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A Amazônia de Temer

Especialistas criticam discurso de presidente na ONU sobre desmatamento


Michel Temer durante a entrevista para os jornalistas após o discurso na ONU. Foto Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press
Michel Temer durante a entrevista para os jornalistas após o discurso na ONU. Foto Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press

Desta vez o presidente Michel Temer parece ter alcançado, finalmente, a tão sonhada unanimidade. Dez em cada dez especialistas em meio ambiente, clima e Amazônia fizeram duras críticas ao seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nesta terça-feira.  Diante de lideranças de quase 200 países, Temer disse que trazia uma boa notícia: “Os primeiros dados disponíveis para o último ano já indicam diminuição de mais de 20% do desmatamento na Amazônia. Retomamos o bom caminho e nesse caminho persistiremos”.

Temer tentou passar aos líderes mundiais uma imagem do Brasil sobre meio ambiente e mudanças climáticas que só se sustenta em páginas de discursos

Carlos Rittl
Secretário-executivo do Observatório do Clima

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, o presidente Temer fez exatamente o que se esperava dele: “Tentou passar aos líderes mundiais uma imagem do Brasil sobre meio ambiente e mudanças climáticas que só se sustenta em páginas de discursos”. Rittl diz que ele escamoteou as altíssimas taxas de desmatamento e os números absurdos de incêndios florestais em todas as regiões do país. Além de ocultar a escalada de violência contra povos indígenas e lideranças comunitárias: “Estamos batendo recordes de assassinatos, que são o resultado direto da destruição da agenda socioambiental do país em troca dos votos da bancada ruralista. Retrocessos que só podem ser comparados aos promovidos pelo governo de Donald Trump nos EUA”, completou.

Mas será que Michel Temer mentiu mesmo? Os dados são falsos? Os números existem, é verdade, e fazem parte de um levantamento do Instituto de Pesquisa Imazon, que faz esse tipo de análise sobre a Amazônia todos os meses. No entanto, em entrevista à BBC Brasil, um dos representantes do instituto disse que a informação apresentada por Temer é, no mínimo, “imprecisa” e “inadequada”, e que as políticas recentes do governo federal na realidade tendem a aumentar a destruição da Amazônia.

“Os dados que o Imazon mede mensalmente podem indicar uma tendência. Portanto, é possível que o desmatamento caia. Mas não podemos dizer 20% porque não temos a precisão que essa afirmação exige”, diz o engenheiro florestal Paulo Barreto, pesquisador associado do Imazon.

O fato é que os dados do Imazon não são oficiais. Os números do governo, fornecidos pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) ainda não foram divulgados, o que deve acontecer apenas no final do ano. O que o presidente fez foi comparar os dados oficiais de 2016 com uma pesquisa parcial do Imazon, que utiliza metodologias completamente diferentes. Segundo Paulo Barreto, o que o governo vem fazendo nos últimos meses é exatamente o oposto do que Temer pregou em seu discurso. Ele vem enviando projetos ao Congresso propondo a redução de áreas de conservação que, se aprovadas, devem dobrar as taxas de desmatamento da Amazônia.

O secretário-executivo do WWF Brasil, Maurício Voivodic, segue na mesma linha. Para ele, as últimas medidas propostas ou sancionadas pelo presidente Temer não contribuem em nada para mudar a posição do Brasil, que é hoje o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta. “Os dados oficiais produzidos pelo Inpe apontam que no ano de 2016 tivemos a maior alta do corte raso na Amazônia desde 2008 – perdemos quase 8.000 quilômetros quadrados de floresta – e boa parte em Unidades de Conservação. Além disso, estamos perdendo cobertura nativa no cerrado a uma velocidade tremenda: foram 9.483 quilômetros quadrados de vegetação desmatada em 2015. Isso equivale a mais de seis cidades de São Paulo e supera em 52% a devastação na Amazônia no mesmo ano”, concluiu.

Na verdade, o discurso na ONU foi uma tentativa do presidente de reverter a má impressão causada pela proposta de extinção da Reserva Nacional do Cobre e Derivados (Renca) e pelos cortes no financiamento de países como Dinamarca e Alemanha ao Fundo Amazônia, dedicado a financiar a preservação da floresta.

André Ferretti, coordenador-geral do Observatório do Clima e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, diz que o discurso de Temer não casa com a prática: “Nossas florestas e áreas protegidas nunca foram tão ameaçadas como nos últimos meses, seja por Medidas Provisórias, seja por decretos que permitem atividades de mineração em plena floresta amazônica. Essas ações atendem ao interesse de uma minoria no Congresso e põem em risco justamente o que se diz ser a maior riqueza do Brasil, o agronegócio. São exatamente os produtores rurais que necessitam dos serviços prestados por áreas naturais preservadas. A melhor maneira de amenizar seus danos é por meio da proteção e da recuperação dos ecossistemas”.


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