ODS 1
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Veja o que já enviamosHomens, a culpa é de vocês
Culpabilizar mulheres por feminicídios e outras formas de violência de gênero revitimiza mulheres, legitima impunidade masculina
Eu sei que há mulheres que reproduzem discursos machistas que fazem ouvidos sensatos sangrarem: “se apanhou, aprontou alguma”, “com aquela roupa, tava pedindo”, “também ela provocou”, e por aí vai. Estamos em 2025, e qualquer pessoa que tenha pelo menos dois neurônios em pleno funcionamento sabe que todas as violências praticadas contra mulheres têm apenas um culpado: o agressor, abusador, estuprador, perpetrador… o homem que infligiu isso contra um corpo feminino.
Leu essa? Justiça, palavra feminina (mas, infelizmente, violência também)
Não adianta culpar as roupas, o temperamento, o comportamento, o chifre levado, a rejeição ou o diabo a quatro: nada justifica que uma mulher seja morta ou violentada em qualquer sentido. A violência acontece porque homens acreditam que estão exercendo seu direito: de posse do corpo feminino, de superioridade, de lavar uma “honra” ferida, de fazer alguma ideia torta de justiça eliminando ou violando as grandes desafiadoras da ordem IMAGINÁRIA que valida a superioridade masculina: as mulheres.


Como se a gente não tivesse motivo suficiente para subir pelas paredes de ódio, a solução para que parem de nos matar e violar também é cobrada de nós. São as mulheres que ocupam as ruas clamando por isso. É das mães que se espera que haja mudanças na maneira em que se cria e se educa meninos para que não sejam machos deploráveis como vimos nas gerações de seus pais, avós, irmãos, tios, primos, agregados e o escambau. Somos nós que precisamos atravessar a rua, apertar o passo, trocar de roupa, aprender defesa pessoal, cuidar das amigas e manter um estado de alerta permanente, para que continuemos vivas e com integridade física e mental.
Vivemos com medo e com raiva de carregarmos um alvo no corpo, que pode ser acertado a qualquer momento, e por qualquer um, apenas por sermos mulheres. Mas sobretudo estamos exaustas e de saco cheio. Enquanto os homens não entenderem que são os únicos culpados, no sentido estrutural e individual, pelos feminicídios e toda sorte de violência imputada às mulheres, não conseguiremos vislumbrar um futuro melhor para nossas meninas.
Não interessa quem possa ficar incomodado e puxar um coro de “nem todo homem”. Ainda que, de fato, obviamente nem todo homem seja um agente de violência, é responsabilidade de cada um contribuir para que ela possa ser combatida. Isso requer repensar as próprias ações, apontar violências dos outros (ainda que sejam “bróders”, “parças” ou qualquer coisa que o valha) e contribuir ativamente na educação de meninos, para que eles entendam que a masculinidade não se forja na força, na agressividade e numa ideia descabida de superioridade.
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Veja o que já enviamosEstamos cansadas de moderar o discurso, sob o risco de sermos consideradas “radicais” e afastar os cristaizinhos que argumentam que “o feminismo não pode odiar os homens”. Ninguém aguenta mais ter que mobilizar o discurso de que a misoginia também causa sofrimento aos homens (o que é verdade) para que eles tenham empatia, enquanto somos nós que estamos sendo mortas, estupradas e acuadas. É preciso que a masculinidade defenda nosso direito de viver sem que precise pensar que “poderia ser sua mãe/filha/esposa”, mas simplesmente pelo fato de que somos pessoas. Não dá mais pra esperar por instituições brancas, velhas e masculinas que nos resguardem.
Se a culpa pelas violências de gênero é dos homens, a solução também precisa ser. Não adianta queremos viver se a masculinidade não assumir sua responsabilidade por nossas mortes e feridas, e decidir, enfim, parar de nos atacar.
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Adorei, porque a situação é periclitante.
Antigamente a culpa poderia até ser das mães, na maneira de educar os filhos. Mas há muito tempo, as mulheres tentam dividir responsabilidades iguais em relação a manutenção da casa, para meninos e meninas. Mas, segundo a psicanálise, o filho tem como referência o pai, e se o pai não cooperar, quando a mãe passa a tarefa para o filho, eles respondem: – Se Papai não ajuda, porque eu?
Eu sou feminista desde os meus 14 anos, e antiracista, adepto da causa indígena, ambientalista, dentre outras coisa do tipo. Militei, contribuí, mesmo sendo homem e branco. Só não me sentia no direito de votar em algo que vai decidir os rumos do movimento, porque não vivi na pele a experiência de ser negro e nem mulher e nem indígena. Nem elas iriam deixar. Eu entendia porque era assim.
