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Invista em felicidade, reduza o aquecimento global

Criar um novo padrão de consumo, compartilhar bens e serviços ajuda a promover o bem-estar e a reduzir as emissões de gases de efeito estufa


Os resultados de pesquisas sobre índice de felicidade comprovam que a mera acumulação de bens não traz bem estar
Os resultados de pesquisas sobre índice de felicidade comprovam que a mera acumulação de bens não traz bem estar

Muito já foi dito acerca do grande desafio contemporâneo que é a redução das emissões de gases de efeito estufa, sendo o dióxido de carbono (CO2) o principal gás. De forma simplificada, é possível admitir a existência de um orçamento global de carbono de, no máximo, 1,8 trilhão de toneladas a ser emitido, ou “gasto”, por todo o planeta ao longo do século 21. A emissão atual é de cerca de 50 bilhões de toneladas anuais, o que significa que o orçamento previsto até o ano de 2100 será atingido em meados deste século. O acordo de Paris – assinado durante a COP21, e recém-celebrado – não traz segurança de que o mundo ficará com suas emissões dentro deste patamar.

Fomentar uma economia de mais satisfação à população, sem estar atrelada ao consumo, é uma importante estratégia de mitigação. Serviços ao invés de produtos e compartilhamento de bens trazem enormes benefícios.

Não é fácil adotar medidas de mitigação de carbono em um mundo com população, renda e consumo por bens e serviços crescentes. Tanto é assim que, há mais de 20 anos, sabemos o que precisa ser feito para combater a mudança climática e, ainda assim, nossas emissões hoje são 60% acima do que eram em 1990. Como alento, vemos em curso o início de uma transição – ainda muito suave, para um mundo sem energia fóssil, e baseado em fontes renováveis e aumento de eficiência energética. Só que todo este esforço não será suficiente para compensar a entrada de novos consumidores no mercado com o padrão de consumo existente nos dias de hoje.

É imperativo promover um novo padrão de consumo. Não é necessário grande conhecimento de psicologia para entender que, muitas vezes, o consumo se dá para suprir algum vazio, compensar e preencher lacunas, dando uma falsa sensação de bem-estar e de felicidade. Para alterar o padrão de consumo é preciso se identificar outras necessidades que gerem o bem-estar. Várias pesquisas comprovam que o aumento do consumo – especialmente após certo patamar, onde as necessidades básicas já estão atendidas – não se correlaciona com melhoria nos indicadores de felicidade. Ou seja, os resultados de pesquisas sobre índice de felicidade comprovam que a mera acumulação de bens não traz bem-estar.

Fomentar uma economia de mais satisfação à população, sem estar atrelada ao consumo, é uma importante estratégia de mitigação. Serviços ao invés de produtos e compartilhamento de bens trazem enormes benefícios.

O conceito de economia compartilhada implica em colaboração social, que, por si só, já contribui para o bem-estar, envolve também a indústria de tecnologia da informação e do conhecimento, que tem alto valor agregado e baixo impacto ambiental. A forma mais conhecida de economia compartilhada é protagonizada pelas bicicletas – o meio de transporte que mais cresce no mundo. Outro serviço que tem se destacado é o “couchsurfing” – site que aproxima viajantes de pessoas locais, e é, atualmente, um serviço de hospitalidade em franca expansão. O mesmo se dá com compartilhamento de escritórios, veículos e outros bens. De um modo geral, fazer parte de um grupo de compartilhamento traz mais bem-estar e felicidade do que a simples posse de um bem. A sensação de “pertencimento”, de acordo com vários estudiosos do tema, faz muito bem ao indivíduo, promovendo conforto e satisfação.

Um nível mais elevado de satisfação faz com que as faltas ao trabalho sejam menores e melhore a produtividade e desempenho. Os custos com saúde diminuem. Solidariedade e respeito ao bem comum aumentam, gerando uma maior riqueza material para a comunidade em questão. Um grau mais alto de confiança na sociedade em que se vive reduz os “custos de transação” desta sociedade, que passa a ter menores gastos com fiscalização, burocracia, corrupção, litígios, contratos e regulações.

Assim, um meio alternativo de mitigação de gases de efeito estufa é atuar na busca da felicidade, revendo os conceitos de progresso e desenvolvimento. O progresso não é uma mera acumulação interminável de bens de capital, que provoca danos à felicidade da coletividade, seja através da destruição do ambiente que se vive, a ruptura das relações sociais ou ainda o elevado nível de ansiedade individual.

A alternativa de mitigação de gases de efeito estufa contemplando a busca da felicidade e bem-estar da sociedade via compartilhamento, redução de consumo e valorização de bens imateriais, complementa as propostas nacionais de mitigação insuficientes apresentadas em Paris na COP21.


Escrito por Suzana Kahn

Suzana Kahn

Engenheira mecânica com doutorado em engenharia de produção. Professora da COPPE/UFRJ, presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudança Climática e coordenadora do Fundo Verde da UFRJ.

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