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Os amigos da rua

Grupo de voluntários distribui quentinhas a pessoas que vivem nas calçadas do Centro do Rio


Moradores de rua fazem fila para receber quentinhas, além de sobremesa e suco: voluntários atendem mais de 100 pessoas a cada duas semanas (Foto de Bárbara Lopes)
Moradores de rua fazem fila para receber quentinhas, além de sobremesa e suco: voluntários atendem mais de 100 pessoas a cada duas semanas (Foto de Bárbara Lopes)

A cada duas semanas, geralmente às quintas-feiras, a partir de 21h, a cena se repete na calçada em frente à sede do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, no Centro do Rio. Uma fila com mais de 100 moradores de rua se forma para aguardar o jantar que será distribuído em marmitas pelos Amigos da Rua, projeto surgido de forma espontânea, organizado por voluntários, sem associação com ONGs ou entidades religiosas. Desde o surgimento do grupo, em agosto de 2017, alguns voluntários saíram, outros entraram, mas o jantar oferecido se mantém da mesma forma: uma quentinha de 750ml, sempre contendo proteína, legumes e vegetais, além de suco, água e uma sobremesa.

Formado hoje por 16 pessoas, o grupo se reúne nos fundos de uma empresa, no bairro do Andaraí, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Nos dias do encontro, Carla Gradim, 56, e Ana Lúcia Salvador, 48, se revezam para cozinhar em duas grandes panelas sobre um pequeno fogão industrial, adquirido através das doações de uma semana de campanha. A aposentada Carla é moradora da Vila da Penha e participa dos Amigos da Rua há um ano, desde que o conheceu através de um compartilhamento no Facebook. Gerente de uma loja, Ana Lúcia mora no Andaraí e começou no projeto há um mês: embora o conhecesse desde o início, só agora conseguiu conciliar os horários do trabalho com os do grupo. Janaína Coutinho, 44, também é moradora do Andaraí e ajuda na cozinha. Mãe de três filhos e avó de uma menina, faz parte do projeto desde o início e coleciona muitas histórias; algumas delas, duras: “Um dia apareceu no final da entrega um homem com a filha pequena, mas a comida já tinha acabado. Ele disse que veio andando de longe e que aquela seria a única refeição deles naquele dia. E eu com uma neta pequena em casa. Aquilo me deu um nervoso”.

É um sentimento de troca. Você chega de noite em casa e tem coisas do nosso dia a dia, da nossa casa, que a gente não dá valor: banho, água na geladeira, comida na panela. Então você saber que naquele dia, aquelas pessoas que estão ali, vão ter o que comer, uma comida que você come, é muito bom

Ana Lúcia Salvador
Gerente de loja e cozinheira nos Amigos da Rua

Muitas vezes a vontade de ajudar o próximo existe, mas a forma de realizar isso se mantém um mistério. Era esse o caso de Daniela Soares Teixeira, 43, idealizadora dos Amigos da Rua. A chance surgiu no centro de umbanda que frequentava: ela propôs a distribuição de comida a moradores de rua, mas a iniciativa acabou não dando certo. Daniela decidiu criar os Amigos da Rua no espaço disponível no fundo da empresa que administra com o marido. Atualmente o grupo tem voluntários de diferentes crenças e lugares, todos unidos pelo propósito de ajudar ao próximo. Daniela não gosta muito de cozinhar, mas ajuda a organizar as doações, armazenar alimentos, na limpeza do local e coordena todos os voluntários. Ela, porém, não participa da entrega das marmitas aos moradores de rua. “Quando eles saem daqui eu já estou exausta. Estou envolvida com o projeto todo, divulgação também e fico na cabeça deles: divulguem, compartilhem, fiz evento, repostem! Quem pegou doação?”, conta. Outro motivo para não comparecer na entrega é que, mesmo tendo essa vontade de ajudar, nunca pensou em se envolver diretamente, pois não consegue se manter impassível vendo pessoas em situações difíceis, ”Seja gente, seja bicho, me dá um troço que eu começo a chorar…”, explicou.

Carla Gradim e Ana Lúcia Salvador comandam as panelas dos Amigos da Rua: grupo de 16 pessoas se divide entre tarefas de conseguir doações, cozinhar, transportar e distribuir comida sempre as quintas-feiras, a cada 15 dias (Foto: Barbara Lopes)
Carla Gradim e Ana Lúcia Salvador comandam as panelas: grupo de 16 pessoas se divide entre tarefas de conseguir doações, cozinhar, transportar e distribuir comida (Foto: Barbara Lopes)

Daniela começou os Amigos da Rua com quatro ou cinco conhecidos. Através de compartilhamentos nas redes sociais, mas principalmente entre amigos, a iniciativa começou a crescer. Apresentado por uma antiga voluntária, o publicitário Gustavo Freitas, 41, passou a fazer parte do grupo há quatro meses. Professor de maquetes 3D, atualmente dá aulas para crianças e logo que conheceu os Amigos da Rua, ficou muito interessado: “É uma galera que não se conhece, que não é amigo há muito tempo, mas, quando se precisa de algo, todos se prontificam a dar”, disse. Gustavo ajuda com a entrega de água e com o transporte. Além desse projeto, ajuda também um orfanato e um asilo próximos de sua casa no Riachuelo. Seu vizinho e amigo de longa data, Bruno Nascimento, 37, também faz parte dos Amigos da Rua, apresentado pela mesma voluntária. Bruno é cirurgião dentista, ajuda montando as marmitas e com o transporte. Foi então a vez de Bruno ampliar o grupo convidando Alessandro Oliveira, 36, acostumado a atuar em diferentes projetos ligados à responsabilidade social no seu trabalho no Senac Rio. Alessandro é quem costuma organizar os amigos para pedir doações de alimentos, ou dinheiro para adquirir os alimentos. Por sua vez, Alexandre trouxe o amigo Sandro Silvestre, 38 anos.

