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Veja o que já enviamosHeitor dos Prazeres: enredo para revisitar a história do carnaval do Rio
Vila Isabel leva para a Passarela do Samba a trajetória do sambista e pintor que batizou a Pequena África
Talvez os moradores de outras paragens não saibam, mas aqui no Rio de Janeiro já é carnaval. No primeiro domingo de 2026, mais de 100 blocos estiveram na rua na já tradicional abertura não-oficial do Carnaval; no último fim de semana, foram quase 30 blocos nas ruas ou em ensaios. As escolas de samba também tomam as ruas em ensaios abertos e lotam suas quadras com festas e eventos para divulgar enredos e sambas e esquentar os tamborins. Os desfiles na Passarela do Samba em 2026 serão marcados por enredos homenagens – de Lula a Ney Matogrosso, de Rita Lee à carnavalesca Rosa Magalhães – nenhuma, entretanto, é tão justa como a da Vila Isabel a Heitor dos Prazeres, sambista, entre muitos outros talentos, com seu nome ligado à história do Rio e do Carnaval. E a Vila ainda caprichou no samba-enredo, na modesta opinião deste #RioéRua o melhor de 2026.
Heitor dos Prazeres nasceu, em 1898, na Rua Presidente Barroso, na Cidade Nova – um bairro que os mais novos podem até pensar que é relativamente novo, pelos seus prédios modernos, mas começou a ser chamado assim após a chegada, em 1808, da família real portuguesa no Rio de Janeiro. Era, então, uma região de mangue na periferia do Centro da cidade, que começou a ser aterrada para ligar a área central, onde estavam as repartições do governo e o comércio, aos bairros de São Cristóvão, onde foram morar dom João XVI e sua família, e da Tijuca, onde ficavam chácaras de muitos nobres da corte portuguesa. Decreto do próprio príncipe regente, de 1811, isentou de impostos construções naquela área: era uma cidade nova que nascia.


No meio do século, a Cidade Nova tinha características de um bairro proletário, com vilas operárias da baixa classe média, região onde passaram a se estabelecer também escravos libertos e seus descendentes, principalmente em torno da Praça Onze, ligada à história de samba e aos primeiros desfiles das escolas, décadas depois. Heitor dos Prazeres – filho do marceneiro Eduardo, clarinetista da Guarda Nacional, e da costureira Clementina, ambos de famílias baianas, e neto de escravos – cresceu ali e nunca deixou de estar ligado à região que acabou conhecida por Pequena África. “A Praça Onze era uma África em miniatura”, repetia Heitor dos Prazeres, já sambista e compositor famoso, sobre a região. Assim acabou batizando este “reino que se estendia da zona do cais do porto até a Cidade Nova, tendo como capital a Praça Onze”, como definiu o escritor e pesquisador Roberto Moura no seu livro “Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro”, de 1982, referência para a história dessa parte do Rio de Janeiro.
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Veja o que já enviamosNas imediações da Praça Onze, na Pedra do Sal, morava o tio Hilário Jovino Ferreira, baiano e fundador de ranchos e blocos carnavalescos, referência de folião da pré-história do Carnaval do Rio. Hilário tinha um cavaquinho, que nunca usou: o sobrinho Heitor, que aprendera clarineta com o pai, se apropriou do instrumento do tio, começou a tocar sozinho e a frequentar o círculo musical da região. Nas imediações da Praça Onze, também estava a casa de Tia Ciata (a também baiana Hilária Batista de Almeida), incentivadora e defensora do samba; o ritmo musical em seu formato carioca nasceu no quintal e terreiro de Tia Ciata, onde o jovem Heitor conheceu outros pioneiros do samba: Donga, João da Baiana, Sinhô, Pixinguinha.


