Quando a água desaparece silenciosamente: o Cerrado no centro da crise hídrica brasileira

Área de Cerrado no Maranhão: bioma está no centro da crise hídrica brasileira (Foto: Fernando Frazâo / Agência Brasil - 12/10/2025)

Está em curso um enfraquecimento desse sistema vital, com efeitos que começam a se espalhar muito além dos limites do bioma

Por Isabel Figueiredo | ODS 15ODS 6
Publicada em 1 de abril de 2026 - 09:20
Tempo de leitura: 6 min

Área de Cerrado no Maranhão: bioma está no centro da crise hídrica brasileira (Foto: Fernando Frazâo / Agência Brasil - 12/10/2025)
Área de Cerrado no Maranhão: bioma está no centro da crise hídrica brasileira (Foto: Fernando Frazâo / Agência Brasil – 12/10/2025)

Passado o Dia Mundial da Água, o desafio que permanece é mais profundo do que a mobilização pontual ou a visibilidade momentânea. Ele exige atenção contínua a um processo silencioso, porém estruturante: a perda progressiva da capacidade do Cerrado de produzir, armazenar e distribuir água.

Os sinais desse processo já são mensuráveis. Levantamento conduzido a partir da análise de 81 bacias hidrográficas do bioma mostra que 88% delas apresentam redução de vazão, o que é considerado um indicativo de desequilíbrio crescente em um território responsável por abastecer algumas das principais regiões do país. As projeções são ainda mais preocupantes: até 2050, o Cerrado pode perder até 35% de suas reservas hídricas.

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Mais do que um dado ambiental, trata-se de um alerta sistêmico. O Cerrado sustenta bacias estratégicas como as dos rios São Francisco, Tocantins-Araguaia e Prata, funcionando como uma infraestrutura natural de produção e distribuição de água. Quando essa engrenagem perde eficiência, os impactos se expandem para o abastecimento urbano, a produção de alimentos, a geração de energia e a estabilidade climática.

A transformação do bioma já alcança mais da metade de sua cobertura original. Segundo dados do MapBiomas, mais de 50% da vegetação nativa do Cerrado foi suprimida, processo que altera diretamente a dinâmica da água. A substituição da vegetação por outros usos reduz a infiltração no solo, diminui a recarga de aquíferos e acelera o escoamento superficial, afetando nascentes e cursos d’água.

Os efeitos dessa mudança já são visíveis em bacias emblemáticas. No rio São Francisco, por exemplo, a vazão mínima de segurança (Q90) caiu pela metade nas últimas décadas, passando de 823 m³/s para 414 m³/s, um indicador crítico para o abastecimento humano, a geração de energia e a manutenção de ecossistemas.

Ao mesmo tempo, a pressão sobre os recursos hídricos se intensifica. A agropecuária responde por 58,6% do consumo de água no Brasil, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), ampliando a demanda sobre regiões como o Cerrado, onde a expansão territorial e a intensificação produtiva avançam de forma acelerada.

Esse processo não ocorre de forma abstrata. Ele se materializa nos territórios e nas vidas de quem depende diretamente da água. No Oeste da Bahia, mais de três mil nascentes ou rios secaram ou perderam drasticamente a vazão, segundo levantamento da Comissão Pastoral da Terra de 2025. Em diferentes regiões implicadas nas dinâmicas da expansão da fronteira agrícola, as comunidades tradicionais relatam o desaparecimento de nascentes, o rebaixamento do nível dos lençóis freáticos e a transformação de paisagens que, por gerações, sustentaram modos de vida baseados no equilíbrio com o ambiente.

Nesse contexto, ganha relevância a atuação articulada de organizações da sociedade civil que vêm buscando reposicionar o Cerrado no debate público. Iniciativas como a campanha “Cerrado Coração das Águas”, conduzida pelo Instituto Sociedade, População e Natureza  (ISPN) em parceria com o  Instituto Cerrados, Rede Cerrado, Funatura, IPAM, IEB e WWF-Brasil, partem de um esforço de tradução: tornar visível um processo que, por ser gradual e difuso, tende a permanecer fora do radar das decisões estruturais.

O que está em disputa, no fundo, é a forma como o País reconhece (ou deixa de reconhecer) o valor estratégico de seus biomas. A crise hídrica no Cerrado não pode ser compreendida como um problema localizado ou setorial. Ela expressa uma tensão mais ampla entre modelos de uso do território e a capacidade de sustentar, no longo prazo, as bases naturais que garantem a vida.

Ao deslocar o olhar do evento para o processo, o que se evidencia é que a questão da água no Cerrado não pertence a um único dia do calendário. Trata-se de um tema contínuo, que exige acompanhamento, qualificação do debate público e decisões que considerem a interdependência entre natureza, economia e sociedade.

Se o Cerrado é, de fato, o coração das águas do Brasil, o que está em curso hoje é um enfraquecimento – mensurável e progressivo – desse sistema vital, cujos efeitos começam a se espalhar muito além dos limites do bioma.

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Isabel Figueiredo

Ecóloga e Coordenadora do Programa Cerrado do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). Mestre em Ecologia (UnB), trabalha há vinte anos com conservação do Cerrado junto a povos e comunidades tradicionais para promoção de usos sustentáveis da biodiversidade.

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