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Machismo na MPB?

Da marchinha de Ary Barroso 'Dá nela' ao sucesso 'Marina' de Caymmi, letras refletiram costumes de épocas


mpb-colagem

A música brasileira sempre foi excelente cronista de costumes desde que teve uma identidade própria a partir do fim do século XVIII com as modinhas e lundus de Domingos Caldas Barbosa. Sendo assim, tudo que cantamos de lá para cá é reflexo direto do tempo em que cada canção foi composta. Então quando me perguntam se a MPB é ou foi machista (como no caso da nova música de Chico Buarque, “A tua cantiga”) a resposta está embutida na pergunta. Considerando que somente nos últimos 40 anos é que a mulher foi mudando de patamar em nossa sociedade, é claro que ao longo do tempo a nossa música produziu pérolas misóginas e extremamente machistas – ainda que os nossos autores do passado não fizessem isso como afronta, mas porque isso era considerado normal.

A partir de 1902, quando a nossa indústria fonográfica foi implementada, o que vamos observar é que até pelo fato de praticamente não haver compositoras/letristas era muito difícil a mulher levar a melhor. No geral ela era a culpada por tudo que dava de errado nos relacionamentos, e mesmo nas serestas de louvor à mulher amada, ao menor contato com o protagonista da canção ela já passava de musa idealizada ao próprio diabo de saias. Por outro lado, as mulheres mais liberadas, como as prostitutas, exerciam um misto de fascínio e repúdio dos compositores. As que não se curvassem ao macho provedor eram vistas como mulheres de caráter fraco e não raro lhes eram rogadas verdadeiras pragas.

Essa mulher há muito tempo me provoca/ Dá nela! Dá nela/ É perigosa, fala mais que pata choca/ Dá nela! Dá nela!”

'Dá nela', 1930
Ary Barroso

Até os anos 1960, o que se esperava da mulher é que fosse boa mãe e esposa dedicada. Ela era propriedade do homem e qualquer transgressão maior implicava numa crítica em forma de samba, valsa, seresta, fox, bolero etc. Foi com essa marchinha que Ary Barroso se lançou ao sucesso em 1930 na voz de Francisco Alves: “Essa mulher há muito tempo me provoca/ Dá nela! Dá nela/ É perigosa, fala mais que pata choca/ Dá nela! Dá nela!”. Já Noel Rosa, dois anos depois, se referia a um de seus desafetos da seguinte maneira num de seus sambas deliciosamente jocosos: “Mas que mulher indigesta, indigesta, indigesta/ Merece um tijolo na testa”.
Em 1938, nosso sambista maior, Cyro Monteiro, foi lançado ao sucesso com uma pérola de Lupicínio Rodrigues (com Felisberto Martins) – a mesma que também catapultou a carreira de Elza Soares em 1959 –, um samba com uma lógica bastante parcial, para o lado do homem, é claro: “Se acaso você chegasse/ No meu chateau e encontrasse/ Aquela mulher que você gostou/ Será que tinha coragem de trocar a nossa amizade/ Por esta que já lhe abandonou?”. Ou seja, a culpa da traição amorosa não é do homem, mas da mulher traiçoeira que se deixou seduzir pelo amigo do cônjuge.
Em 1947, vivíamos o início do auge do samba-canção. E o não menos genial Dorival Caymmi obteve um sucesso estrondoso com “Marina”. A mulher enfocada por ele nesta letra comete um pecado mortal: resolveu maquiar-se sem o seu consentimento: “Marina, morena, você se pintou/ Marina, você faça tudo, mas faça o favor/ Não pinte este rosto que eu gosto/ E que é só meu” e ao final mostra sua indignação em relação ao ocorrido: “Já me aborreci, me zanguei, já não posso falar/ E quando me zango, Marina/ Não sei perdoar”. Ou seja, a palavra final é a do homem, a que vale, e acabou!

