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Vítimas de violência doméstica no exterior recorrem à rede de apoio

Mulheres se tornam mais vulneráveis às agressões por dependência social e econômica de seus parceiros; na Itália, embaixada nacional registra até 5 casos por semana


Milhares de mulheres participam de protesto em Roma no Dia Mundial contra a Violência Doméstica (Foto: Giuseppe Ciccia/NurPhoto/26/11/2016)
Milhares de mulheres participam de protesto em Roma no Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher (Foto: Giuseppe Ciccia/NurPhoto/25/11/2016)

Ser mulher vítima de violência doméstica no Brasil já é difícil, agora imagine passar pelo problema morando no exterior,  vivendo em um país que não é o teu, falando uma língua que não é a tua?  A sensação de solidão e abandono dobram e, muitas vezes, as mulheres não conhecem seus direitos e não sabem onde e como pedir assistência. Do vazio informativo e da necessidade de sororidade entre as mulheres nasceram redes de ajuda que trabalham tanto no virtual quanto na vida real, ativando pessoas nas localidades onde residem as mulheres que necessitam de amparo. Conheça a seguir algumas dessas histórias.

Era um país diferente, eu não sabia nem como falar com a polícia, não sabia que tinha direito a intérprete, não sabia como funcionava

*Carolina, brasileira vítima de violência na Suíça

Carolina* tem 33 anos, um filho, mora na Suíça e é uma sobrevivente. Foi, por anos, uma vítima de violência doméstica. Nascida em Curitiba, estudou gestão empresarial e se casou cedo com um colega da universidade, pai de seu filho. Após o parto, também vieram as primeiras agressões. Devido à crise econômica que abalou a empresa familiar, resolveram se mudar para o país europeu em 2016,  visto que o marido também era cidadão suíço. O filho não teve dificuldades para se adaptar pois havia frequentado o colégio suíço na capital paranaense. Já para Carolina e o marido, as coisas não foram tão fáceis assim. O sonho de uma vida melhor na Europa logo se transformou em um pesadelo. A falta de domínio do idioma dificultava a procura por emprego. Não demorou para constatar que a realidade era bem diferente do que havia imaginado.

Leia mais: Em Portugal, brasileiras criam grupo para combater assédio, estereótipo e violência  

Logo começaram as humilhações psicológicas e o ciclo de violência se agravou. Carolina que estava fisicamente debilitada, foi operada e, para enfrentar a crise emocional, precisou de tratamento psicológico. A psiquiatra sabia das agressões em casa. Durante as consultas, a paciente dizia para a médica: “Olha, ele está me agredindo, e isso está me fazendo muito mal”.  Mas diante da possibilidade de denunciá-lo, a brasileira se rendia: “Era um país diferente, eu não sabia nem como falar com a polícia, não sabia que eu tinha direito a um intérprete, não sabia como funcionava.”  Por medo e traumatizada das pelas agressões, Carolina não conseguia mais dormir. Até que um dia, sem consultá-la e baseada nas declarações de seu marido, sua médica resolveu interná-la contra a sua vontade em um hospital psiquiátrico.  

A notícia de que uma brasileira estava desaparecida na Suíça logo chegou ao Gambe – Grupo de Apoio a Mulheres Brasileiras no Exterior.  “Uma garota entrou em contato comigo preocupada com uma amiga que morava na Suíça, pois estava sem saber o paradeiro dela, e a última mensagem enviada pela moça via whatsapp dizia que o marido havia sido fisicamente violento”,  disse Stella Furquim, uma das criadoras do grupo. Stella, que vive no Canadá, passou dois dias investigando a história e localizou Carolina na clínica psiquiátrica. “Obtive ajuda de vários contatos na Suíça e, com isso, o centro de mulheres a que ela já havia recorrido foi ao seu encontro na clínica. Eles ofereceram ajuda psicológica, jurídica e financeira”, disse Stella.  Hoje Carolina segue colocando a vida nos trilhos, curte o filho e vê a vida de maneira mais positiva.

O Gambe nasceu da necessidade de apoiar mulheres que estão em situação de vulnerabilidade, fora do Brasil. Através de uma rede de voluntárias, o grupo oferece desde um ombro até um resgate, passando por terapia, conselho jurídico

Stella Furquim
Fundadora do Gambe

“O Gambe nasceu da necessidade de apoiar mulheres que estão em situação de vulnerabilidade, fora do Brasil. Através de uma rede de voluntárias, o grupo oferece desde um ombro até um resgate, passando por terapia, conselho jurídico”, explicou Stella. Para Joice, também criadora do grupo, “a solidão da mulher expatriada, a falta de autonomia e a dependência econômica contribuem para a continuação do ciclo de violência. Muitas não percebem que violência psicológica também é violência”, comentou a gaúcha que mora no norte da Itália.  Para ela, “antes de chegar na agressão física, praticamente todas passaram pela violência psicológica. É uma violência estrutural. Principalmente no sul da Itália, que é muito machista, patriarcal. Às vezes elas procuram ajuda conversando com alguém nas relações próximas e a questão é amenizada”. Semana sim, semana não o Gambe recebe pedido de ajuda, seja uma simples informação como uma pedido quase desesperado de socorro.

