ODS 1
China derrota o tarifaço de Trump: superávit comercial de mais de US$ 1 trilhão


Enquanto EUA se apoiaram em tarifas, litígios e contenção tecnológica para frear a ascensão chinesa, Pequim respondeu com mais investimento, inovação e produtividade


O superávit comercial da China alcançou cerca de US$ 1,2 trilhão em 2025, o maior saldo do comércio internacional da história. O saldo bilateral chinês diminuiu com os EUA, mas aumentou com o restante do mundo. Segundo o professor estadunidense John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, “a China ganhou a guerra comercial, completamente e decisivamente. O que estamos assistindo é a maior mudança do poder econômico global desde que os Estados Unidos da América (EUA) superou o Império Britânico há cerca de 100 anos”.
O mega superávit chinês não é um acidente inesperado, mas sim uma construção que foi se expandindo nas últimas três décadas. Em 1980, as exportações da China foram de somente US$ 18,1 bilhões, representando 0,9% das exportações globais, com saldo comercial negativo de – US$ 1,8 bilhão. Em 1984, o Brasil exportou mais que a China (US$ 27 bilhões) com saldo comercial de US$ 12 bilhões, enquanto os chineses exportaram US$ 26 bilhões, com déficit comercial de US$ 1,3 bilhão. Em 1991, a China exportou US$ 72 bilhões, representando 2% das exportações globais (mais do dobro das exportações brasileiras que foram de US$ 31,6 bilhões).
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No ano 2000, a China exportou US$ 250 bilhões (representando 4% do comércio internacional), com saldo de US$ 24 bilhões. Em 2005, as exportações da China chegaram a US$ 762 bilhões (7,3% do total global), com superávit de US$ 102 bilhões. Em 2015, as exportações chinesas foram de US$ 2,3 trilhões (13,7% do total global), com saldo comercial de US$ 593 bilhões. Em 2025, as exportações da China atingiram US$ 3,75 trilhões, com saldo comercial de cerca de US$ 1,2 trilhões, representando 15% das exportações globais e cerca de 17 vezes o saldo comercial do Brasil. O crescimento foi impulsionado principalmente por setores de alto valor agregado, como veículos elétricos, tecnologia verde, semicondutores e construção naval.


Entre 1980 e 2025, em valores nominais, as exportações do Brasil cresceram 17 vezes, enquanto as da China se expandiram impressionantes 207 vezes. No mesmo período, as importações brasileiras aumentaram 12 vezes, ao passo que as importações chinesas avançaram 129 vezes. Em termos de participação no comércio mundial, o Brasil elevou sua fatia de 1% para 1,4%, ao passo que a China saltou de 0,9%, em 1980, para cerca de 15% das exportações globais em 2025. Como resultado, as exportações chinesas tornaram-se mais de dez vezes superiores às brasileiras.
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Veja o que já enviamosA comparação da China com o Brasil é extremamente marcante. Mas o desempenho chinês é também extraordinário quando comparado com os EUA, que dominavam o comércio internacional após a Segunda Guerra Mundial. A força comercial refletia o poder da economia americana e a sua capacidade de influir na dinâmica e na configuração das regras internacionais. Entre 1970 e 2000, as exportações dos EUA representavam algo em torno de 12% do comércio internacional. Já as exportações chinesas passaram de cerca de 1% do comércio internacional na década de 1970 para pouco mais de 8% do total global em 2007 (superando os EUA) e dando um salto para cerca de 15% em 2025. Uma mudança tectônica.


Portanto, o crescimento das exportações e do saldo comercial da China não é uma anomalia imprevista. A China se preparou por décadas para se posicionar nas cadeias produtivas e de comércio da economia internacional. Houve planejamento e a implementação de políticas macroeconômicas de longo prazo e os resultados estão ficando transparentes. As mudanças são estruturais e profundas.
A economia chinesa apresentou um desempenho excepcional nas últimas décadas. Segundo o FMI, entre 1980 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB), em dólares correntes, cresceu 63 vezes e, em poder de paridade de compra (ppp), cresceu 150 vezes. A renda per capita, em ppp, cresceu 32 vezes. A expectativa de vida ao nascer era de 43,8 anos em 1950 e passou para 78,4 anos em 2025. A evolução da economia chinesa envolve uma dinâmica complexa, mas, de forma sintética, se pode destacar alguns pontos que foram essenciais para o fortalecimento socioeconômico do país e para a decolagem do desenvolvimento.
