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Globalização à moda chinesa

Gigante asiático recupera dois séculos de atraso e volta a ocupar lugar de destaque no cenário internacional


Encontro na China. Pool/ AFP
Presidente da China participa do “Fórum do Cinturão e da Rota para Cooperação Internacional”. Foto de Wu Hong/ Pool/ AFP

O presidente da China, Xi Jinping, recebeu representantes de 68 países e organizações internacionais no “Fórum do Cinturão e da Rota para Cooperação Internacional” (Belt and Road Initiative, B&RI), no começo do mês, onde apresentou a visão chinesa sobre uma nova ordem econômica global que pretende deixar para trás a globalização neoliberal, fundada nos princípios do Consenso de Washington.

A nova globalização, à moda chinesa, surge no momento em que os antigos líderes ocidentais se retraem, quer seja por conta do Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia – ou por conta das medidas isolacionistas do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos (EUA), e a sua defesa do “America First”.

O Banco Mundial estima que mais de um bilhão de chineses abandonaram os limites da pobreza absoluta, desde o final da década de 1970. Nunca na história da humanidade um país cresceu tanto, por tanto tempo, como a China nas últimas quatro décadas

A China foi o país mais rico e inovador do mundo antes da Revolução Industrial e do predomínio do Ocidente, nos séculos XIX e XX. Mas com a “Guerra do Ópio”, a decadência da Dinastia Qing, a invasão japonesa da Manchúria e os diversos conflitos internos, o povo chinês se viu imerso em uma calamitosa situação de pobreza. A Revolução Cultural e as políticas equivocadas de Mao Tsé-Tung só agravaram a situação nas décadas de 1960 e 1970.

Todavia, a partir de 1978, tudo mudou após as reformas desenhadas por Deng Xiaoping que promoveram a abertura do país ao comércio internacional e implantaram o chamado “socialismo de mercado” ou “capitalismo de Estado”, como se pode caracterizar o país que é dirigido por um partido comunista (PCC), com controle total sobre o Estado, mas que utiliza a lógica e os instrumentos da acumulação capitalista para promover a produção em massa de bens e serviços.

Ironicamente, nenhuma outra nação do globo foi capaz de se beneficiar tanto da globalização neoliberal, em especial, depois da queda do Muro de Berlin e do fim da União Soviética. O Banco Mundial estima que mais de um bilhão de chineses abandonaram os limites da pobreza absoluta, desde o final da década de 1970. Nunca na história da humanidade um país cresceu tanto, por tanto tempo, como a China nas últimas quatro décadas.

A China é o antípoda do Brasil e dos EUA, pois possui altas taxas de poupança e investimento, enquanto os dois maiores países do continente americano são altamente dependentes do consumo

O Produto Interno Bruto (PIB) chinês, em 1980, era de US$ 306 bilhões, contra US$ 570 bilhões do brasileiro e US$ 2,9 trilhões dos americanos, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), em poder de paridade de compra (ppp, na sigla em inglês). A economia chinesa era, aproximadamente, metade da brasileira e dez vezes menor do que a americana.

Mas, em 2016, o PIB da China foi de US$ 21,3 trilhões (também em ppp), contra US$ 18,6 trilhões dos EUA e US$ 3,1 trilhões do Brasil. Ou seja, o PIB da China atual já ultrapassou o PIB americano e é cerca de sete vezes maior do que o brasileiro. O gráfico abaixo mostra que a China representava somente 2,3% do PIB mundial em 1980 e deve chegar a 20,4% em 2022, enquanto, no mesmo período, os EUA sofrem uma queda de 21,8% para 14,1% e o Brasil de 4,3% para 2,3%.

PIB China. Arte do Alvarus
Comparação entre os PIBs do Brasil, da China e dos Estados Unidos. (Arte de Alvarus)

A China é o antípoda do Brasil e dos EUA, pois possui altas taxas de poupança e investimento, enquanto os dois maiores países do continente americano são altamente dependentes do consumo. A China é líder do comércio mundial e teve um superávit comercial extraordinário em 2015, de cerca de US$ 600 bilhões, mais de três vezes o total das exportações brasileiras. Dos cerca de US$ 800 bilhões de déficit da balança comercial americana, aproximadamente US$ 350 bilhões são apenas com a China. O Gigante Asiático possui reservas internacionais de US$ 3 trilhões, enquanto os EUA são o país mais endividado do mundo (embora a dívida seja na sua própria moeda).