Tanto Joice quanto Stella deixaram claro que a mulher brasileira que mora no exterior e sofre agressão não denuncia o seu agressor por vários motivos, entre eles a dependência econômica e social. Pode acontecer de a mulher estar ilegalmente no país, não querer voltar ao Brasil e, com medo de ser expulsa, não denunciar a agressão sofrida. Outro problema maior acontece quando essa mulher tem filhos, pois ela se torna refém da situação e do ciclo de violência. O agressor usa a guarda das crianças como elemento de chantagem.

Onde está Cida?

Carolina conseguiu ser ajudada, não virou estatística. Já a brasileira Maria Aparecida Soares, Cida ou Brenda como era conhecida, que morava em Castelnuovo del Garda, província de Verona, está desaparecida desde 18 de julho deste ano. Seu caso foi parar na TV.  Andrea, o atual companheiro, afirmou que na noite do desaparecimento, após ter brigado com Cida, foi dormir e que ao acordar no dia seguinte, ela já não estava mais em casa. Na mesma noite, todos os perfis de Cida nas mídias sociais foram cancelados. A brasileira desapareceu deixando em casa o celular, a carteira com todos os documentos e cartão de crédito. Somente o seu passaporte não foi encontrado. Porém, segundo Ligia Garofalo, cônsul-adjunta no consulado brasileiro de Milão, o documento está vencido, o que impossibilitaria o retorno ao Brasil.

Cida tem uma filha adolescente que não acredita mais no sumiço voluntário da mãe. A garota ficou esperando o telefone tocar todos estes meses, mas não tocou. Segundo Celia, amiga de Cida, a brasileira era uma mulher alegre, que amava a vida e que nunca havia feito algo similar antes. “Ela desconfiava que o companheiro a estava traindo, mas foi ele mesmo quem chamou o programa de televisão para denunciar o desaparecimento de Cida”, disse Célia.  A polícia está investigando o caso, e Andrea não é acusado. Para pressionar as autoridades italianas para que descubram o que de fato aconteceu com a brasileira, a núcleo de Milão do Grupo Mulheres do Brasil estampou a foto de Cida em cartazes que serão usados em manifestação dia 25 de novembro, data que marca o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher.

No Dia Mundial do Combate à Violência Doméstica, a brasileira Cida se tornou o rosto dos processos: ela está desaparecida (Foto: reprodução)
No Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, a brasileira Cida se tornou o rosto dos protestos: ela está desaparecida (Foto: reprodução)

Mulheres são a cara da imigração brasileira na Itália

Assim como Cida, outras cerca de 75 mil brasileiras escolheram a Itália para fincar raízes e fazer uma nova vida. Segundo dados do Consulado do Brasil de Roma, atualmente vivem no país cerca de 100 mil brasileiros e 75% desse número é composto por mulheres. Mas saber exatamente quantas brasileiras vivem no exterior é uma missão praticamente impossível, visto que existe uma discrepância no número geral de cidadãos brasileiros que residem fora do país.

Segundo os dados publicados pela Rede de Centros de Combate à Violência D.i.Re, referente a 2017,  a violência contra as mulheres tanto psicológicas, familiares e físicas, que vivem em abrigos de proteção é, de fato, exercida, principalmente, por homens italianos (65%, contra 23% dos estrangeiros).  Os dados mostram o tamanho do problema. No país existem 80 organizações que trabalham em prol da mulher. Cerca de 20 mil delas já passaram por um dos 85 centros antiviolência ou 55 abrigos de proteção espalhados pelo país. Apesar de as italianas representarem 68% do total das vítimas atendidas nos centros, o percentual de estrangeiras gira em torno aos 26%.  E os números não param de crescer. Somente em 2017 – ano de referência do estudo – o D.i.Re contabilizou 13.956 novos casos ao longo do ano.

Itália e a violência endêmica

Segundo o embaixador Afonso Carbonar, do Consulado-Geral do Brasil em Roma, a Itália é um país que tem uma questão da violência contra as mulheres reconhecido pelas autoridades. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (ISTAT) referentes a 2017, os feminicídios na Itália representam mais da metade dos crimes cometidos por homens. Oito em cada dez mulheres são mortas por uma pessoa que conhecem bem, que confiam. Mais de quatro em cada dez mulheres são mortas pelo parceiro, namorado, marido ou ex.  

Para Carbonar a violência cotidiana contra as mulheres é um tema delicado também pelas consequências que deixam nas crianças. “Elas são vítimas de um ciclo de violência que pode deixar sequelas por anos ou por toda a vida”. O embaixador conta que o tema da violência doméstica é central para a atuação da equipe do consulado que atende de 3 a 5 casos por semana. “Sobre minha mesa aterrizam papéis, histórias de pessoas, algumas já em um estágio muito avançado de violência”, disse Carbonar.  “Quando são casos que se encontram em um estágio avançado de deterioração, a luta é muito difícil. Isso quando não já aconteceu a tragédia, o fato final, o ápice do ciclo de violência”, disse o embaixador, referindo-se à morte da vítima.

