Filme ‘Cavalo de Santo’ inspira enredo da Portela sobre ancestralidade negra gaúcha

Batuque e tradições afro-gaúchas ganham espaço no Carnaval do Rio. Documentário é uma das referências para enredo sobre Príncipe do Bará

Por Micael Olegário | ODS 10
Publicada em 13 de janeiro de 2026 - 09:43  -  Atualizada em 13 de janeiro de 2026 - 09:54
Tempo de leitura: 10 min

Príncipe Custódio é descrito como um dos responsáveis pelo Bará do Mercado Público de Porto Alegre; local é palco de importante festa religiosa (Foto: Mirian Fichtner/Divulgação/Cavalo de Santo)

No breu do não saber / Tu acendes a dignidade que te negaram / Um pampa negro, paleteado do peito / Escondido sob a fumaça branca, brava, cerrada…

O trecho acima faz parte do samba-enredo “O mistério do Príncipe do Bará – a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A história, escolhida pela Portela para ser apresentada na Marquês da Sapucaí no Carnaval 2026, resgata a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio.

Para descrever os passos de Custódio, batizado Osuanlele Okizi Erupê e membro da realeza em Benin, os acadêmicos da Portela mergulharam nas tradições afro-gaúchas do Batuque, uma das principais religiões africanas do sul. Uma das referências utilizadas é o documentário “Cavalo de Santo”, produzido pela fotógrafa e documentarista Mirian Fichtner e pelo jornalista e roteirista Carlos Caramez.

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“É uma forma de tirar o batuque, a tradição mais africana no nosso estado, da invisibilidade político-social”, destaca Bàbá Diba de Yemonjá, babalorixá e presidente do Conselho do Povo de Terreiros do Rio Grande do Sul. Ele também é um dos entrevistados do documentário.

Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul e promovendo a certeza que essa influência negra foi estimulada e organizada pelo Príncipe Custódio. A realeza africana, é parte indispensável da construção da identidade do povo gaúcho

André Rodrigues
Carnavalesco da Portela

Ao mesmo tempo em que é o 2° estado mais branco do país, o RS também é o que possui o maior número de terreiros. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 3,2% da população gaúcha segue uma religião de matriz africana, enquanto no Brasil, a proporção é de 1%. 

A presença africana no Estado, porém, foi historicamente apagada e deliberadamente marginalizada. Mirian ressalta que o projeto do documentário surgiu como uma forma de combater a discriminação contra as religiões de matriz africana no sul, como o Batuque, a Umbanda e a Quimbanda. Agora, o longa inspira outras ações semelhantes.

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“O enredo busca romper com a tradicional centralização das narrativas afro-brasileiras no eixo Rio-Bahia, lançando luz sobre a força da ancestralidade negra no Sul do Brasil. Estamos ampliando nosso olhar para além dos nossos territórios já consagrados, mostrando que a resistência negra também construiu outras partes do Brasil”, afirma Júnior Escafura, presidente da Portela.

Cavalo de Santo no cinema

Baseado no livro homônimo de Mirian Fichtner, Cavalo de Santo é resultado de quinze anos de pesquisas entre terreiros gaúchos. A produção aborda as raízes africanas do Rio Grande do Sul, com um olhar para a formação das religiões e para a diversidade das principais linhas de fé cultuadas pelo povo de santo.

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Na época do seu lançamento, a obra conquistou diferentes premiações, entre elas, quatro Kikitos no 49º Festival Internacional de Cinema de Gramado. Como parte da preparação da Portela para o Carnaval 2026, o filme será exibido na Estação Net Botafogo, no Rio de Janeiro, em uma sessão nesta terça-feira (13) às 19h, e na quarta-feira (14), em duas sessões às 18h e às 20h.

O mundo vai ficar sabendo e entendemos como muito positivo assim para o nosso batuque, para quem defende a tradição e faz esse processo de combate ao racismo religioso

Bàbá Diba de Iemonjá
Babalorixá

“A expectativa de ver na tela é grande, porque nunca conseguimos entrar em um circuito de cinema. Ainda mais por trazer para o Rio e ser uma exibição gratuita, é uma consagração”, comenta Mirian. O documentário possui cerca de 70 minutos e conta com diversas entrevistas de pais e mães de santo, além de pesquisadores. 