Ainda ganhando a vida como marceneiro, carpinteiro e polidor, Heitor dos Prazeres já era compositor de sambas: em 1926, um século atrás, era conhecido como Mano Lino, apelido de infância, nas rodas de samba do Estácio, bairro vizinho à Praça Onze, de Madureira, para onde foi levado por Paulo da Portela, e na festa da Penha, tradicional ponto de encontro de sambista. Em 1927, envolveu-se numa polêmica com Sinhô (José Barbosa da Silva), o chamado Rei do Samba, a quem acusou (e depois o compositor admitiu) de ter roubado dois sambas. Conforme o relato de Heitor dos Prazeres, em entrevista a revista Manchete, Sinhô, ao confessar, deixou uma frase que entraria para a história da música brasileira: “Samba é como passarinho: a gente pega no ar” – a frase é citada assim por Heitor na Manchete. Há uma outra versão da frase, citada pelo crítico e pesquisador Ary Vasconcelos, mas com o mesmo sentido: “Samba é que nem passarinho: é de quem pegar”.
Em 1928, foi um dos fundadores da Deixa Falar – que entra para a história como “a primeira escola de samba” – ao lado de bambas do Estácio como Ismael Silva e Alcebíades Barcelos, o Bide, desenvolvedores de uma nova cadência para o samba, a base do chamado samba urbano carioca. Em 1929, Heitor entrou para a história também da Portela: foi com uma composição sua, “Não adianta chorar”, que o Conjunto Carnavalesco de Osvaldo Cruz, um dos embriões da futura Portela (que só ganhou esse nome em 1935) venceu o primeiro concurso entre escolas de samba, numa disputa estritamente musical (sem julgamento de outros quesitos depois tradicionais) promovida pelo pai-de-santo Zé Espinguela em seu terreiro no Engenho de Dentro.


Heitor dos Prazeres já era um compositor de algum sucesso – com muitos sambas gravados pelo cantor Francisco Alves, chamado de “Rei da Voz”, um dos mais influentes intérpretes brasileiros da primeira metade do século passado, quando começou a pintar, em 1937, depois da morte da primeira mulher, Glória. Seus quadros, retratando a vida urbana da cidade e da favela, com temas também de samba e carnaval, tornaram Heitor dos Prazeres mais famoso que sua música. A futura Rainha Elizabeth comprou um dos seus quadros após uma mostra de pintura brasileira em Londres na década de 1940. Participou da primeira Bienal de Arte de São Paulo, em 1951. Participou de outros bienais e seus quadros o levaram à Europa e aos Estados Unidos.
Já não morava mais nas imediações da Praça Onze mas ali ficaram seus ateliês, primeiro na Rua General Pedra – arrasada para a construção da Avenida Presidente Vargas – e, depois, na General Caldwell. “Eu me sinto feliz nesse meu ateliê, vendo meu panorama da favela, da rua General Pedra, lembrando do meu saudoso colégio São Sebastião, Colégio Benjamin Constant. É a Praça Onze, é a Cidade Nova”, afirma o sambista e pintor no documentário Heitor dos Prazeres, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, em 1965. Nos ateliês, ele pintava, ensinava aprendizes, desenhava e costurava figurinos para espetáculos – dele mesmo e seu grupo e de outros shows, por encomenda. E fazia sambas, promovida rodas, reunia os amigos.


Com toda essa história, é surpreendente que Heitor dos Prazeres, falecido em 1966, ainda não tivesse sido homenageado pelas escolas do grupo especial. A homenagem não veio da Estácio de Sá, sucessora da Deixa Falar; nem da Portela, do seu grande amigo Paulo, nem da Mangueira, que Prazeres também ajudou a organizar: veio da Vila Isabel, com seu enredo para 2026 – “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África” – todo inspirado na arte do cantor, compositor, pintor, artista plástico, figurinista, desenhista de móveis. E também contratado da Rádio Nacional, por quase 20 anos, e funcionário do Ministério da Educação. E ‘inventor’ da Pequena África.
Mas Heitor dos Prazeres está ligado ao bairro e à escola pelo seu samba mais famoso, “Pierrô Apaixonado”, feito em parceria com Noel Rosa, o poeta da Vila: “Um pierrô apaixonado / Que vivia só cantando / Por causa de uma colombina / Acabou chorando, acabou chorando”. A marchinha carnavalesca já teve dezenas de gravações – Martinho da Vila, inclusive – e segue fazendo sucesso em blocos e bailes, com sua segunda parte impagável contando que a “Colombina entrou no botequim / bebeu, bebeu, saiu assim, assim” e o Pierrô “levando esse grande chute / Foi tomar vermute com amendoim”.
No enterro de Heitor dos Prazeres, uma multidão cantou repetidamente “Pierrô Apaixonado”, além de outros sambas de sua autoria. O poeta Carlos Drummond de Andrade, com quem ele trabalhou no Ministério da Educação, dedicou um poema ao colega, sambista e pintor. “Por tua pintura e música / passa um fluido de poesia / Poesia das coisas simples / Unidas em melodia”.
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