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Hora de meditar, na rua

Movimento defende 20 minutos de meditação diária, não importa onde seja


Meditação no Parque Governador Mário Covas, na Avenida Paulista. Foto Florência Costa
Meditação no Parque Governador Mário Covas, na Avenida Paulista. Foto Florência Costa

Uns fecham os olhos, outros os deixam semiabertos. Sentados, pernas cruzadas, na grama do Parque Governador Mário Covas, na Avenida Paulista, cerca de 50 pessoas vieram meditar, no meio da manhã de um domingo de outubro. Não estávamos exatamente no silêncio dos Himalaias. São Paulo é sempre sonora. O “Anhangabablues” sai da guitarra do Picanha de Chernobill, grupo que sempre toca na Paulista aos domingos. Chorinho, flauta peruana, violino, gente passeando com cachorros, conversando, modelos tendo aulas de danças e crianças brincando. Essa sinfonia paulistana não impediu as pessoas de meditar durante 20 minutos relaxantes, contados no cronômetro.

Quando nascemos, somos totalmente presentes. Os bebês não julgam ninguém e nada, só observam. Aí a gente cresce e perde esse estado de presença. Com a meditação voltamos a esse estado. Isso não pode ser uma coisa difícil que você só possa fazer em um lugar determinado, em um dado horário. É muito mais fácil do que se pensa

Renata Faria
Coordenadora do Medita na Rua

O 2º Medita na Rua, criado por professores destas técnicas no Brasil, foi organizado para mostrar que é possível meditar em qualquer lugar. Aconteceu em 22 cidades do Brasil e em 15 países de todos os continentes, incluindo, Argentina, Chile, Uruguai, México, Cuba, Estados Unidos, Canadá, Noruega, Espanha, Inglaterra, Angola, Índia, Austrália.

“O objetivo do Medita na Rua é inspirar as pessoas. O projeto não pertence a nenhum grupo de meditação especifico. Já registramos 34 práticas meditativas no projeto. É preciso desmistificar a meditação. Muita gente pensa que é difícil, mas não precisa grandes esforços”, explicou a bióloga Renata Faria, uma das coordenadoras do projeto.

Medita na Rua, ou melhor, na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto Divulgação
Medita na Rua, ou melhor, na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto Divulgação

Não se trata, também, de uma questão de crença. Estudos científicos mostram que dois meses de meditação, 20 minutos por dia, já provoca mudanças no cérebro, nas áreas relacionadas à capacidade de tomada de decisões, aprendizagem, foco e equilíbrio emocional, lembra Renata.

“Quando nascemos, somos totalmente presentes. Os bebês não julgam ninguém e nada, só observam. Aí a gente cresce e perde esse estado de presença. Com a meditação voltamos a esse estado. Isso não pode ser uma coisa difícil que você só possa fazer em um lugar determinado, em um dado horário. É muito mais fácil do que se pensa. A gente pode meditar na rua, andando, lavando louça, em uma reunião de trabalho. Podemos meditar de olhos fechados ou abertos”, disse Renata, que é professora de meditação de uma instituição internacional chamada Ishaya do Caminho Brilhante, que reúne pessoas dedicadas a exercícios para expandir a consciência.

Como surgiu a ideia? Um dia, ela e outros meditadores assistiram um vídeo com pessoas meditando no meio de uma rua em Nova Iorque e aí tiveram a ideia de fazer o mesmo no Brasil.

“Foi tudo muito espontâneo. Percebemos que havia uma grande vontade de meditar na rua porque quando fizemos o primeiro evento, em junho, publicamos posts que viralizaram na rede”, contou. “O fato de o Medita na Rua ter se espalhado para outras cidades no mundo também motivou ainda mais as pessoas aqui, que se sentiram conectadas em algo maior”, opinou Renata.

O projeto "Calm City", em Nova Iorque. Foto Divulgação
O projeto “Calm City”, em Nova Iorque. Foto Divulgação

“Há uma outra forma de viver a vida que não é só essa, na qual você é levado e fica refém das emoções que estão acontecendo em volta. A gente tem essa consciência de que existe um estado de paz e plenitude que está aí disponível”, disse a professora de meditação.

Adriana Dorgan, outra coordenadora do Medita na Rua, diz que as pessoas já estão descobrindo que a meditação é um jeito fácil e não necessariamente precisa de grandes conhecimentos. “É algo que está dentro de nós”, ressalta. “Quando as pessoas que te conhecem percebem como você se transformou com a meditação ficam de boca aberta e acabam tentando também porque viram um resultado concreto”, conta.

“Tem muita crença em torno da meditação. Por exemplo: tem gente que pensa que não podemos fazer na rua e aqui estamos, na rua. Trata-se de uma decisão interna, mais do que externa”, constata a designer Katia Oliveiras.

Em Nova Iorque – cidade que inspirou esse movimento – a meditação na rua já está em estágio avançado. Há até mesmo vans de meditação circulando pelas ruas: são os primeiro estúdios de meditação móveis batizados de Calm City. Por US$ 10 a pessoa pode meditar por 10 minutos no meio do burburinho.  O Calm City oferece às pessoas a oportunidade de rapidamente centrarem-se no meio do dia, reduzindo os níveis de ansiedade. O treino da atenção plena não requer nenhum plano de fuga. Nem de São Paulo, nem de Nova Iorque.


Escrito por Florência Costa

Florência Costa

Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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