Advogado, Sandro, desde que aderiu ao grupo em setembro de 2018, está sempre presente. Participa também de outros projetos sociais, como o Rua sem Fome, também de voluntários para distribuir alimentos. Nenhum deles ligados à religião ou partido político. Como trabalha até mais tarde, sua ajuda no Amigos da Rua é com transporte e distribuição de quentinhas: “Eu fico com os isopores da comida e devolvo depois. É tudo muito no coleguismo porque a gente tem que facilitar a logística e, às vezes, não tem carro para todo mundo”. Morador de São Cristóvão, sempre se preocupou com a vida dos moradores de rua e sobre as discriminações que sofrem, em suas experiências no projeto percebeu determinadas características nos grupos que recebem a janta: “O pessoal carente é uma espécie de auto governo. Eles já estão ali em fila, organizados, um por vez”, afirmou.

O grupo também chegou a distribuir roupas e calçados, mas acabou desistindo porque houve tumulto na entrega. “Só teve o problema de doar roupas e calçados porque eles têm a tendência de escolher muito. Eles não gostam muito de roupas claras porque, na prática, as roupas são descartáveis, já que não tem como lavar. Aí preferem as cores escuras, onde a sujeira aparece menos. A questão de escolher, que pode parecer uma soberba, na verdade tem um motivo prático”, acrescentou o advogado.

Mutirão para montagem das quentinhas: a cada duas semanas, sempre às quintas-feiras, os Amigos da Rua se reúnem para o jantar que, no dia 25, teve frango, batata doce, arroz e feijão (Foto: Barbara Lopes)
Mutirão para montagem das quentinhas: a cada duas semanas, os Amigos da Rua se reúnem para o jantar que, no dia 25, teve frango, abobrinha, cenoura, batata doce, arroz e feijão (Foto: Barbara Lopes)

Entre todos os voluntários, o chinês Li Haisheng, 43, além de ser o voluntário mais querido, é um dos mais engajados e também o mais conhecido pelos atendidos pelo projeto. Dono de uma pastelaria na esquina da ‘sede’ dos Amigos da Rua, é ele quem sempre faz as duas grandes panelas de feijão. Amigo de Janaína, foi através de uma brincadeira que ficou conhecendo o projeto, “Eu brinquei com ele: Ô chinês sem vergonha, larga de ser pão duro e ajuda o projeto. E ele disse: ‘Que projeto?’. Daí eu expliquei e ele disse: ‘Eu tenho aqui um pacote de salsichas de 3 quilos, você quer?”, contou Janaína. Curiosamente, naquele dia estavam faltando salsichas para as marmitas. A amiga o convidou para ir até lá conhecer o projeto, mas não acreditou que ele fosse: “Ele veio no mesmo dia e nunca mais parou. É um dos que ajudam mais. Não só trabalhando, mas comprando as coisas. Tem dia que ele fala que não vai vir, porque tem que trabalhar ou porque está cansado, mas sempre aparece”.

Li trabalha todos os dias em sua pastelaria, de manhã até de noite, e permanece trabalhando depois do fechamento fazendo os salgados para o dia seguinte, somente no domingo fecha mais cedo, às 13h. “Ele é maravilhoso! Queria ter metade da disposição que ele tem!”, comentou Daniela. O comerciante não costuma entregar as quentinhas sozinho: seus dois filhos – Henrique, 15 anos, e Nicole, 9 – já se acostumaram a acompanhar o pai na distribuição.

Os Amigos da Rua costumam distribuir em torno de 120 quentinhas a cada quinzena e a arrecadação para a compra dos alimentos é feita pelos próprios voluntários: na última quinta-feira de março, quando o Colabora acompanhou a distribuição, eles usaram 15 quilos de frango, 16 quilos de legumes (abobrinha, batata doce, cenoura), 120 ovos, 10 quilos de arroz e oito quilos de feijão. Sempre antes da distribuição, o grupo se reúne e janta a mesma comida que será entregue aos moradores de rua. É uma maneira de integrar a todos e também garantir a boa qualidade da comida servida. A forma de perceber a vida também mudou, Ana Lúcia sintetizou: “É um sentimento de troca. Você chega de noite em casa e tem coisas do nosso dia a dia, da nossa casa, que a gente não dá valor: banho, água na geladeira, comida na panela. Então você saber que naquele dia, aquelas pessoas que estão ali, vão ter o que comer, uma comida que você come, é muito bom”.


Escrito por Barbara Lopes

Formada em Letras/Literaturas pela Universidade Federal Fluminense, carioca que não vai à praia, mas vive na floresta e na selva da cidade. Cursando graduação em Jornalismo na UFRJ. Acredita que a leitura e o diálogo transformam o mundo.

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