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Se perdermos o oceano, perderemos tudo

Acidificação já levou à perda de 40% dos recifes de coral do planeta


O recife Rapture fica nas Ilhas Havaianas e é considerado um monumento nacional, que engloba mais de 140.000 milhas quadradas de oceano
O recife Rapture fica nas Ilhas Havaianas e é considerado um monumento nacional, que engloba mais de 140.000 milhas quadradas de oceano

Os oceanos já absorveram cerca de 30 por cento do dióxido de carbono produzido por humanos em todo o mundo, armazenando carbono dissolvido durante séculos. O aumento da absorção no último século fez com que crescesse também o teor de acidez das águas. Desde níveis pré-industriais, o pH marinho caiu de uma média de 8.2 para os 8.1 de hoje. Projeções da mudança do clima estimam que até 2100, este teor de acidez poderá cair ainda mais, para em torno de 7.8 – nível significativamente mais baixo do que qualquer outro experimentado por comunidades oceânicas de mar aberto até hoje.

Tento não ser alarmista, mas as alterações no ecossistema marinho seriam muito traumáticas para suas populações

Stephanie Dutkiewicz
Pesquisadora do MIT

O fenômeno já levou à perda de 40% dos recifes de coral do planeta, acelerado por uma série de branqueamentos provocados por temperaturas excepcionalmente quentes que levam algas simbióticas a se tornarem tóxicas. Já que estes recifes, florestas dos mares, apoiam um quarto de toda a vida marinha em apenas 0.1 por cento de suas águas, podemos estar a caminho de uma extinção em massa. E, se perdermos o oceano, perderemos tudo.

Quando o oceano absorve dióxido de carbono, ele é convertido em ácido carbônico, que por sua vez dissolve as conchas de diversas espécies. Um estudo da “Proceedings of the Royal Academy B”, do ano passado, revelou que isto ocorre já com pequenos caramujos. Outro, da revista Science, de abril deste ano, diz que uma continuação das emissões de gases de efeito estufa nos patamares atuais pode forçar a uma mudança “efetivamente irreversível” no ecossistema marinho neste século.

O Pink Coral fica no Atol Rose, na Samoa americana
O Pink Coral fica no Atol Rose, na Samoa americana

Pode piorar. Os plânctons, minúsculas criaturas que são a base da cadeia alimentar do oceano, produzem metade do oxigênio atmosférico. São organismos que funcionam quase da mesma maneira que as plantas que conhecemos. Contêm clorofila e dependem da luz do sol. Por esta razão, tendem a flutuar perto da superfície. Também absorvem nutrientes como nitratos, fosfatos e enxofre. E eles se encontram especialmente ameaçados. Não será nada urgente em termos de escala geológica planetária, mas este quadro é passível de mudanças.

O equilíbrio das espécies de plânctons seria alterado radicalmente com a acidificação. Até 2100, muitas delas terão desaparecido, enquanto que outras irão florescer, diz estudo de julho do ano passado feito pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), conjuntamente com a Universidade do Alabama.

Os pesquisadores compararam a resposta dos fitoplânctons não apenas à acidificação, mas ainda a outros impulsionadores da mudança do clima, como temperaturas mais altas e menor fornecimento de nutrientes. Com o aquecimento, grande parte de suas populações migrarão para o norte. Mas os efeitos mais dramáticos serão mesmo gerados pela acidificação.

“Tento não ser alarmista, porque não é bom para ninguém”, diz Stephanie Dutkiewicz, pesquisadora do Centro de Ciência da Mudança Global do MIT. “As alterações no ecossistema marinho, porém, seriam muito traumáticas para suas populações.”

Segundo a ONU, os impactos econômicos seriam desastrosos. A economia global perderia 1 trilhão de dólares por ano no final do século, por perdas em setores como pesca e turismo.

Recife de coral nas Ilhas Virgens
Recife de coral nas Ilhas Virgens

 


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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