Todos esses números não foram apresentados para demonstrar deslumbramento, mesmo porque os custos ambientais foram monstruosos. Mas, de fato, a China – o país mais populoso do mundo – tem conseguido recuperar os dois séculos de atraso e ocupar de volta, no século XXI, um lugar de destaque no protagonismo global.

A China quer ser a número um na produção de carros elétricos. AFP PHOTO / Laurent Fievet

Todavia, existem indicações de que o modelo adotado chegou ao limite, já que os desequilíbrios internacionais não permitem mais que a China amplie suas exportações para os países ocidentais, enquanto o excesso de poupança e investimento cria uma sobrecapacidade produtiva que pode fazer colapsar o crescimento econômico e jogar o país numa crise de superprodução. Uma súbita parada da locomotiva chinesa poderia significar, não só uma crise interna que coloque em xeque o monopólio político autoritário do PCC, mas uma grande recessão mundial.

Para evitar o caos interno, superar os impasses da globalização neoliberal e posicionar a China em um novo patamar no jogo geoestratégico, a direção do partido comunista, por meio do “centralismo democrático”, na figura presidencial de Xi Jinping, lançou a iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota”.

Trata-se de um conjunto espetacular de investimentos, na casa de US$ 1 trilhão em dez anos, visando promover uma rede de infraestrutura, comércio e cooperação econômica e cultural ao redor do mundo, mas especialmente ao longo do espaço que liga a Ásia e a Europa.

Interesse divergentes

A ideia é estabelecer uma “Nova Rota da Seda”, revivendo, no século XXI, as antigas rotas milenares que conectavam o Ocidente e o Oriente. A iniciativa é composta por um corredor terrestre (“Silk road belt”) e uma rota marítima (“Maritime silk road”), buscando ligar a China – por meio de ferrovias, trens de alta velocidade, rodovias, portos, aeroportos, ligações telefônicas, Internet, telecomunicação e associações empresariais – aos países da Ásia, da Europa e da África. Na argumentação chinesa, os princípios são: cooperação pacífica, desenvolvimento local e benefício mútuo.

Prioritários também são os investimentos na área de energia. A China pretende ser o país líder na produção de energias renováveis, na indústria de carros elétricos e na construção de uma rede elétrica inteligente, cobrindo longas distâncias, com base em conectores de corrente contínua de ultra-alta tensão (UHVDC na sigla em inglês). A mudança da matriz energética é a base para uma nova estrutura produtiva global e uma forma de mitigar as emissões de gases de efeito estufa e reduzir a poluição atmosférica, em consonância com as recomendações climáticas do Acordo de Paris.

Politicamente, a China pretende consolidar sua influência ao redor de seu território e ampliar sua presença especialmente na Eurásia, uma área que vai do Pacífico, ao Índico, ao Ártico e ao Atlântico e reúne algo em torno de 5 bilhões de habitantes.

Discursando no “Fórum do Cinturão e da Rota para Cooperação Internacional”, o presidente Xi Jinping prometeu investimentos anuais de mais de US$ 100 bilhões, para mais de 60 países, por meio do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. Ele disse que a iniciativa vai combater a pobreza nos países que receberão os investimentos e descreveu o plano como uma “globalização econômica que é aberta, inclusiva, balanceada e benéfica a todos”.

Contudo, não é fácil contemplar tantos interesses divergentes. O premiê paquistanês, Nawaz Sharif, aliado histórico da China, apoia a iniciativa e dá as boas-vindas aos investimentos no porto de águas profundas, em Gwadar, no Mar Arábico, que será ligado por novas estradas e trens de alta velocidade à região de Xinjiang (com forte presença muçulmana). O “Corredor Econômico China-Paquistão” é fundamental para a China ter acesso ao oceano Índico e ao Golfo Pérsico e para criar um atalho no comércio com o Oriente Médio e a Europa.

