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Brincando de relaxar

Excesso de tarefas e compromissos aumenta a procura por aulas de ioga infantil


Para ajudar João e Luiza a manter a concentração, a professora de ioga infantil Bianca Graham Bell recorre a um leque de atividades lúdicas e divertidas
Para ajudar João e Luiza a manter a concentração, a professora de ioga infantil Bianca Graham Bell recorre a um leque de atividades lúdicas e divertidas

As orientações precisam ser criativas e lúdicas para conseguir capturar a concentração dos irrequietos participantes das aulas, que, invariavelmente, chegam, digamos, numa “voltagem” um tanto acelerada. Tarefa nada fácil, percebem, na prática, os mestres de ioga que se dedicam agora a aplicar as técnicas da meditação em turmas infantis. Sim, fazer ioga também se tornou coisa de criança desde que os pais descobriram que ela pode servir como um recurso eficiente para desestressar e reduzir, assim, a ansiedade de seus rebentos.

A ioga é uma filosofia, na qual se trabalha corpo e mente, por meio da respiração e da meditação. E isso pode ser aplicado às crianças, que hoje vivem uma rotina muito agitada, o que pode levar à ansiedade.

Bianca Graham Bell
Professora de ioga infantil

Não é à toa que a demanda por profissionais do gênero vem crescendo. A ansiedade, mal que aflige os adultos, também assombra as crianças, já comprovou levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). Excesso de tarefas e compromissos, cobranças, perdas, necessidade de corresponder às expectativas ou qualquer tipo de situação limite podem trazer consequências sérias. Estudo da OMS conclui que, no mundo, 20% das crianças e dos adolescentes apresentam sintomas de depressão – como, por exemplo, apatia ou irritabilidade. No site da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, uma publicação (tendo como fonte o Portal Nacional de Seguros e Saúde) informa que, em 2012, esse tipo de distúrbio já acometeria, no Brasil, entre 8% e 12% da população infanto-juvenil.

Os alegres e espertos João Pedro e Maria Luiza Heinerich, gêmeos de 6 anos, experimentam as aulas de ioga infantil da Academia Upper, no Flamengo, que passou a oferecer o serviço desde março. Não que os irmãos apresentem sintomas de depressão, mas, segundo a pedagoga Fabiane Heinrich, mãe das crianças, a duplinha precisa de atividades de desaceleração, especialmente João Pedro, que demonstra sinais de ansiedade.

– As crianças têm hoje milhares de estímulos e muita informação ao mesmo tempo. Por isso, achei que meus filhos precisavam de um apoio para aprender a manter o foco numa atividade. A Maria Luiza é mais tranquila, mas o João precisa dessa ajuda. No pouco tempo em que estão praticando ioga, já percebi, por exemplo, que ele está menos aflito. Sai daqui mais relaxado – conta a mãe, que sempre observa a aulas dos meninos do lado de fora da sala.

Luiza mostra o desenho do sapo, umas das posições que precisa seguir durante as aulas
Luiza mostra o desenho do sapo, umas das posições que precisa seguir durante as aulas

Para ajudar João e Luiza a manter a concentração, a professora de ioga infantil Bianca Graham Bell recorre a um leque de atividades lúdicas e divertidas. Pintura, leitura, massagem, música e outros recursos estimulam os meninos a aprender técnicas de respiração, postura, aquietação e relaxamento. As posições da ioga, por exemplo, são sempre apresentadas aos gêmeos como imitação da postura de um determinado animal – igualmente para as várias maneiras de respiração.

– A ioga é uma filosofia, na qual se trabalha corpo e mente, por meio da respiração e da meditação. E isso pode ser aplicado às crianças, que hoje vivem uma rotina muito agitada, o que pode levar à ansiedade. Elas estão às voltas com aulas, cursos, compromissos, tudo em sequência. Vivem a síndrome do pensamento acelerado, quando, na verdade, também precisam entrar em contato com o descanso, algo que é muito terapêutico. A criança tem que conviver com momentos de silêncio e quietude – afirma Bianca, que pratica ioga com os filhos de 2 e 12 anos, desde de bebês – É possível começar assim que a criança adquire coordenação motora – conclui.

Há um ano, Bianca, que ensinava ioga para adultos, decidiu aplicar suas técnicas em sessões infantis. Ela procurou, em janeiro passado, a academia, que comprou a ideia. A atividade entrou na grade de aulas em março. Já são três alunos inscritos e uma quarta criança, cujos sintomas de ansiedade já afetam sua saúde, está a caminho.

