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‘Não tem lógica dizer que as ciências sociais são inúteis’

Professor da UFRJ com doutorado na Sorbonne, Henri Acselrad diz que governo faz o oposto de 'qualquer reflexão consistente, coerente e comprovada empiricamente'


O professor Henri Acselrud critica o descaso com as Ciências Sociais: 'Só o desconhecimento pode explicar o que estamos ouvindo com certa frequência no atual governo, que as Ciências Sociais não têm utilidade' (Foto: Reprodução)
O professor Henri Acselrud critica o descaso com as ciências sociais: ‘Só o desconhecimento pode explicar o que estamos ouvindo com certa frequência no atual governo, que as ciências sociais não têm utilidade’ (Foto: Reprodução)

Não foram apenas os cortes de recursos das universidades e institutos federais que colocaram de um lado o Ministério da Educação e do outro os professores e alunos. Em várias oportunidades, representantes da pasta se referiram às Ciências Sociais como uma área de menor importância. A predileção pelos cursos de Exatas, Biológicas, Agrárias, Saúde e Engenharias é declarada, como se um governo pudesse descartar campos de pesquisa que não o agradam.  Entre críticas, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, chegou a defender a redução de verbas especificamente apara “as ciências sociais aplicadas, humanidades e linguística”.

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Para Henri Acselrad, professor titular do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Planejamento, Econonia Pública e Organização do Território pela Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne),  só o desconhecimento pode explicar essa postura governamental. “Nunca como agora faltou tanto conhecimento de Ciências Sociais”, constata. Na entrevista a seguir, Acselrad mostra como a falta de lógica impera nas ações governamentais e adianta quais prejuízos isso pode causar ao país:

#COLABORA – Qual o motivo das recentes ataques e críticas às Ciências Sociais, que passaram a ser tratadas pelas autoridades como se não servissem para nada?

Henri Acselrad – Há na sociedade pouco conhecimento sobre a natureza científica do trabalho das Ciências Sociais. Elas estudam fatos e problemas criados pela própria sociedade e identificados por ela, para, então, procurar discutir e resolver. Para isso, assim como outros tipos de ciências, ela usa a lógica, a verificação empírica e a comparação no tempo e no espaço. São problemas que atrapalham a vida das pessoas e desestruturam certos aspectos da vida social, agravam a própria sociabilidade, como no caso da violência. Todas essas manifestações de uma crise são por definição objeto de pesquisa científica. Então, além de um debate mais aberto, dentro do bom senso ou senso comum, ela constrói instrumentos mais apurados, mais refletidos, mais rigorosos para estudo desses assuntos. Aplica um método e um sistema de análise. Como toda a ciência, as Ciências Sociais tentam explicar os fenômenos e aprofundar o conhecimento sobre eles.

A ideia de inutilidade dos cientistas sociais está sendo difundida pelo próprio governo. Como o sr. analisa essas críticas?

Acselrad – No governo, é mais complicado. Dar a entender  que essas vivências que produzem conhecimento mais sistematizado sobre os problemas sociais são inúteis é faltar com a lógica, com a fundamentação empírica e com o trabalho comparativo histórico e geográfico. Só esse desconhecimento pode explicar o que estamos ouvindo com certa frequência no atual governo, que as Ciências Sociais não têm utilidade. Por essa mesma falta de lógica, ao reconhecerem que a educação está insuficiente, cortam recursos como solução. Se os níveis de violência estão elevados, distribuem-se armas. Se a degradação ambiental se agrava, punem-se os fiscais ambientais. Exatamente o oposto  de qualquer reflexão consistente, coerente e comprovada empiricamente. O que estamos vendo dentro do governo é justamente a falta de diálogo, de reflexão, de maior influência das Ciências Sociais para que as falas sejam dotadas de lógica e fundamentação prática.

Qual a gravidade disso?

Acselrad – Se o Brasil tem um dos maiores índices de desigualdade social, o que, infelizmente, é um fato grave que está no eixo das Ciências Sociais, caberia a esses cientistas estudar as causas. Se tem famílias morando sob risco de escorregamento de encostas, tem que se estudar o problema habitacional. A máquina pública está sendo apropriada por interesses privados? Devemos estudar a sociologia das instituições governamentais. Nunca como agora faltou tanto conhecimento de Ciências Sociais num país que está atravessado por esse tipo de problema.

O que têm em comum o censo, o museu e o mapa? O saber sobre a população, o saber sobre o território e o saber sobre a cultura, a diversidade cultural e as nossas tradições. E estão sendo  atacados como campos que não ajudam a governar.

Henri Acselrad
Professor da UFRJ

Mas o sr. não acha que essa fala de autoridades governamentais só tem eco porque a própria população não reconhece a importância dos cientistas sociais?

