Diário da Covid-19: vírus está matando 9 brasileiros por hora

Um homem é refletido no espelho de uma motocicleta enquanto desinfeta uma área dentro da favela de Babilônia,na Zona Sul do Rio de Janeiro. Foto Carl de Souza/AFP

País já é o terceiro do mundo em número de pacientes em situação crítica, cidades começam a ficar sem vagas de UTI

Por José Eustáquio Diniz Alves | Sem categoria • Publicada em 19 de abril de 2020 - 11:40

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Um homem é refletido no espelho de uma motocicleta enquanto desinfeta uma área dentro da favela de Babilônia,na Zona Sul do Rio de Janeiro. Foto Carl de Souza/AFP

O Brasil tinha 1.124 vítimas fatais pela covid-19 no sábado, dia 10 de abril, e em apenas uma semana passou para 2.347 (mais que dobrou em 7 dias). Portanto, foram acrescentadas 1.290 novas vítimas em uma semana (109%), sendo que somente de sexta (17/04) para sábado (18/04) aconteceram 9 mortes por hora. O número de 206 óbitos em 24 horas é um montante quase três vezes superior ao número de vítimas de uma tragédia que chocou o país, quando o voo 2933, da companhia LaMia, que transportava o time da Chapecoense sofreu um acidente na Colômbia, deixando 71 pessoas mortas, no dia 28 de novembro de 2016.

O fato é que o Brasil está apresentando uma escalada de vítimas e se destacando no topo da tabela entre os países mais impactados pela pandemia do coronavírus. Considerando o número de casos ativos o Brasil estava em 12º lugar, segundo dados do site WorldOmeteres, resumido na tabela abaixo. Considerando o número de mortes o Brasil estava em 11º lugar. Considerando os casos de pessoas recuperadas o Brasil estava em 9º lugar.

Mas o que preocupa é que, entre os países com mais casos críticos (e que requerem tratamento médico intensivo), o Brasil estava em terceiro lugar, no dia 18 de abril. O Brasil tem quase três vezes mais pessoas em situação crítica (6.634 casos) do que o número de mortos já registados (e as salas de emergência nas principais cidades do país estão sem vagas na UTI). Isto pode significar que haverá muitas mortes nos próximos dias, provavelmente, marcando mais uma semana de tristes recordes.

O panorama nacional

O Ministério da Saúde atualizou, na tarde do dia 18/04, os números da covid-19:  36.599 casos e 2.347 mortes. A taxa de letalidade ficou em 6,4% em relação ao dia anterior.

No dia 01 de março o Brasil tinha apenas 2 casos confirmados de covid-19. Mas os casos se multiplicaram nas semanas seguintes. O gráfico abaixo mostra que, na primeira semana de março, o número de pessoas infectadas cresceu 37,9% ao dia, na segunda semana cresceu 30,1%, na terceira semana bateu o recorde de aumento com 37,6% ao dia e na quarta semana houve uma redução para 19,4% ao dia. Na semana de 29/03 a 04/04 a taxa de crescimento diária do número de casos caiu ainda mais, para 15% ao dia, e na semana de 5 a 11 de abril a variação diária foi de 10,5% ao dia. Na segunda semana completa de abril a variação diária caiu novamente e o crescimento médio diário ficou em 8,5%. Ou seja, o surto de casos tem assustado e apresentado grande variação absoluta, mas a velocidade de propagação está acontecendo em ritmo um pouco mais reduzido.

O gráfico abaixo mostra o crescimento do número de mortes e as variações semanais. O primeiro óbito pela Covid-19 ocorreu no dia 17 de março no Brasil e o ritmo de crescimento foi muito acelerado, com o impressionante aumento diário de 78,3% na semana de 17 a 23 de março, de 29,7% na semana seguinte, de 21,4% na semana de 29 de março a 04 de abril e de 14,7% na semana de 5 a 11 de abril. Na semana de 12 a 18 de abril a taxa de crescimento caiu para 11,1%, mesmo assim é uma taxa muito elevada e que significa que o número de mortes mais que dobra por semana. O número de mortes está crescendo em todo o Brasil e avança rapidamente na Amazônia e na região Norte.

Toda a análise dos números da covid-19 no Brasil precisa levar em consideração que há um número muito elevado de subnotificações e que o país realizou apenas algo em torno de 63 mil testes, o que significa 296 testes por 1 milhão de habitantes, enquanto a Islândia realizou 101,5 mil testes por 1 milhão.

O panorama global

O dia 18 de abril encerrou com 2,33 milhões de casos e 160,6 mil mortes registradas no mundo, com uma taxa de letalidade de 6,9%. Na série histórica, a maior variação diária absoluta global do número de casos ocorreu no dia 03 de abril, com 101,6 mil casos e a maior variação diária absoluta do número de mortes ocorreu dia 14 de abril, com 10,8 mil mortes.

O mês de março foi marcado por uma aceleração da curva de pessoas infectadas no mundo e, embora os números sejam assustadores, houve uma desaceleração em abril. O gráfico abaixo mostra que, na primeira semana de março, o número de pessoas infectadas cresceu 2,9% ao dia, na segunda semana cresceu 5,7%, na terceira semana o aumento foi de 10% e na quarta semana bateu o recorde de crescimento, com uma taxa de 11,7% ao dia. Mas na semana de 29/03 a 04/04 a taxa de crescimento diária do número de casos caiu para 8,9% ao dia e na semana de 5 a 11 de abril a variação foi de 5,8% ao dia, indicando que o ponto de inflexão da curva logística. A semana de 12 a 18 de abril confirma a continuidade da redução do ritmo da pandemia, com uma taxa de 3,9% ao dia. Ou seja, o surto vai continuar avançando no restante do mês de abril, mas com uma velocidade mais reduzida em relação à quarta semana de março.