Altas taxas de poupança e investimento
Entre 1980 e 2000 a China manteve taxas de poupança e investimento em torno de 37% do PIB, passando para uma média de 43% entre 2000 e 2030. Nenhum país do mundo conseguiu manter taxas de poupança e investimento tão elevadas, por tanto tempo. Sem dúvida, elas foram fundamentais para o aumento da capacidade produtiva, para a melhoria da infraestrutura, para o aumento da produtividade dos fatores de produção, para o controle da inflação, para a maior qualificação da força de trabalho e para se criar um excedente de bens e serviços voltado para a exportação.
Poupança elevada significa que existe uma contenção do consumo e expansão dos investimentos. Alta taxas de poupança e investimento não são apenas um “detalhe” do modelo chinês — são um dos pilares estruturais que explicam a transformação de um país pobre, agrário e devastado por conflitos internos, em uma potência industrial e tecnológica com crescente protagonismo global.
Na prática, isso significa que a economia gera muitos recursos internos e não depende de financiamento externo para crescer. Isto evita crises cambiais típicas de economias emergentes, dando ao governo margem para financiar grandes obras de infraestrutura, expandir indústrias pesadas, energia, logística, construir cidades, redes de metrô, ferrovias, portos, aeroportos, investir em educação técnica e universidades e criar gigantes tecnológicos.
A abundância de poupança interna foi uma espécie de seguro macroeconômico, permitindo crescimento rápido sem risco permanente de insolvência interna e externa. A participação dos salários chineses no PIB é muito baixa quando comparada com os países desenvolvidos do Ocidente, mas como o PIB chinês cresce muito rápido, os salários se elevam com o crescimento da economia, sem prejudicar o investimento.
A alta poupança foi viabilizada pelo contexto demográfico e institucional. Três fatores facilitaram esse fenômeno: a) Estrutura familiar e cultura de prudência financeira – Famílias chinesas poupam muito por motivos culturais e por falta de um sistema previdenciário robusto; b) Redução das taxas de fecundidade – reduziu a proporção de dependentes, aumentou a poupança das famílias (menos crianças = mais recurso disponível) e expandiu o 1º bônus demográfico; c) Sistema financeiro controlado pelo Estado – Taxas de juros administradas e bancos estatais direcionaram recursos para: infraestrutura, exportações e modernização industrial e da infraestrutura.
Taxa de câmbio competitiva, baixa carga tributária e baixa inflação
Apesar de todo o crescimento econômico e do imenso superávit comercial, a China conseguiu absorver grande montante de dólares sem valorizar demais sua moeda, o yuan. O “truque” macroeconômico se deu com a neutralização da pressão de valorização do yuan através de intervenções sistemáticas do Banco Central. O mecanismo ocorre da seguinte forma. Os exportadores recebem dólares das vendas externas; O Banco Central compra esses dólares, emitindo yuans para adquirir as divisas; Isso faz crescer as reservas internacionais (que passaram de quase zero nos anos 1980 para mais de US$ 3 trilhões atualmente).
Sem intervenção, esse processo causaria expansão monetária gigantesca, aumentando a inflação e o excesso de oferta de dólares provocaria a valorização do yuan, reduzindo competitividade. O governo chinês impede isso com dois instrumentos: a) esterilização monetária – quando o BC compra dólares, ele injeta yuan na economia. Para evitar inflação, ele precisa retirar esse dinheiro de circulação; b)
Isso é feito via emissão de títulos pelo Banco Central e pelos bancos estatais. O BC vende títulos no mercado doméstico (“sterilization bonds”) para absorver os yuans recém-criados; c) Elevação de compulsórios bancários – a China manteve por anos os maiores depósitos compulsórios do mundo, acima de 20%. Isso “congela” grande parte da liquidez, evitando expansão excessiva do crédito; d) Sistema financeiro estatal – Como os grandes bancos são estatais, o BC consegue coordenar os limites de crédito, a taxa de juros administrada e a compra e venda de títulos. Esse controle – impedindo crédito excessivo – foi um amortecedor contra inflação, que se manteve baixa durante as últimas décadas.