Acselrad – Há dificuldade para o próprio entendimento do que seja ciência em geral. Há uma associação da ciência à descoberta e ao progresso tecnológico. Notadamente num momento em que o capitalismo vem intensificando a tentativa de fazer negócios em cima da inovação tecnológica.  Em paralelo com essas inovações que podem ajudar a sociedade a viver melhor, o conhecimento sociológico e também as inovações sociais são  um caminho pra você construir uma sociabilidade mais democrática, em que a vida melhore pela superação da desigualdade, dos desequilíbrios, da dificuldade de convivência, da discriminação. Em uma sociedade de tal maneira atravessada por desigualdades sociais de raça e gênero, é premente que haja  informação bem construída, análises de diferentes perfis teóricos que debatam na esfera pública as razões e os caminhos para superar isso. Enfrentar essa herança terrível de uma escravidão que até hoje está  marcando essa cisão  no interior da nossa sociedade. Construir uma sociedade de convivência democrática passa necessariamente por aí. Não há dispositivo técnico, eletrônico ou de outra ordem que  dê conta disso. Não é a disseminação do celular que vai fazer com que as pessoas se sintam melhor na vida em sociedade. Tenho a impressão de que o  que aparecia como ciência na grande imprensa tendia a ser esse tipo de grande descoberta, a inovação tecnológica. Ajudaria se a gente tivesse espaço na grande imprensa para a reflexão dos problemas, todas as discussões sobre as raízes da violência e como enfrentá-la. No senso comum, raramente você vê a associação  do aprofundamento da violência com o aprofundamento da desigualdade. A ciência ajuda a correlacionar fatos e buscar entendimento.

O professor Henri Acselrud critica o descaso com as Ciências Sociais: 'Só o desconhecimento pode explicar o que estamos ouvindo com certa frequência no atual governo, que as Ciências Sociais não têm utilidade' (Foto: Reprodução)
O professor Henri Acselrad critica o descaso com as Ciências Sociais: ‘A falta de lógica está disseminada. É também um reflexo de um lado da crise da educação. Onde há mais educação e debate interno, há mais bom senso’ (Foto: Reprodução)

Então, o que os governantes falam das Ciências Sociais encontra eco na sociedade…

Acselrad – Estamos vivendo um momento bastante estranho. Muito daquilo que o governo está afirmando hoje passou pelo debate eleitoral. Então, essa história de que vai se distribuir arma para combater a violência, uma assertiva absolutamente ilógica, que produz o contrário daquilo que pretende resultar, isso foi dito na campanha. Essa belicosidade de certos setores já assustava.  A votação parece ter referendado isso, o que é assustador. A falta de lógica está disseminada. É também um reflexo de um lado da crise da educação. Onde há mais educação e debate interno, há mais bom senso. O que etimologicamente educação queria dizer na Grécia? Trazer o cidadão do espaço privado para o espaço público, politizá-lo, no melhor sentido. Aquilo que o presidente disse que deveria acabar: a politização das escolas. Politização por definição é educação, é a capacidade de refletir sobre os problemas comuns. E a construção de um mundo comum que não seja atravessado por recordes de desigualdade.

 É possível medir o prejuízo que isso causa ao país?

Acselrad – Um historiador chamado Benedict Anderson descreve os processos históricos de construção nacional, basicamente nos estados pós-coloniais. Ele chama atenção para três instituições que são constitutivas dessas nações: o censo, o mapa e o museu. Ou seja, as três instituições que de alguma maneira estão sendo atacadas no Brasil. O IBGE foi criticado por estar criando problemas para o governo, é responsável pelo censo e pelo mapa. O museu, que representaria em  síntese as políticas culturais que estão sendo abandonadas por esse governo, demonizadas. O que têm em comum o censo, o museu e o mapa? O saber sobre a população, o saber sobre o território e o saber sobre a cultura, a diversidade cultural e as nossas tradições. Estão sendo  atacados como campos que não ajudam a governar. Mas são justamente os campos onde estão situados os conhecimentos a partir dos quais você pode discutir políticas públicas com base  em evidências empíricas. Conhecer a população, o território, o meio ambiente e a cultura.

Diante desse quadro, há alguma brecha para esperança de melhora na área da ciência e da educação?

Acselrad – Houve um certo alívio de perceber uma reação, uma indignação coletiva. Nós que já somos velhinhos sabemos que as mudanças se dão quando há mobilização coletiva. A presença de várias gerações de estudantes a professores nas manifestações contra os cortes para a educação foi positiva. A convivência naquele espaço de mobilização e de reflexão,  de movimento e de ocupação de espaço por uma mesma causa, com todas as diferenças que possam haver, indicam que a educação deve ser o pilar para tirar o país do buraco. Isso dá esperança. É uma mostra de que a sociedade está viva, principalmente os jovens.

13/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.


Escrito por Chico Alves

Chico Alves tem 30 anos de profissão: por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Na maior parte da carreira atuou como editor-assistente na revista ISTOÉ, mais precisamente por 19 anos. Foi editor-chefe do jornal O DIA por mais de três anos. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

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Um Comentário

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  1. Muito boa análise, em tempos em que a sociedade brasileira parece se fechar aos fatos, o senso comum reina como uma raiz do escapismo dos reais problemas sociais enfrentados pelo país. Aliás muito bem discorrido sobre a questão da enorme desigualdade social brasileira, haja visto que esse argumento CIENTÍFICO vai em contra mão a “lógica” utilizada pelos apoiadores do livre porte de arma.

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