ODS 1
Receba as colunas de Edu Carvalho no seu e-mail
Veja o que já enviamosFeliz 2026, mas sem Tainara
Na véspera de Natal, o Brasil perdeu a vida de mais uma mulher para o feminicídio. O que isso indica para o ano que chega?
Eu gostaria de começar este texto sobre lentilhas, romãs ou a esperança renovada que os fogos de artifício prometeram a cada neste 31 de dezembro. Mas eu preciso começar com Tainara.
Apesar de querer dizer coisas boas, de desejar um “feliz ano novo” genuíno, a realidade bateu à porta bem na noite de Natal. E ela não trouxe presentes.
Enquanto a liturgia cristã nos lembrava dos Reis Magos cruzando o deserto com ouro, incenso e mirra para celebrar o nascimento, o Brasil, em seu rito macabro e cotidiano, entregava o corpo de Tainara ao silêncio. Na noite em que celebramos a vida, perdemos mais uma mulher. Não por um acidente, não pelo acaso, mas pelo simples fato de ser mulher.
Receba as colunas de Edu Carvalho no seu e-mail
Veja o que já enviamosO feminicídio é essa chaga aberta que se recusa a cicatrizar no tecido social brasileiro. Ele não tira recesso, não respeita feriado e ignora a confraternização universal. Pelo contrário, é nas datas festivas, dentro de casa, o lugar que deveria ser o mais seguro do mundo, que o algoz se revela. A crueldade que vitimou Tainara é a mesma que ronda milhares de lares neste exato momento, enquanto você me lê, vê e escuta.


(Charge: Daniel Pxeira/Reprodução)
É uma covardia que se alimenta da posse, do ciúme transformado em “motivação passional” por bocas imundas, e da certeza de que o corpo feminino é território de conquista e descarte.
Choro por Tainara, mas nosso luto precisa virar luta, sob pena de nos tornarmos cúmplices pela inércia. Porque a indignação, sozinha, não salva ninguém. Notas de pesar não trazem mães de volta. Hashtags não param balas, tampouco facas.
Precisamos falar de 2026.
O ano que se inicia à porta não é apenas mais um número no calendário; é a antessala de um ano eleitoral. 2026 é depois de amanhã. E se quisermos que o futuro seja diferente do presente sangrento, precisamos cobrar a fatura agora. A segurança pública e a proteção à mulher não podem ser palanque; precisam ser orçamento, estratégia e inteligência.
Não basta lamentar. Precisamos de soluções concretas, palpáveis, que saiam do papel e cheguem na ponta, até lá onde a mulher periférica grita e ninguém ouve, por exemplo.
Que o caso de Tainara não seja apenas mais uma estatística fria a ser esquecida na ressaca do Ano Novo. Que a sua ausência doa em nós o suficiente para nos movermos.
Para 2026, desejo prosperidade. Que a gente se lembre que o voto também decide quem vive e quem morre neste país.
E que, entre o luto e a luta, a gente encontre espaço para celebrar. Seja no meio do palco da vida ou num show no Manouche. Que aquele ambiente, com sua curadoria estonteante e seu veludo mais quente, nos envolva e nos recorde do essencial: que o vermelho não é apenas a cor do sangue derramado, mas a cor que lembra a força da feminina.
Por Tainara. Por todas.
Um 2026 de luta, arte e, quem sabe, de paz.
Apoie o #Colabora
Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.











