Depois que o BC chinês comprava dólares, ele precisava investi-los. A reciclagem foi feita principalmente por meio de compra de Treasuries dos EUA. Assim, a China se tornou o maior credor externo dos EUA por muitos anos. Ou seja, a China vendia mercadorias para os EUA e emprestava o dinheiro necessário para os americanos continuarem com altas taxas de consumo (e baixa poupança).
Em comparação com economias desenvolvidas, a China efetivamente tem uma carga tributária nominal (em % do PIB) menor do que outros países. Segundo o FMI e a OCDE, a carga tributária total da China (impostos e contribuições sociais) gira em torno de 20-25% do PIB. Isso é significativamente menor que a média dos países da OCDE (cerca de 34%). O que diferencia a China é a estrutura das receitas públicas. O governo chinês depende fortemente de fontes não-tributárias.
Mas o verdadeiro diferencial tem sido: a) Um sistema fiscal dual: extremamente agressivo para atrair investimento estrangeiro e promover exportações, combinado com controles estatais sobre outros recursos (terra e Empresas estatais – SOEs); b) Uso da receita pública (seja de impostos, terra ou SOEs) para financiar investimentos massivos em infraestrutura produtiva, em vez de focar inicialmente em um amplo estado de bem-estar social; c) Capacidade de implementação rápida de incentivos fiscais para setores estratégicos. O modelo estratégico, seletivo e pragmático de arrecadação e gasto público serviu como um dos pilares do milagre econômico chinês.
A Nova Rota da Seda da China
A Nova Rota da Seda — Belt and Road Initiative (BRI) — não é apenas um megaprojeto de infraestrutura. Ela funciona, simultaneamente: como mecanismo internacional de reciclagem dos superávits comerciais da China, como estratégia geoeconômica para criar uma cadeia global de produção centrada na China, como instrumento de projeção de poder e influência política, como forma de garantir segurança energética, logística e tecnológica para as próximas décadas.
A BRI funciona como mecanismo de reciclagem dos dólares dos superávits comerciais, uma vez que a China acumula centenas de bilhões de dólares por ano em superávits comerciais. Durante os anos 1980–2010, reciclou esses dólares principalmente comprando: Treasuries (títulos do governo dos EUA) e ativos financeiros em países centrais. Mas isso tinha limites claros, como dependência excessiva dos EUA, baixo retorno financeiro, risco geopolítico (congelamento de ativos, como aconteceu com a Rússia), incapacidade de usar esses dólares para gerar influência direta.
A partir de 2013, com o lançamento da BRI, a China começou a reciclar seus dólares de uma forma mais estratégica:
1. Financiando infraestrutura em dezenas de países usando bancos estatais como China Development Bank (CDB), Export-Import Bank of China (ExIm) e Silk Road Fund. A China empresta dólares para estes países construírem portos, ferrovias, rodovias, hidrelétricas, redes de telecom, cabos submarinos e zonas industriais, parques de exportação.
2. Empresas chinesas fazem as obras e recebem dólares de volta – a China empresta dólares às nações parceiras, o país usa o dinheiro para contratar empresas chinesas, as empresas chinesas recebem de volta os dólares e a dívida externa fica com o país parceiro. É como “exportar capital” mas mantendo o ciclo dentro da órbita chinesa.
3. Esses projetos aumentam demanda futura por produtos chineses – os investimentos em infraestrutura e produção da China nos diversos países do mundo cria dependência de equipamentos chineses, peças de reposição, tecnologia, empresas de engenharia e mão de obra especializada. Ou seja: cada dólar investido fora potencialmente aumenta as exportações futuras.
Desta forma, a BRI é uma estratégia para criar uma cadeia global de produção centrada na China, que evoluiu do modelo “oficina do mundo” para centro coordenador das cadeias globais. Uma das prioridades é o investimento em energia renovável e na descarbonização da cadeia produtiva. A BRI é o instrumento que torna essa coordenação estrutural. O mundo se torna multipolar na infraestrutura e comércio. E neste campo a China já é dominante.


Transição energética e revolução tecnológica
Desde o plano “Made in China 2025”, a China está usando a transição energética e a revolução tecnológica como pilares estratégicos para moldar um novo ciclo de crescimento baseado em alta produtividade, liderança industrial e superávits comerciais sustentáveis. A lógica é estrutural: quanto mais a economia chinesa domina setores de fronteira, mais ela captura valor nas cadeias globais e maior tende a ser seu superávit comercial.