Na aula, com 40 minutos de duração, a professora consegue a atenção de João e Luiza pedindo que imitem a posição de um “sapinho” ou a respiração de um “cachorrinho”. No momento do relaxamento, Bianca recorre à imaginação dos gêmeos criando histórias nas quais eles são personagens.

– Eles fecham os olhos e eu crio uma história na qual eles podem ser uma nuvem, por exemplo. E aí, a imaginação flui e eles relaxam. Apesar do João ser muito mais agitado que a irmã, dá para perceber que ele aproveita mais o momento do relaxamento. Quando acaba, o João demora a se levantar e me diz que está com “soninho” – revela, orgulhosa, a professora.

Prova de que esse tipo de técnica avança em direção ao público infantil é a quantidade de profissionais oferecendo seus serviços nas redes sociais. Há ainda a oferta de aulas de meditação. Tudo para ajudar os pequenos a ficarem mais tranquilos.

Ansiedade, a propósito, é o que acomete André Carlos, de 8 anos, que coincidentemente também tem uma irmã gêmea. A mãe, Simone Cândido, conta que começou a perceber os primeiros sinais quando o menino tinha 3 anos, como agitação e falta de concentração. Mas foi há dois anos que ele começou a apresentar novo sintoma: compulsão por comida, que fez com que chegasse aos 48,5 quilos, quando deveria ter 30. A obesidade teve consequências nas taxas de colesterol, nos batimentos cardíacos (mais acelerados) e, recentemente, exames comprovaram gordura em volta do fígado.

– Tanto ele quanto a irmã têm a mesma rotina, mas, por algum motivo, ele manifesta ansiedade. Eu gostaria de desacelerar o ritmo, mas ele gosta de fazer muitas atividades – conta a mãe que, preocupada, recorreu a ajuda de psicóloga, nutricionista, endocrinologista e cardiologista.

Como o menino não consegue fazer dieta, o cardiologista o liberou para praticar mais atividades físicas. Ele pratica capoeira e passará a fazer jiu jitsu. Simone, porém, desde que soube da prática de ioga infantil, pensa em testar o recurso com André Carlos.

– Fiquei encantada quando soube que existe a ioga infantil. Desconhecia totalmente e acho que ela pode funcionar com o meu filho, porque, embora, ele precise praticar atividades físicas, momentos de quietude também fariam muito bem – diz a mãe, que já está procurando academias que ofereçam a atividade na região da Zona Oeste, onde mora a família.

Mãe de um menino, Guilherme, igualmente de 8 anos, a jornalista Elisângela Machado também cogita recorrer à ioga infantil na tentativa de reduzir a ansiedade do único filho, que está nove quilos acima do peso. Guilherme, conta ela, é do tipo de criança capaz de passar noites em claro se souber com antecedência de uma viagem, de uma festa ou da visita de algum amigo.

– Meu filho apresenta uma ansiedade crônica, desde pequeno. Evitamos contar as coisas com antecedência para que ele não fique na expectativa e deixe até de dormir à espera. Procuramos uma terapeuta para nos ajudar e ela nos orientou a fazer mudanças na dinâmica familiar porque eu e pai também somos ansiosos – admite ela.

A terapeuta orientou, entre outras coisas, que a família crie, uma vez por semana, a “noite dos jogos”, não os eletrônicos, mas jogos lúdicos para criar uma rotina desestressante.

E para reduzir o sobrepeso, Guilherme – cuja rotina já inclui escola, aulas de inglês, natação e futebol – passará a praticar karatê (ele pediu aos pais). A mãe, no entanto, pensa em experimentar a ioga infantil:

– As práticas da meditação podem ajudar a reduzir essa ansiedade crônica. Adorei saber que agora existem aulas exclusivas para crianças. Acho que o Guilherme vai gostar porque já o peguei brincando de fazer ioga.


Escrito por Laura Antunes

Laura Antunes

Depois de duas décadas dedicadas à cobertura da vida cotidiana do Rio de Janeiro, a jornalista Laura Antunes não esconde sua preferência pelos temas de comportamento e mobilidade urbana. Ela circula pela cidade sempre com o olhar atento em busca de curiosidades, novas tendências e personagens interessantes. Laura é formada pela UFRJ.

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