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Os perigos da superexposição de crianças nas redes

Até que ponto postar fotos dos filhos é saudável ou passa a representar um risco para eles

Fotos de crianças nas redes sociais só parecem perder para as de gatinhos. É preciso cuidado com os exageros. Foto: Sigrid Olsson / AltoPress / PhotoAlto
Fotos de crianças nas redes sociais só parecem perder para as de gatinhos. É preciso cuidado com os exageros. Foto: Sigrid Olsson / AltoPress / PhotoAlto

As redes sociais são como crianças. Estão crescendo aos poucos, conhecendo seus limites e ganhando cada vez mais personalidade. Ironicamente, também estão povoadas de fotos de pequeninos. No ranking da fofurice no Facebook e no Instagram, as postagens com bebês e crianças só parecem perder para as imagens de gatinhos. Mas existem riscos em expôr os filhos no mundo virtual. A questão é saber o limite entre o controle necessário e o zelo exagerado. Saber discernir entre o que é o perigo real e o mal que só existe na cabeça dos patrulheiros de plantão.

Em 2014, uma foto de um homem sentado debaixo do chuveiro, com o filho que ardia em febre, no colo, numa tentativa de fazê-lo melhorar, foi removida do Facebook duas vezes, após um bombardeio de críticas e denúncias.  A mãe, a  fotógrafa Heather Whitten, diz ter se emocionado com a cena. Por isso, quis registrá-la. “Ele foi tão paciente e tão amoroso e tão forte com o nosso pequeno filho em seu colo. Os sussurros de segurança para Fox, de que ele estaria bem logo e de que Thomas tomaria conta dele, eram tão firmes e tão honestos”, escreveu, defendendo-se das críticas. Por causa do post, que viralizou, com mais de 9 milhões de visualizações, o casal está sendo investigado pelo  Departamento de Segurança Infantil do Arizona.

O post da fotógrafa Heather Whitten, com foto do marido e do filho, com febre, debaixo do chuveiro: removido duas vezes do Facebook. Foto: Reprodução

Em março deste ano, a ex-dançarina do É o Tchan Sheila Mello, no aniversário de quatro anos da filha, vestiu a menina de Marilyn Monroe – com direito a batom vermelho e pintinha na bochecha. A mãe, toda orgulhosa, exibiu fotos de sua pequena diva em sua página pessoal. Não demorou para choverem críticas de internautas, que a acusavam de estar “erotizando” a pequena. O caso gerou um amplo debate.

Chateada, Sheila usou o Instagram para responder aos críticos, em um vídeo.  “Quem vê erotização nisso são as pessoas que precisam de tratamento na terapia. É um saco isso”, rebateu ela, que é casada com o ex-nadador Fernando Scherer. “E para encerrar o assunto: coloquei, sim, minha filha de diva. Ela foi amada, sim, se sentiu especial, sim, quis um vestido rodado, sim. Eu fiz. Ok! Muito obrigado! E para vocês que curtiram, foi um prazer dividir esse momento tão especial, tão fofo, tão puro, tão mágico”.

O post de Sheila Mello com fotos do aniversário da filha, vestida de Marilyn: enxurrada de críticas. Foto: Reprodução/Facebook

O fato é que a fronteira entre o que é correto ou não na exposição dos pequenos na internet ainda é muito subjetiva. O diretor executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS), Fabro Steibel, acredita que, apesar de toda a cultura internética que já foi criada, muita gente ainda não tem consciência do alcance  da exposição nas redes e do que isso pode acarretar.  “As pessoas acham que estão compartilhando com poucos, mas são muitos… As ferramentas de controle de privacidade regularam mais isso, mas ainda são muito pouco difundidas. A regra básica aí é que os pais são responsáveis pelos filhos e que eles têm o dever de zelar pela privacidade deles, mas ainda estamos definindo essas fronteiras na internet”.

A doula Renata Vasconcelos já viu dicas nas redes sociais do tipo “não poste fotos das crianças de uniforme ou com pouca roupa”. Ela toma seus cuidados. “Eu me policio e até já excluí algumas fotos. Só deixo imagens das minhas meninas visíveis para amigos. Sempre confiro se o botãozinho da “privacidade” está marcado para “amigos”. Mas também não fico neurótica, não. Tenho mil tias que publicam fotos da gente em festas e etc. Nunca as proibi de fazer isso”.

O sociólogo César Batista tem uma regra: só posta fotos com seu filho Artur, de sete anos, que tenham a ver com a relação deles dois, como o registro da primeira ida juntos ao Maracanã. Para César, o cuidado com a privacidade do filho é fundamental, o que inclui não fazer qualquer registro em que o menino esteja despido. “Tenho um amigo que compartilha muitas coisas sobre a intimidade do filho, tantas que a própria ex acha meio exageradas. As pessoas acabam criando diversas versões da própria vida para as outras pessoas. Aliás, na verdade, muitas postagens são só para o ego dos pais”.

Mas será que os pequenos, no futuro, vão reclamar da exposição que os adultos fazem deles nas redes sociais? Fabro responde: “A tendência é de tenhamos mais controle sobre nossos dados pessoais. No futuro, as crianças de hoje poderão controlar mais isso, mas há uma grande chance de não conseguirem retirar da internet todas as fotos que desejarem”.

Escrito por Gilberto Porcidonio

Gilberto Porcidonio

É repórter do jornal "O Globo" e sociólogo em formação pela PUC-Rio. Especializa-se em cultura e questões raciais. Como poeta, mantém o alter-ego Frederico Latrão e, como escritor, é um dos autores da coletânea "Larica Carioca", sobre os quitutes dos bares do Rio de Janeiro, além de manter o blog 'O Títere'.

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