A China não vê a transição energética apenas como política climática. Ela trata energia limpa como um setor industrial, com investimento em larga escala em: painéis solares (fotovoltaicos), turbinas eólicas, baterias de íons de lítio, carros elétricos (EVs), linhas de transmissão HVDC, hidrogênio verde e redes inteligentes e armazenamento de energia. Ao eletrificar o sistema produtivo, a China reduz a dependência de petróleo importado, diminui vulnerabilidade estratégica e barateia a energia para a indústria, aumentando competitividade. A construção de um “Eletroestado” visa também diminuir a dependência da importação de combustíveis fósseis, aumentando a segurança energética do país.
A China também está se movendo rapidamente para setores de fronteira: Inteligência Artificial generativa e aplicada, robótica avançada, veículos autônomos, drones (UAVs e UGVs), chips especializados (IA e sensores) e automação industrial (Industry 4.0). Essas tecnologias têm funções centrais para o futuro dos superávits chineses, pois a China está envelhecendo e a população em idade de trabalho já está caindo. A resposta é mais robôs, mais automação, mais IA, menos dependência da força de trabalho humana.
A liderança da China tende a crescer com a transição energética, a automação massiva, a robótica e IA, a política industrial ativa, o domínio de recursos minerais críticos, a liderança em mercados emergentes (Sul Global) e as exportações de bens complexos. Essa combinação cria um superciclo industrial chinês muito difícil de ser reproduzido por outros países. As firmas SMIC, Moore Threads e MetaX lideram o esforço de Pequim para encerrar a dependência de tecnologia estrangeira em semicondutores e chips de IA. Notícias recentes relatam que a China teria construído uma máquina de litografia ultravioleta extrema (EUV) dentro de um laboratório de alta segurança em Shenzhen, num esforço coordenado nacionalmente para superar o principal gargalo na fabricação de chips avançados (produção em larga escala prevista para 2028).


Educação de qualidade, investimento em Ciência e Tecnologia e estabilidade social
O investimento maciço na educação, especialmente no ensino superior, resultou na criação do maior sistema de ensino superior do mundo e na formação de uma vasta reserva de talentos em áreas estratégicas. A China forma anualmente mais de 3,5 milhões de graduados em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), um número muito superior ao de países desenvolvidos como os EUA.
Essa formação em massa criou o capital humano essencial para a nova economia, fornecendo uma base robusta de engenheiros e cientistas necessários para impulsionar a inovação e a alta produtividade industrial. Este esforço é especialmente visível na área de Inteligência Artificial (IA), onde engenheiros formados em universidades chinesas de elite são considerados protagonistas globais e têm sido essenciais para o desenvolvimento de modelos de IA de ponta.
A China foca em modelos de IA aberta (Open Source) e os EUA em modelos de IA de código fechado (Proprietária). Isto tem impacto profundo na competição tecnológica global, na inovação e na estrutura de mercado. Os EUA tentam manter a hegemonia tecnológica através do poder de processamento e da propriedade intelectual, enquanto a China busca a supremacia através da capilaridade, do baixo custo e da inovação acelerada impulsionada pela comunidade aberta. Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirmou que a China, mesmo sob restrições severas de chips impostas por Washington, cresce mais rápido do que qualquer um imaginava. Segundo ele, nove das dez melhores universidades de ciência e tecnologia do mundo estão na China, metade dos pesquisadores globais de IA é chinesa, assim como 70% das patentes registradas no setor no último ano.
O aumento dramático dos gastos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) colocou a China no topo de indicadores cruciais de produtividade científica. O investimento em P&D e a formação de talentos têm impulsionado a produtividade e a sofisticação da indústria, mudando a percepção da China no cenário global. O Gigante Asiático está em uma transição estratégica, deixando de ser o mero montador global (indústria de baixo valor agregado) para se tornar uma superpotência tecnológica e inovadora (indústria de alto valor agregado).
Empresas como Huawei, Lenovo, Alibaba, Tencent e DeepSeek simbolizam esse novo protagonismo, investindo pesadamente em pesquisa e tornando-se líderes em seus respectivos setores. O plano “Made in China 2025” e outras políticas visam aumentar a participação de mercado de players locais em setores estratégicos de tecnologia, reduzindo a dependência de importações em áreas como semicondutores e dispositivos ópticos, o que fortalece a resiliência e a produtividade interna. Há uma mudança de foco de uma estratégia de engenharia reversa para uma fase de “inovação autóctone” (gerada internamente), consolidada por um sistema que integra governo, indústria e academia.