Eu lá no morro só respeito o meu mulato/ Porque ele é mesmo bamba… (…) Vivo feliz, no meu canto sossegada/ Tenho amor, tenho carinho, oi!/ Tenho tudo e até pancada! (…) E eu gosto dele porque ele é um mulato de qualidade

Mulato de qualidade, 1932
Letra de André Filho, intérprete Carmen Mirand

Muitas vezes as próprias cantoras brasileiras incorporaram o machismo de forma natural. Carmen Miranda, embora muito avançada por uma série de aspectos, cantou em 1932 o seguinte samba de André Filho: “Eu lá no morro só respeito o meu mulato/ Porque ele é mesmo bamba… (…) Vivo feliz, no meu canto sossegada/ Tenho amor, tenho carinho, oi!/ Tenho tudo e até pancada! (…) E eu gosto dele porque ele é um mulato de qualidade”. Sim, bater em mulher era algo tão natural, que era visto como calmante para as mulheres em muitos casos. Duas décadas depois, em 1954, Dircinha Batista fez grande sucesso no carnaval com um samba de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti cuja mensagem patriarcal era bem clara: “A mulher que é mulher não quer saber de intriga/ Diga o homem o que disser/ Ela é a melhor amiga/ A mulher que é mulher não deixa o lar à toa/ A mulher que é mulher/ Se o homem errar, perdoa…”. Que ninguém se choque, pois, afinal, esta era a moral dos anos dourados e por isso a música fez tanto sucesso entre os foliões.
Nos anos 1960, a “Garota de Ipanema” da zona sul carioca já era mais solar, menos enclausurada. Mas o homem da bossa nova ainda estava prontinho para aprisioná-la segundo os seus ideais. “Se você quer ser minha namorada (…) Se quiser ser somente minha/ Exatamente essa coisinha/ (…) Você tem que me fazer um juramento/ De só ter um pensamento/ Ser só minha até morrer (…) Você tem que vir comigo em meu caminho/ E talvez o meu caminho seja triste pra você”. Palavras do Poetinha Vinicius de Moraes com música de Carlos Lyra. E na Jovem Guarda, Erasmo não perdoou: “Perdão à namorada é uma coisa normal/ Mas é que eu tenho que manter a minha fama de mau”. Todos igualmente geniais. Não se trata, porém, de agora em 2016 patrulhar os autores do passado. Devemos sim entender as nossas grandes canções à luz de seu tempo.

E daí é uma pena que a moça não seja de cama e mesa/ Um bicho, uma presa/ Que depois de usada/ Se guarda ou se joga na lata do lixo

'Apenas mulher', 1980
Gonzaguinha

A partir dos anos 1970, uma grande leva de autores começa a vestir a camisa das mulheres e mudar bastante este quadro. Chico Buarque, Ivan Lins e Vitor Martins, João Bosco e Aldir Blanc, Gonzaguinha, Gil e Caetano são alguns dos autores que vão içá-las a um patamar de maior igualdade. Chico pediu em 1976 que todos se “mirassem no exemplo daquelas mulheres de Atenas”, mas em verdade era uma ironia, queria justamente o contrário. Que não se mirassem! Gonzaguinha escreveu “Apenas mulher” em 1980, gravada por Angela Maria e em seguida por Simone: “E daí é uma pena que a moça não seja de cama e mesa/ Um bicho, uma presa/ Que depois de usada/ Se guarda ou se joga na lata do lixo”.
Logicamente isto não foi um fenômeno homogêneo. Muitos outros autores na mesma época e dali para frente eventualmente podem ter praguejado de forma machista, principalmente no meio do samba e da música brega, mas a verdade é que nas últimas décadas a sociedade foi ficando mais equilibrada – inclusive com o advento de dezenas de compositoras e letristas mulheres – e a nossa música refletiu bastante estas mudanças, apesar da insistente exploração pela grande mídia de cantoras-ninfetas e dançarinas rebolativas de pouca roupa e muito silicone. Mas isto é outra história…


Escrito por Rodrigo Faour

É jornalista, produtor musical e historiador de música brasileira, autor de seis livros, entre os quais, “História sexual da MPB”, “Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante” e “Angela Maria – A Eterna Cantora do Brasil” (todos da Ed. Record)

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4 Comentários

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  1. Vejo na letra da canção Marina um louvor à beleza natural da personagem, tanto que ela não precisava usar nenhum produto artificial, pois, se nela aplicado, iria, apenas, empanar o seu belo rosto.

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