No breu do não saber / Tu acendes a dignidade que te negaram / Um pampa negro, paleteado do peito / Escondido sob a fumaça branca, brava, cerrada…
O trecho acima faz parte do samba-enredo “O mistério do Príncipe do Bará – a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A história, escolhida pela Portela para ser apresentada na Marquês da Sapucaí no Carnaval 2026, resgata a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio.
Para descrever os passos de Custódio, batizado Osuanlele Okizi Erupê e membro da realeza em Benin, os acadêmicos da Portela mergulharam nas tradições afro-gaúchas do Batuque, uma das principais religiões africanas do sul. Uma das referências utilizadas é o documentário “Cavalo de Santo”, produzido pela fotógrafa e documentarista Mirian Fichtner e pelo jornalista e roteirista Carlos Caramez.
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“É uma forma de tirar o batuque, a tradição mais africana no nosso estado, da invisibilidade político-social”, destaca Bàbá Diba de Yemonjá, babalorixá e presidente do Conselho do Povo de Terreiros do Rio Grande do Sul. Ele também é um dos entrevistados do documentário.
Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul e promovendo a certeza que essa influência negra foi estimulada e organizada pelo Príncipe Custódio. A realeza africana, é parte indispensável da construção da identidade do povo gaúcho
Ao mesmo tempo em que é o 2° estado mais branco do país, o RS também é o que possui o maior número de terreiros. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 3,2% da população gaúcha segue uma religião de matriz africana, enquanto no Brasil, a proporção é de 1%.
A presença africana no Estado, porém, foi historicamente apagada e deliberadamente marginalizada. Mirian ressalta que o projeto do documentário surgiu como uma forma de combater a discriminação contra as religiões de matriz africana no sul, como o Batuque, a Umbanda e a Quimbanda. Agora, o longa inspira outras ações semelhantes.
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Veja o que já enviamos“O enredo busca romper com a tradicional centralização das narrativas afro-brasileiras no eixo Rio-Bahia, lançando luz sobre a força da ancestralidade negra no Sul do Brasil. Estamos ampliando nosso olhar para além dos nossos territórios já consagrados, mostrando que a resistência negra também construiu outras partes do Brasil”, afirma Júnior Escafura, presidente da Portela.
Cavalo de Santo no cinema
Baseado no livro homônimo de Mirian Fichtner, Cavalo de Santo é resultado de quinze anos de pesquisas entre terreiros gaúchos. A produção aborda as raízes africanas do Rio Grande do Sul, com um olhar para a formação das religiões e para a diversidade das principais linhas de fé cultuadas pelo povo de santo.
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Na época do seu lançamento, a obra conquistou diferentes premiações, entre elas, quatro Kikitos no 49º Festival Internacional de Cinema de Gramado. Como parte da preparação da Portela para o Carnaval 2026, o filme será exibido na Estação Net Botafogo, no Rio de Janeiro, em uma sessão nesta terça-feira (13) às 19h, e na quarta-feira (14), em duas sessões às 18h e às 20h.
O mundo vai ficar sabendo e entendemos como muito positivo assim para o nosso batuque, para quem defende a tradição e faz esse processo de combate ao racismo religioso
“A expectativa de ver na tela é grande, porque nunca conseguimos entrar em um circuito de cinema. Ainda mais por trazer para o Rio e ser uma exibição gratuita, é uma consagração”, comenta Mirian. O documentário possui cerca de 70 minutos e conta com diversas entrevistas de pais e mães de santo, além de pesquisadores.
“O interesse em exibir o documentário é justamente para levar esse conhecimento para o maior número de pessoas possíveis. Convidamos todos os segmentos da Portela e isso é importante, porque a escola vai para a avenida sabendo o que de fato está cantando”, explica Bernard Nascimento, diretor cultural da Portela.
Mirian celebra ainda o fato do longa seguir repercutindo, mesmo após cinco anos de seu lançamento. Ao contar sobre o processo de produção, a fotógrafa relata ainda o esforço para não reproduzir estereótipos ao mostrar a origem do Batuque, religião de matriz africana tradicional do Rio Grande do Sul.
“O trabalho ganha uma repercussão maior, porque os orixás são muito amigos nossos, tem muita energia, respeito e amor envolvido”, confidencia Mirian. A intenção é que o documentário continue fazendo com que outras pessoas descubram o Rio Grande africano. A produção também está disponível no GlobloPlay.
Príncipe do Bará e o Batuque
Foi quando o vento da palha que dança chegou, desembarcou primeiro na Bahia, ventou e foi para o Rio de Janeiro. O barulho da fibra se batendo no solo só dançou e levantou terra quando chegou ao Rio Grande.
O poder que trazia dos séculos se restabeleceu, e pelos infinitos horizontes das querências gaúchas espalhou-se a real presença de um negro Príncipe Africano.
O Batuque chegou ao RS em meados do século XVII, como uma herança do povo Iorubá. Já no século XX, essa tradição se cruzou com a história de Custódio Joaquim de Almeida. No samba-enredo da Portela, essa encruzilhada é narrada pelo encontro entre o Negrinho do Pastoreio, lenda do folclore gaúcho, e Bará, orixá que representa Exu e está associado à comunicação e à abertura de caminhos.
Nascido em 1831, Osuanlele Okizi Erupê teria chegado em Porto Alegre por volta de 1901, descrito como um líder espiritual e descendente do Obá (rei) Ovonramwen, do Reino de Daomé, na África Ocidental. Alguns relatos o apontam como um dos responsáveis pela resistência à colonização do território do atual Benin pelo Império Britânico.
Ao chegar no Rio Grande do Sul, Custódio ajudou a resgatar e fortalecer o Batuque, sendo considerado por alguns como o responsável pelo assentamento Bará do Mercado Público de Porto Alegre. Reconhecido como patrimônio cultural da cidade, o local é palco de uma das principais festas religiosas do sul do país.
Reconhecimento e visibilidade
Com o samba-enredo da Portela, a expectativa é de que a história do Príncipe Custódio e das religiões afro-gaúchas ganhe mais visibilidade. “O mundo vai ficar sabendo e entendemos como muito positivo assim para o nosso batuque, para quem defende a tradição e faz esse processo de combate ao racismo religioso”, enfatiza Bàbá Diba de Yemonjá.
O babalorixá recorda ainda o papel que Príncipe Custódio exerceu na capital gaúcha, desde sua chegada até seu falecimento, em 1935. “Ele tinha uma relação com pessoas importantes da vida política e social da capital naquele tempo e colaborou para a projeção da Nação Jeje, que é uma das nações do Batuque”, explica.
“Nossa proposta é debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul e promovendo a certeza que essa influência negra foi estimulada e organizada pelo Príncipe Custódio, Arealeza africana, é parte indispensável da construção da identidade do povo gaúcho”, afirma o carnavalesco André Rodrigues, que assina o enredo ao lado de Fernanda Oliveira, João Vitor Silveira e Marcelo David Macedo.
“Precisamos aproveitar todas as portas que se abrem para falar dessa tradição e legado. Temos uma lei que manda que as escolas abordem a cultura de matriz africana e a história do povo negro no Brasil nas escolas. Isso acaba não acontecendo por conta justamente desse racismo estrutural que paira na nossa sociedade brasileira. E é estímulo quando uma grande escola resolve abordar esse tema”, completa Bàbá Diba.
Bará, então, disse que nesse Rio Grande onde o Príncipe se encantou assentou-se um novo rumo, um novo Sul, africano e pouco conhecido, com um destino certo de expandir sua força para as terras continentais deste país, que tanto tem de África em outros conhecimentos.