“O interesse em exibir o documentário é justamente para levar esse conhecimento para o maior número de pessoas possíveis. Convidamos todos os segmentos da Portela e isso é importante, porque a escola vai para a avenida sabendo o que de fato está cantando”, explica Bernard Nascimento, diretor cultural da Portela.

Mirian celebra ainda o fato do longa seguir repercutindo, mesmo após cinco anos de seu lançamento. Ao contar sobre o processo de produção, a fotógrafa relata ainda o esforço para não reproduzir estereótipos ao mostrar a origem do Batuque, religião de matriz africana tradicional do Rio Grande do Sul.

“O trabalho ganha uma repercussão maior, porque os orixás são muito amigos nossos, tem muita energia, respeito e amor envolvido”, confidencia Mirian. A intenção é que o documentário continue fazendo com que outras pessoas descubram o Rio Grande africano. A produção também está disponível no GlobloPlay. 

Príncipe do Bará e o Batuque

Foi quando o vento da palha que dança chegou, desembarcou primeiro na Bahia, ventou e foi para o Rio de Janeiro. O barulho da fibra se batendo no solo só dançou e levantou terra quando chegou ao Rio Grande.

O poder que trazia dos séculos se restabeleceu, e pelos infinitos horizontes das querências gaúchas espalhou-se a real presença de um negro Príncipe Africano.

O Batuque chegou ao RS em meados do século XVII, como uma herança do povo Iorubá. Já no século XX, essa tradição se cruzou com a história de Custódio Joaquim de Almeida. No samba-enredo da Portela, essa encruzilhada é narrada pelo encontro entre o Negrinho do Pastoreio, lenda do folclore gaúcho, e Bará, orixá que representa Exu e está associado à comunicação e à abertura de caminhos.

Nascido em 1831, Osuanlele Okizi Erupê teria chegado em Porto Alegre por volta de 1901, descrito como um líder espiritual e descendente do Obá (rei) Ovonramwen, do Reino de Daomé, na África Ocidental. Alguns relatos o apontam como um dos responsáveis pela resistência à colonização do território do atual Benin pelo Império Britânico. 

Ao chegar no Rio Grande do Sul, Custódio ajudou a resgatar e fortalecer o Batuque, sendo considerado por alguns como o responsável pelo assentamento Bará do Mercado Público de Porto Alegre. Reconhecido como patrimônio cultural da cidade, o local é palco de uma das principais festas religiosas do sul do país.

Foto colorida que mostra pessoa colocando barco de oferenda no mar. Batuque e tradições afro-gaúchas no Carnaval da Portela
Documentário e samba-enredo ajudam a combater o racismo religioso contra o batuque e outras religiões de matriz africana (Foto: Mirian Fichtner / Divulgação / Cavalo de Santo)

Reconhecimento e visibilidade

Com o samba-enredo da Portela, a expectativa é de que a história do Príncipe Custódio e das religiões afro-gaúchas ganhe mais visibilidade. “O mundo vai ficar sabendo e entendemos como muito positivo assim para o nosso batuque, para quem defende a tradição e faz esse processo de combate ao racismo religioso”, enfatiza Bàbá Diba de Yemonjá. 

O babalorixá recorda ainda o papel que Príncipe Custódio exerceu na capital gaúcha, desde sua chegada até seu falecimento, em 1935. “Ele tinha uma relação com pessoas importantes da vida política e social da capital naquele tempo e colaborou para a projeção da Nação Jeje, que é uma das nações do Batuque”, explica.

“Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul e promovendo a certeza que essa influência negra foi estimulada e organizada pelo Príncipe Custódio, Arealeza africana, é parte indispensável da construção da identidade do povo gaúcho”, afirma o carnavalesco André Rodrigues, que assina o enredo ao lado de Fernanda Oliveira, João Vitor Silveira e Marcelo David Macedo.

“Precisamos aproveitar todas as portas que se abrem para falar dessa tradição e legado. Temos uma lei que manda que as escolas abordem a cultura de matriz africana e a história do povo negro no Brasil nas escolas. Isso acaba não acontecendo por conta justamente desse racismo estrutural que paira na nossa sociedade brasileira. E é estímulo quando uma grande escola resolve abordar esse tema”, completa Bàbá Diba.

Bará, então, disse que nesse Rio Grande onde o Príncipe se encantou assentou-se um novo rumo, um novo Sul, africano e pouco conhecido, com um destino certo de expandir sua força para as terras continentais deste país, que tanto tem de África em outros conhecimentos.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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