Em suma, o esforço social e coletivo, somado aos investimentos estratégicos, transformou o conhecimento e a inovação no principal motor de crescimento da China, garantindo o crescimento sustentado e a alta produtividade total dos fatores de produção. As restrições impostas pelos EUA ao acesso da China aos semicondutores mais avançados estão tendo um efeito paradoxal: no curto prazo criam gargalos tecnológicos, mas no médio e longo prazo estão acelerando a consolidação de um ecossistema chinês de semicondutores mais autônomo, integrado e resiliente. Setor de tecnologia mais forte e autônomo.
A estabilidade social, as baixas taxas de homicídio e o alto nível de segurança pública na China são pilares importantes do sucesso econômico, pois reduzem os custos operacionais para empresas, aumentam a atratividade para investimentos, permitem o pleno funcionamento do consumo e dos serviços e criam um ambiente de previsibilidade. A segurança pública chinesa é tanto um fator de produção econômica quanto um reflexo das prioridades políticas e do trade-off entre liberdade e controle no sistema de governo.
Estado de engenheiros versus sociedade de advogados
O livro “Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future”, de Dan Wang, distingue dois modelos de organização social e política: a da China como um “estado de engenheiros”, focado em construir — infraestrutura e fábricas – e a dos Estados Unidos como uma “sociedade de advogados”, voltada para regras, litígios, regulamentos e processos. Essa diferença na formação das “elites” (engenheiros na China versus advogados nos EUA) molda, segundo ele, estilos de governança radicalmente diferentes — um prioriza capacidade de fazer, o outro tende à contenção e à precaução.
Contudo, Wang não faz um hino laudatório à China. Ele alerta para o preço desse ritmo: a ênfase na “engenharia”, física ou social, muitas vezes ignora os impactos humanos. Ele discute com profundidade dois exemplos dramáticos: a política do filho único (one-child policy) e a experiência traumática da política “zero-Covid”. A lógica da engenharia — metas numéricas, eficiência, planejamento centralizado — se estende ao social: famílias, demografia, mobilidade, vida cotidiana. Isso pode gerar rachaduras profundas: repressão, vigilância, perda de liberdade individual, desrespeito às complexidades da vida humana.
Wang propõe que o mundo, e especialmente os EUA, deveriam aprender com a capacidade chinesa de “construir”: retomar coragem para investir em infraestrutura, tecnologia, produção em larga escala, combate à estagnação e à burocracia. Ao mesmo tempo, ele acredita que a China deveria aprender com os limites e valores de sociedades com mais legalidade, liberdade individual e proteções institucionais. Ou seja, equilibrar engenharia com humanidade e técnica com ética.


China se consolida como motor industrial do planeta
O superávit comercial recorde da China em 2025 — cerca de US$ 1,2 trilhão — não é uma surpresa, mas o resultado de um projeto nacional articulado ao longo de quatro décadas, sustentado por altas taxas de poupança e investimento, câmbio competitivo, política industrial ativa, domínio das cadeias globais de valor, liderança tecnológica e uma diplomacia econômica ancorada na Nova Rota da Seda.
Embora um estudo mais aprofundamento sobre o significado do número recorde do superávit comercial ainda seja necessário, a China combinou planejamento estatal de longo prazo, disciplina macroeconômica, capacidade de execução e um sistema educacional e científico em rápida expansão para transformar sua estrutura produtiva e projetar poder econômico muito além de suas fronteiras. A despeito do alto crescimento econômico, as transições demográfica e energética possibilitaram que as emissões chinesas de CO2 chegassem ao pico em 2024 e 2025, devendo apresentar a primeira queda em 2026. A China tem investido fortemente em “energias limpas”, enquanto os EUA priorizam os combustíveis fósseis.
A vitória chinesa sobre o tarifaço de Trump é um evento global e simboliza algo maior: a reconfiguração da economia mundial e o reforço da multipolaridade. Trata-se de duas lógicas distintas de poder. Enquanto os Estados Unidos se apoiaram em tarifas, litígios e contenção tecnológica para frear a ascensão chinesa, Pequim respondeu com mais investimento, mais inovação, mais integração e mais produtividade.
