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Ser mulher é correr dos perigos numa segunda qualquer

Quando um tribunal usa palavras como “vínculo afetivo” para relativizar a lei que existe para proteger crianças, educa a sociedade inteira a aceitar o inaceitável

ODS 5 • Publicada em 24 de fevereiro de 2026 - 09:26 • Atualizada em 24 de fevereiro de 2026 - 09:48

Há um tipo de perigo que não faz barulho, ele apenas existe. Sem se anunciar, sem fazer estardalhaço, sem alerta de tempestade ou grito de “Perdeu, é um de assalto!”. E a gente gente aprende sobre ele cedo, quase sempre antes de entender que está aprendendo. Aprende a evitar, a calcular, a diminuir ou acelerar o passo, a atravessar a rua, a fingir um telefonema em pleno 2026, a rir por educação, a não responder por prudência, a puxar a saia pra baixo, subir o decote, a nunca descansar. Podem chamar isso de cuidado, de bom senso, do nome que for. Só que, no fundo, é adestramento, que vem dede o momento em que enfiamos as caras no mundo e cravam “é uma menina!”.

Leu essa? Homens, a culpa é de vocês

Aí acontece a mágica suja que sustenta o mundo patriarcal: a menina é “criança” quando precisa “obedecer aos mais velhos” e tomar qualquer decisão, sobretudo sobre o próprio corpo. Mas instantaneamente transforma-se em “sabe bem o que está fazendo” quando um homem é acusado de violência sexual. A balança moral é sempre montada para cair no mesmo lado, o nosso.

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Protesto no TJMG contra absolvição de homem de 35 anos que vivia com menina de 12: ser mulher é sempre correr dos perigos (Foto: Redes Sociais / Reprodução)
Protesto no TJMG contra absolvição de homem de 35 anos que vivia com menina de 12: ser mulher é sempre correr dos perigos (Foto: Redes Sociais / Reprodução)

Na semana passada, todo mundo com o mínimo de juízo nas ideias se estarreceu diante da absolvição de um homem de 35 anos, condenado inicialmente a nove anos de prisão por estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos, com quem vivia como casal em Indianópolis, no Triângulo Mineiro. Quando um tribunal usa palavras como “vínculo afetivo” para relativizar a lei que existe justamente para proteger crianças, ele não só absolve um réu, ele educa uma sociedade inteira a aceitar o inaceitável. Ele ensina que o corpo infantil pode ser recontado como romance, que o abuso pode virar “história de amor”, como em tantos casos de “matou por ciúmes”, “não aceitou o fim do relacionamento. Crime é crime.

Também nos últimos dias, um homem invadiu um convento em Ivaí, no Paraná, e a irmã Nadia Gavanski, de 82 anos, foi encontrada morta com sinais de agressão. Dentro de um convento, calando os argumentos equivocados que culpabilizam decotes, ruas escuras, comportamentos e qualquer coisa que recaia sobre a vítima. Uma mulher idosa, religiosa, dedicada a uma vida inteira de recolhimento e cuidado. Se até ali a violência entra, não é porque o convento falhou; é porque a lógica do mundo permite que homens atravessem qualquer muro como se atravessassem papel, e muitas vezes nem isso. Sabemos que dentro de casa, que deveria ser abrigo, a ameaça está na rotina na maioria dos casos de violência.

E embora eu esteja falando de casos que ganharam a mídia por características peculiares, o abuso sexual e o feminicídio são o medo de uma segunda-feira na vida de qualquer menina ou mulher. Entre trabalho, mensagem, trânsito, tem também a parte do cérebro calculando risco, segurando chave, mandando localização, avisando “cheguei”. É o patriarcado funcionando sistematicamente, um projeto completado com sucesso todos os dias à nossa revelia, e sob nossos protestos. Porque a ameaça é estrutural, e a estrutura tem mãos, tem nome, tem proteção dos brother, tem vista grossa das instituições, tem aliados entre as mulheres até, e, não raramente, tem chave de casa.

E ainda assim, apesar disso tudo, a gente inacreditavelmente insiste.

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