Essa globalização à moda chinesa na verdade é uma globalização com centro no Oriente e que tem ganhado impulso após a crise da globalização ocidental, o Brexit e a saída dos EUA da Parceria Trans-Pacífico (TPP)

Porém, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, não compareceu ao “Fórum do Cinturão e da Rota para Cooperação Internacional”, pois desconfia da aliança entre a China e o Paquistão, países tradicionalmente rivais. O governo indiano disse que a B&RI corre o risco de gerar dívidas insustentáveis para os países e reflete muito mais os interesses neomercantilistas da China, do que uma verdadeira integração soberana da região. Mas a Índia não pode se isolar.

A iniciativa “Um cinturão, uma rota” também enfrenta desafios no sul do Mar da China, no conflito de interesses do Irã, Turquia e Arábia Saudita, entre os países do Leste Europeu e entre o Cazaquistão e a Rússia, dentre outros. Mas com dinheiro, tecnologia e capacidade de gerenciamento, o governo chinês aposta que pode liderar esse outro tipo de globalização, desta vez baseada no “Consenso de Beijing” (forte presença estatal, câmbio competitivo, fortalecimento do comércio internacional e centralização política).

Essa globalização à moda chinesa na verdade é uma globalização com centro no Oriente e que tem ganhado impulso após a crise da globalização ocidental, o Brexit e a saída dos EUA da Parceria Trans-Pacífico (TPP). O jornalista Gideon Rachman, do Financial Times, argumenta que a crescente riqueza das nações asiáticas está transformando o equilíbrio internacional de poder, sendo que a antiga hegemonia ocidental está sendo substituída pela Orientalização (“Easternization”) do mundo.

Para o sucesso da iniciativa da construção das novas rotas da seda, a China precisa contar com a formação de um triângulo estratégico composto por Rússia, Índia e China (RIC ou o BRICS sem Brasil e África do Sul), com apoio do Irã. A integração e a conectividade da Eurásia tende a colocar em segundo plano o protecionismo, o nacionalismo e a belicosidade de Donald Trump, contribuindo para deixar os Estados Unidos à margem da governança global.

Evidentemente, o sucesso da B&RI não está garantido. O modelo chinês de desenvolvimento com base em altas taxas de investimento e no excesso de capacidade produtiva, em sua fase madura, tende a ser ineficiente, pouco rentável e de alto custo ambiental. De qualquer forma, a China está preferindo colocar as suas vultosas reservas em projetos de infraestrutura do que nos títulos do Tesouro americano.

Mas uma diferença notável, no atual cenário internacional, é a posição ou oposição entre os líderes dos dois maiores países do mundo. O presidente Xi Jinping comemorou o sucesso do “Fórum do Cinturão e da Rota” (onde Vladimir Putin deu uma “palhinha” no piano) e consolidou sua liderança nas vésperas do 19º Congresso do Partido Comunista Chinês, a se realizar em outubro próximo. Ao passo que o presidente Donald Trump vive um inferno astral auto infligido e pode enfrentar um processo de impeachment depois de tantas gafes, da demissão do diretor do FBI James Comey e da transmissão de informações secretas ao chanceler russo, Sergey Lavrov, em conversa na Casa Branca.

Enquanto Trump quer afastar os imigrantes dos EUA, pretende construir um muro na fronteira com o México, não reafirmou o artigo 5 (cláusula de defesa mútua) da OTAN, abre fissuras na histórica aliança com a Alemanha e a União Europeia e enfraquece o Acordo de Paris aprovado por 195 países em dezembro de 2015, o presidente Xi Jinping revive o imaginário da rota da seda, reafirma a luta contra as mudanças climáticas e, ao estilo chinês, busca investir na integração econômica e cultural da Eurásia e do mundo.

Não é difícil imaginar qual é a potência decadente e qual é a potência emergente, assim como é relativamente fácil prever o resultado final do jogo entre a globalização liderada pelo ocidente (Ocidentalização) e a nova liderada pelo oriente (Orientalização) e pela ressurgência da China.


Escrito por José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. Professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE) do IBGE.

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