Hoje tenho 62 anos. E sempre fui adepto da ideia de que, primeiro a gente tem que ser feliz sozinho, e só depois vai aparecer o verdadeiro amor (o psicanalista Flávio Gikovate também pensava assim). Porque? Porque assim duas pessoa ficam juntas, não porque precisam uma da outra, mas porque se gostam, se sentem bem juntos. Porque se precisam um do outro, daí vem a dependência emocional e o ciúme, a insegurança, etc.. Simplesmente devemos deixar ser.
Mas só podemos falar em desapego quando existe um laço sentimental forte entre os amantes. Porque não sentir ciúme de quem você de fato não está envolvido, qualquer um é capaz disto, não há mérito nenhum nisto. Isto seria um fuga de saborear a vida, de entrar na chuva para molhar. E não se apegar é saber que a realidade está em constante movimento, tudo muda. Assim, desapego é estar aberto para a vida.
No início, por ser budista, achava que sou um espírito velho de muitas reencarnações por isto. Mas hoje, não penso assim. Eu nasci com Síndrome de Tourrete, tendo como comorbidades o TDAH, e TEA tipo 1, o tipo de autismo do tipo mais leve (isto do lado da família paterna). Já da família materna, o Transtorno do Afeto Bipolar (TAB). Ou seja, se sou neurodivergente, não posso me tomar como base de comparação. É que para aprender a lidar com a insegurança e o ciúme, já com os meus 24 anos já não era um problema. E por causa do TAB, era uma paixão arrebatadora atrás da outra. Acho paixão algo parecido com psicose.Você desconecta um pouco da realidade. Ou virava amor depois, quando caia na real ou ela se separava de mim antes de eu cair na real. Neste caso, um balde de água gelada era duro de lidar. Mas não queria segurá-la. Eu sempre pensava, o mundo é grande, e paixão te desconecta da realidade e devia ter achado ela a minha alma gêmea, e não tinha nada a ver. E não tem graça nenhuma você tentar segurar alguém que não tem nada a ver, e que quando eu caísse na real, tudo iria ficar claro, e perceberia o mesmo que ela percebeu, porque eu sempre tinha comigo: afinidade é via de duas mãos. Ela separou primeiro, porque ela percebeu primeiro. Se eu tivesse caído na real primeiro, eu é que separaria dela, no caso de não haver afinidade.
Assim eu sempre repetia para mim o meu velho aforismo: “O não que a gente recebe de alguém desejado, é a maneira mais rápida de encontrar a pessoa certa, porque estão em jogo duas percepções, a sua e a dela”. Então eu sempre respeitei o não. Não é não, para o meu próprio bem.
Bom, outro fator além de ser neurodivergente: fui acompanhado por psicólogos e neurologistas dos meus 6 aos meus 12 anos de idade. Depois eu mesmo procurei por minha conta, e nem sempre porque eu estava em crise. As vezes era meramente para o meu autoconhecimento, porque sempre achei bom ter uma pessoa, uma guia, tipo numa relação mestre e discípulo dos filme de Kung Fu: o discípulo fazia uma pergunta ao mestre, e o mestre devolvia outra pergunta estrategicamente colocada, mas nunca dava a resposta. Este é também o papel do psicólogo: provocar a sua mente.
Em resumo, sou um neurodivergente, e nasci em condições favoráveis, psicólogos/psicólogas (na maioria) e um pai nas atitudes, feminista, embora não no discurso, porque o menino toma o pai como referência em uma época em que ainda não chegou na fase do operacional formal, e portanto o discurso não influencia, mas as atitudes. E com base nas referências, construí um discurso feminista, embora nas atitudes, ainda não, devido as influências o meio, até que, por causa do meu discurso, elas me deixaram entrar no clube da Luluzinha, e aí sim, entrei num longo caminho de aperfeiçoamento na prática, graças a elas, porque vi que com brother não iria aprender muita coisa. Depois apareceram outros homens como eu, que também passaram a fazer parte do mesmo grupo. Assim, eu concluí que eu não sou um espírito velho, maduro e evoluído de muitas reencarnações, mas ao contrário. Devia ter sido muito machista em outras encarnações, e tive que cair em uma experiência deste tipo para acordar para a problemática (talvez eu tenha sido um troglodita). Talvez, nesta vida tenha levado o meu feminismo ao paroxismo ao ponto de querer na próxima vida nascer mulher, para viver na pele toda esta problemática periclitante que estamos vivendo agora!!! Porque, apesar de eu não ter feito muitas coisas ruins, porque tenha acordado cedo para o problema, graças aos fatores favoráveis descritos acima, mas apesar de eu não ter porque lamentar por mim, eu carrego comigo uma culpa tão grande de ser homem, que não tem explicação. Por que?