O ritmo de aumento das mortes pela covid-19 é mais acelerado do que o ritmo do aumento dos casos e faz a taxa de letalidade aumentar ao longo das semanas. O gráfico abaixo mostra que, na primeira semana de março, o número de mortes cresceu 2,8% ao dia, na segunda semana cresceu 7,1%, na terceira semana o aumento diário foi para 12,2% e na quarta semana bateu o recorde de crescimento, com uma taxa de 13,1% ao dia. Mas na semana de 29/03 a 04/04 a taxa de crescimento diário do número de mortes caiu para 11,1% ao dia, indicando que, também neste aspecto, o ponto de inflexão da curva logística parece que foi atingido. Na semana de 5 a 11 de abril o crescimento diário do número de mortes caiu para 7,7% ao dia e na semana de 12 a 18 de abril caiu para 5,7% ao dia. Ou seja, o surto de mortes vai continuar aumentando no restante do mês de abril, mas com uma velocidade mais reduzida em relação à quarta semana de março.

A pandemia e a demografia no Brasil

A demografia não é destino. Sem dúvida, as nações, regiões e cidades mais envelhecidas, em geral, possuem maior vulnerabilidade à pandemia do coronavírus e têm apresentado maiores taxas de letalidade. Porém, há outros fatores no processo. No caso brasileiro, conforme mostra a tabela abaixo, a região Norte, com 8,8% da população nacional e o índice de envelhecimento (IE) de 33,5 idosos em relação a 100 crianças e jovens (0-14 anos), apresentou 9% dos óbitos da covid-19 em 18/04, além de um coeficiente de incidência dos óbitos de 10,3 por milhão. Enquanto isto, a região Sul, com 14,3% da população total, o IE mais envelhecido de 86,8, apresentou 4,4% dos óbitos nacionais e um coeficiente de incidência de 3,1 por milhão. Ou seja, a região Sul – a mais envelhecida do país – tem apresentado menor proporção de óbitos pela covid-19 e menor coeficiente de incidência dos óbitos.

 Uma nova pandemia pode vir do permafrost

O permafrost é um solo – permanentemente congelado – composto por rochas e terras e que é encontrado em toda a região do Ártico, do Alasca e da Sibéria. À medida em que a temperatura da Terra sobe o degelo aumenta em toda a área do círculo polar norte, provocando a erosão do permafrost. Acontece que os solos do Polo Norte abrigam grandes comunidades microbianas que permaneceram adormecidas durantes séculos e milênios. Diversas cepas de vírus de epidemias passadas ficaram congeladas na região ártica e com o aquecimento global os organismos microscópicos embutidos na terra estão voltando à vida.

O degelo do Ártico também tem aberto diversas oportunidades econômicas, como rotas mais curtas de navegação entre o leste asiático e a Europa, além da exploração mineral e de petróleo. A China e a Rússia já possuem dezenas de iniciativas econômicas na região. Por conta disto, os cientistas alertam que a crescente invasão de pessoas nas áreas de solos degradados do permafrost está apresentando novas possibilidades de contágio e de difusão de novas pandemias e novas crises na saúde global.

A crise climática é a ameaça mais urgente do nosso tempo

James Hansen
Climatologista da Nasa

 Emergência climática e o degelo do Ártico

Não existem mais dúvidas sobre o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa. Os últimos 6 anos (2014-19) foram os mais quentes já registrados e a década 2011-20 é a mais quente da série histórica. A atmosfera do Planeta está ficando mais quente e isto tem um impacto devastador em diversos aspectos, pois vai deixar amplas áreas da Terra inóspitas ou inabitáveis. O ano de 2020 pode bater novo recorde de temperatura.

As figuras abaixo (NSIDC da Nasa) mostram a extensão do gelo do Ártico nos meses de março e setembro de 2019. Para o mês de março (auge do gelo do inverno no hemisfério setentrional), a média do período 1981-2010 foi de 15,4 milhões de km2 (quase o dobro da extensão do Brasil), mas caiu para 14,6 milhões de km2 em março de 2019. Para o mês de setembro (mínimo do gelo no verão), a média do período 1981-2010 foi de 6,4 milhões de km2, mas foi de 4,3 milhões de km2 em setembro de 2019.

50 anos do Dia da Terra: 22 de abril de 2020

A pandemia de covid-19 vai passar. O mundo tem 7,7 bilhões de habitantes e, em 2019, nasceram 140 milhões de crianças e morreram 60 milhões de pessoas. Um crescimento vegetativo de 80 milhões de habitantes, segundo dados da Divisão de População da ONU. A pandemia de covid-19 é grave, mas nem de longe chegará a abalar o crescimento demográfico. O mundo humano é enorme e vai sobreviver. Só não poderá voltar ao velho normal. Pois embora a emergência de saúde vá passar, a emergência climática e ambiental vai continuar. Precisamos discutir estes assuntos no Dia da Terra.

Frase do dia 19/04/2020

“A crise climática é a ameaça mais urgente do nosso tempo”

James Hansen (1941-), Climatologista da Nasa

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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