Respirando pó de lama

Agua em Gesteira. Foto de Andre Teixeira

O impacto na saúde e na agricultura, um ano após o maior desastre ambiental do país

Por Liana Melo | Economia VerdeODS 14
Publicada em 3 de novembro de 2016 - 08:35  -  Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 15:41
Tempo de leitura: 10 min

Agua em Gesteira. Foto de Andre Teixeira
Agua em Gesteira. Foto de Andre Teixeira
Agua em Gesteira. Foto de Andre Teixeira
Gado pasta na beira do rio Gualaxo, um dos afluentes do Doce. A água barrenta é consumida pelos animais e usada para irrigar hortas de pequenos agricultores. Foto de André Teixeira

É um vai e vem de caminhões sem fim. Não para nem à noite, quando os moradores de Barra Longa vão dormir. Distante 172 quilômetros de Belo Horizonte, ela é uma das 30 cidades atingidas pela lama de rejeitos da Samarco. O tráfego intenso de veículos pesados desfez até o asfalto das ruas – refeito, recentemente, com blocos de rejeitos de minério, pela própria empresa. Barra Longa virou um canteiro de obras a céu aberto. A rapidez com que a intervenção urbanística vem ocorrendo transformou a cidade numa espécie de “modelo de reconstrução” pós-desastre. O ritmo acelerado das obras esconde um lado perverso: o aumento do pó de lama, que, ao impregnar toda a cidade, passou a ser absorvido, compulsoriamente, pela população local por meio da pele e da respiração.

À medida que o tempo passa, o rompimento da barragem de Fundão vem ganhando novos contornos, além da mancha marrom que tingiu o rio Doce e o rastro de destruição que deixou pelo caminho. Como subproduto do desastre ambiental, a população começa a sentir os efeitos colaterais da lama de rejeitos na sua saúde. Aumento de problemas respiratórios e de manchas na pele, além de um surto de dengue, engordam os dados estatísticos e epidemiológicos da cidade, às vésperas da tragédia completar, daqui a dois dias, um ano.

Riscos múltiplos

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Obra em Gesteira. Foto de Andre Teixeira
Caminhões transitam o dia inteiro por Barra Longa e Gesteira, o que dificulta a lama sedimentar. Foto de André Teixeira

Como Barra Longa não tem hospital, os doentes são obrigados a pedir socorro na cidade vizinha, Ponte Nova – o que confirma, na prática, o diagnóstico do Banco Mundial (Bird), que são os pobres os atingidos com maior intensidade por qualquer que seja o tipo de desastre. 

Para remediar o dano na saúde, a Samarco instalou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na cidade, mas o posto não oferece serviços essenciais como pediatria, dermatologia e pneumologia.

Controlada pela brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, a mineradora já afirmou inúmeras vezes, neste último ano, desde que ocorreu o desastre, que sua lama não é tóxica – nunca apresentou, no entanto, uma pesquisa para comprovar o diagnóstico. Afirma também que a qualidade do ar está abaixo dos parâmetros estipulados pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), que é de 50 microgramas por metro cúbico.

A doutora em patologia Evangelina Vormittag, da USP (Universidade de São Paulo), não concorda com a avaliação da empresa. Chegou a solicitar os dados, mas não recebeu até agora nenhuma informação. Depois de muita insistência, foi informada que o levantamento havia sido entregue ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Evangelina está convencida de que “a demora na divulgação de dados sobre teor e tipos de resíduos tóxicos contidos na lama multiplica os riscos à saúde da população”.

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A demora na divulgação de dados sobre teor e tipos de resíduos tóxicos contidos na lama multiplica os riscos à saúde da população

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À frente de um dos seis estudos científicos financiado pelo projeto Rio de Gente, feito em parceria com o Greenpeace, para avaliar os riscos à saúde da população afetada, Evangelina garante que os níveis de poluição do ar em Barra Longa estão acima dos parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 150 microgramas por metro cúbico – indicador que, segundo ela, é o mais adequado para medir poluição do ar. “Pelo parâmetro do Conama, nenhuma cidade brasileira tem o ar poluído, nem mesmo São Paulo”, diz ela, comentando que os “padrões atuais usados pelo país estão desatualizados, o que dificulta, do ponto de vista da saúde, a visualização da realidade dos fatos”.