Além disto, tem duas grandes vantagens: 1) controla o refino global de “terras raras” e da prata, o que é um contraponto essencial na guerra tarifária e 2) Produz duas vezes mais energia, com um custo unitário mais baixo (o que é fundamental para a expansão da capacidade de processamento de dados da IA).
A China assumiu a liderança na Indústria 4.0 – a próxima onda tecnológica que integra sistemas industriais como automação de fábricas, robótica, sistemas ciberfísicos, sensores, internet das coisas (IoT), 5G e logística. Tendo assumido a liderança em tecnologias da Indústria 4.0, a China agora busca uma promoção de “fábrica do mundo” para “arquiteta de plataformas” da indústria global. O objetivo é definir padrões para a comunicação entre máquinas, fluxo de dados, operação de segurança e interconexão de fábricas.
A economia estadunidense se sustenta em baixa poupança, elevado consumo, déficits em transações correntes e endividamento interno nas mãos de propriedade estrangeira. A economia chinesa se sustenta em altas taxas de poupança, baixa taxa de consumo, superávits em transações correntes e endividamento em moeda nacional. A economia chinesa trabalha com sobrecapacidade e a dos EUA com subcapacidade produtiva. O presidente Donald Trump apostou que o mercado americano era insubstituível e que o mundo iria se dobrar à força das tarifas protecionistas. Todavia, o mega superávit comercial, em 2025, reforçou a confiança do líder Xi Jinping nos fundamentos da estratégia chinesa. A China não está apenas alcançando os EUA, mas ultrapassando a capacidade econômica americana.
O cenário internacional contemporâneo é atravessado por tensões multifacetadas. O modelo econômico chinês, ao promover a ‘exportação de desemprego’, impõe custos sociais e éticos significativos, além de comprimir o consumo interno e as importações. Nesse contexto, uma valorização do yuan, somada à maior abertura da China a produtos estrangeiros, seria fundamental para o reequilíbrio global. Mas, enquanto a Europa enfrenta a crise energética decorrente da guerra na Ucrânia e a perda de competitividade frente aos preços chineses, o yuan expande sistematicamente sua relevância frente ao dólar nas trocas internacionais e a China consolida sua interpenetração junto ao Sul Global. As sanções americanas não conseguem mais deter a expansão e a influência do “Império do Meio”.
A China consolidou-se como o principal motor industrial do planeta, assumindo a liderança em setores estratégicos — energia limpa, robótica, inteligência artificial, infraestrutura e manufaturas avançadas — e redefinindo os padrões globais de comércio e produção. O superávit comercial de 2025, por um lado, evidencia a consolidação da China como a potência econômica mais dinâmica do século XXI; por outro, existe um processo de “desamericanização” da economia chinesa, pois as exportações da China para os EUA representavam 38% do total exportado em 2001, caiu para 22% em 2018 e para cerca de 9% em 2025.
As empresas chinesas não estão se afastando, mas apenas ficando menos dependentes do mercado americano. Diante das tarifas e do protecionismo de Washington, Pequim construiu novas rotas comerciais pela Ásia, Europa, África, América Latina e o Sul Global. As sanções americanas, ao invés de enfraquecer, serviram para acelerar o fortalecimento e a independência da indústria chinesa. Entre 2001 e 2025, as exportações chinesas para os EUA, em termos nominais, cresceram 3,2 vezes e significativos 14 vezes para o mundo. A China não só ampliou, mas diversificou o seu superávit comercial.
Contudo, saldos comerciais dessa magnitude tendem a ser insustentáveis no longo prazo e podem agravar tensões e conflitos no sistema internacional. Com o esgotamento da ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos após o colapso da URSS e a ascensão da China como potência industrial e tecnológica, a chamada Armadilha de Tucídides deixa de ser uma hipótese abstrata e passa a configurar um risco concreto. Nesse novo cenário, o Brasil, assim como os demais países, será compelido a se reposicionar estrategicamente para mitigar os múltiplos riscos da conjuntura atual e, simultaneamente, proteger-se das instabilidades e aproveitar as oportunidades abertas pela reconfiguração da ordem internacional.
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José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves é sociólogo, mestre em economia, doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), pesquisador aposentado do IBGE, colaborador do Projeto #Colabora e autor do livro "ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século" (com a colaboração de F. Galiza), editado pela Escola de Negócios e Seguro, Rio de Janeiro, 2022.







