O consulado coloca a disposição das brasileiras assistência jurídica e psicológica, mas o jurídico não assume o caso,  somente aconselha sobre o que fazer, as medidas que devem ser adotadas para a brasileira se proteger. O consulado de Roma, assim como o de Milão, trabalha em rede com associações de proteção à mulher.  A repartição consular milanesa atendeu nos últimos dois anos cerca de 50 casos por ano de brasileiras que foram vítimas de violência doméstica.

No exterior, mulheres precisam recorrer a redes de apoio quando são vítimas da violência (Imagem ilustrativa/Foto: Maurizio Gambarini/dpa)
No exterior, mulheres precisam recorrer a redes de apoio quando são vítimas da violência (Imagem ilustrativa/Foto: Maurizio Gambarini/dpa)

Um dos grupos que colabora com o consulado de Roma é a Associação Mulheres Brasileiras na Itália (ADBI). Fundada há 22 anos, nasceu como associação cultural, mas devido ao número cada vez maior de pedidos de ajuda, entrou na área da violência de gênero. Segundo Vanessa Gusmão, psicóloga brasileira que atua na associação, a ADBI passa por uma reformulação para reiterar a posição de referência no atendimento às mulheres brasileiras. Para isso realiza os atendimentos na sala 106 na Casa das Mulheres, um espaço coletivo que abriga várias associações feministas no coração de Trastevere, bairro boêmio de Roma.

Umas das principais bandeiras defendidas por Vanessa é o combate ao estereótipo da mulher brasileira que muitas vezes se vê na situação de ter que negar até sua origem em detrimento a uma relação afetiva ou profissional. “Muitas são até proibidas de falar com os filhos em português, são desvalorizadas, e precisam fingir que são outra mulher. Isso tudo mina com a autoestima”, explicou.

Para ajudar as mulheres no caminho do autoconhecimento e emancipação, Vanessa criou o Café Literário, um espaço onde a expressão é livre e a mulher pode identificar e enfrentar as adversidades.  “As mulheres têm dificuldade de reconhecer a situação de violência que estão vivendo. No próximo ano, no Café, vou começar a falar sobre isso mas de uma maneira leve, para que elas reconheçam que a violência de gênero não é só a violência física, que elas estão envolvidas no ciclo da violência”, afirmou Vanessa.

*O nome de Carolina foi trocado por segurança da entrevistada


Escrito por Janaína Cesar

Formada pela Universidade São Judas Tadeu, trabalha há 17 anos como jornalista e vive há 10 na Itália, onde fez mestrado em imigração, na Universidade de Veneza. Escreve para o Estadão, Opera Mundi, IstoÉ e alguns veículos italianos como GQ, Linkiesta e il Giornale di Vicenza. Foi gerente de projetos da associação Il Quarto Ponte, uma ONG que trabalha com imigração.

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9 Comentários

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  1. Parabéns pelo trabalho Janaína.
    Você também tem projetos Juntamente com as associações brasileiras pela Itália?
    Como posso entrar em contato contigo.
    Obrigada!

  2. Passei por muitas coisas caladas nao tanto a viole cia fiskca mas a violencia psicologica que me trouxe da os terriveis qud jamais irei esquecer principalmente ao meu filho mais velho que trazia de outro casamento engoli muitls sapos preconceitos

  3. Eu moro na Espanha passei por isso en 2008 .fui muito bem tratada recebi apoio,informaçao tanto como eu e minha filha sai com a ropa do corpo me derao tudo que precisavamos .tuve una boa asiste social bom gente minha historia e Longa…so vou dizer que graças a Deus aquí en Andalucía me deixarao para atrás

  4. Por favor estou passando um caso horrivel na españa nescessito ajuda , o pai do meu filho nao me deixa em paz, e traficante e perigoso e nao paga a pensao do meu filho sofri violencia domestica durante 8 anos , e continuo com violencia psicologica porque nao para de me seguir e de me denunciar , a ultima denuncia ele falou q eu ia sequestrar meu filho estou a espera de julgamento e tiraram meu pasaporte e o do meu filho por favor me ajudem ……..eu so resumi um poco a historia, ate com seguranca eu ja andei posto pela propria policia policia, por favor eu nao sei mas o que fazer, eu fui na Associacao Clara Campamou , que e en bilbal para me ajudar com ajuda psicologica , esto es en Bilbal mas eu vivo en Irun e aqui nao querem me ajudar , eu nao sei mas onde preocurar ajuda tenho provas de tudo, mas a policia nao me deixa denunciar agora potwue ele continua me seguindo estou temendo por minha vida , mas sempre quando ele me segue e eu vou denunciar a policia fala q nescessito de fotos ou filmagem , como bou poder tirsr foto ou filmar alguem wue te esta perseguindo ele me mata…….por favor nescessito ajuda

  5. Boa Noite!
    Somos uma empresa de tecnologia e segurança que desenvolveu um aplicativo que ajuda a combater os crimes de feminicidio, nossa ferramenta funciona com excelência inclusive no exterior, desta forma eu gostaria de nos colocar a disposição para apresentar nossa ferramenta.

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