Exposição por longo tempo

Ao contrário de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, onde a lama passou destruindo absolutamente tudo, Barra Longa e redondezas continuam de pé e o número de atingidos diretamente pelo rompimento da barragem é menor. Em compensação, estão expostas ao pó de lama por um longo período, até porque a lama não sedimenta, devido ao intenso movimento de veículos. O parque de exposições, por exemplo, chegou a ser usado pela Samarco para depositar a lama retirada das ruas. Por ser irregular, a empresa foi multada em R$ 1 milhão pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Até hoje não pagou um único centavo, como fez com as outras quatro multas, já que recorreu na Justiça.

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O mais cruel nesse episódio é que, no futuro, daqui uns 10 anos, por exemplo, vai ficar cada vez mais difícil correlacionar a incidência de determinadas doenças com o desastre da Samarco

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Os resultados da pesquisa de Evangelina serão divulgados em janeiro, mas dados preliminares indicam que, a longo prazo, não está descartada a incidência de agravamento de doenças crônicas. “O mais cruel nesse episódio é que, no futuro, daqui uns 10 anos, por exemplo, vai ficar cada vez mais difícil correlacionar a incidência de determinadas doenças com o desastre da Samarco”. Ter um banco de dados sobre a tragédia e seus efeitos no homem e natureza é fundamental para viabilizar pesquisas que comprovem o nexo causal dos eventos.

Contaminação hídrica

Os pequenos agricultores de Governador Valadares, em Minas Gerais, e de Colatina, no Espírito Santo, continuam usando a água do rio Doce para irrigar suas hortas. Os agricultores plantam no meio da lama. Alguns temem uma eventual contaminação hídrica; outros preferem nem pensar no assunto, dada a total impossibilidade de conseguir água de outra fonte, que não seja o rio que passa perto da sua casa. André Pinheiro de Almeida, do Instituto Carlos Chagas, da UFRJ, está estudando a contaminação por metais pesados na água utilizada pelos agricultores familiares – a agricultura familiar é responsável por 80% da produção de alimentos no país. Assim como a de Evangelina, sua pesquisa está sendo bancada pelo projeto Rio de Gente e também só ficará pronta em janeiro.

Logo que chegou na região ouviu dos produtores que a água estava fedorenta e com uma coloração alaranjada. O cheiro forte vem do ferro em alta concentração e a cor laranja é culpa do manganês, que é bem mais danoso à saúde. A presença desse metal pesado pode provocar rigidez muscular, tremores da mão (doença conhecida como parkinsonismo), irritabilidade e  comportamentos compulsivos.

As doenças são apenas uma das dimensões da tragédia da Samarco. Os pequenos agricultores já estão sentindo no bolso o impacto econômico da lama no seu terreno. Com o solo da área atingida infértil, a terra  “cimentada” está inviabilizando a produção local de vários produtos. O café, por exemplo, morre antes de amadurecer. Quem vendia café, vai deixar de vendê-lo; e quem comprava será obrigado a ir atrás de outro fornecedor. Com o produto vindo de longe, a tendência é ficar mais caro. E assim, com o passar do tempo, o desastre da Samarco vai ganhando novos contornos.

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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2 comentários “Respirando pó de lama

  1. Gabriela disse:

    É assustador o descaso com a população atingida. A empresa segue operando como se nada tivesse acontecido, sem pagar multas, sem ter sua licença cassada. A população pobre é mais atingida e não tem nenhum suporte. As pessoas seguem como simples objetos descartáveis em meio a governo e empresas que só pensam no seu bolso. Revoltante

  2. Hylton Sarcinelli Luz disse:

    Quanto mais atentamos para a amplitude dos impactos desta tragédia, mais ficamos assombrados com a insignificância que as empresas Samarco, Vale do Rio Doce e BHP Billington atribuem aos valores humanos e ambientais. Insignificância que se traduz no vagar com as providências de recuperação, com as iniciativas jurídicas para evadir-se de suas responsabilidades e com o valor modesto dos recursos destinados aos investimentos na reparação dos danos. Hoje declaram ser da ordem de R$ 20 Bilhões o valor destinado às reparações, dos quais referem haver gastos R$ 1 Bilhão neste período inicial. Quem em sã consciência pode supor que já tenham sanado 5% de todos os prejuízos causados à VIDA de todos os seres vivos do afetados?

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