nos prédios públicos tem um crucifixo. A própria Constituição é promulgada em nome de Deus.


Escrito por Helton Levy

Helton Levy

É jornalista, baseado em Londres, Reino Unido. Sua pesquisa de doutorado na City University of London aborda a relação entre mídia e desigualdade no Brasil contemporâneo.

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