Universitários protestam contra demissão de professores e extinção de cursos

Cruzes colocadas em frente à Universidade Positivo: protesto por demissão de professores e extinção de cursos (Foto: Movimento Resiste UP)

Universidade Positivo, de Curitiba, demitiu mais de 100 professores por e-mail e videoconferência e acabou com educação à distância

Por Luciana Cabral-Doneda | ODS 4ODS 8 • Publicada em 25 de julho de 2020 - 18:47 • Atualizada em 28 de julho de 2020 - 21:24

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Cruzes colocadas em frente à Universidade Positivo: protesto por demissão de professores e extinção de cursos (Foto: Movimento Resiste UP)

Como no filme “Amor sem escalas” (2009), com George Clooney, mais de 100 professores foram demitidos da Universidade Positivo (UP), no Paraná, no período mais difícil da pandemia do Covid-19 no estado, com recorde de ocupação das UTIs. Na quinta-feira, dia 16 de julho, os professores, que estavam trabalhando remotamente desde o início do isolamento social, ao ligarem seus computadores descobriram que suas contas na UP tinham sido bloqueadas. Estudantes se articularam no movimento Resiste UP para protestar contra as demissões e a extinção de cursos, enquanto os docentes buscam, através do sindicato, garantir seus direitos com apoio do Ministério Público do Trabalho.

A articulação demissional – como a vista no filme, com a recomendação de devolver o crachá e as carteirinhas do plano de saúde com urgência e risco de multa na rescisão – começou através de envios de e-mail e telefonemas a partir de 8h, com intervalos de 15 minutos. O pânico se espalhou entre os primeiros professores a serem convocados para uma videoconferência em que eram comunicados do desligamento por um funcionário desconhecido, que estava em algum lugar do Brasil. Aos poucos, através das redes sociais e em contagem regressiva, cada professor anunciava a chegada do e-mail e sua demissão.

Assim que a reunião à distância terminava, em meio à confusão de um professor entrar na sala virtual enquanto o anterior ainda estava sendo demitido, os docentes recebiam, em casa, um telegrama do fundador do grupo Cruzeiro do Sul Educacional, Hermes Ferreira Figueiredo, que iniciava assim: “Prezado, escrevo esta carta num contexto especialmente difícil e constrangedor para a instituição e, particularmente, para mim”.  A Universidade Positivo tem 33 mil alunos, 23 mil em cursos presenciais em oito campi – sete em Curitiba e um em Londrina.

No início de julho, alunos da UP realizaram um “buzinaço” respeitando o isolamento social, em frente aos portões do campus, no bairro Campo Comprido, após a demissão de coordenadores de curso. Com a demissão dos professores, que inclui toda a equipe da educação à distância, professores de Medicina, Arquitetura, Pedagogia, Engenharia, Biologia, entre outros cursos, os alunos começaram a se manifestar nas redes sociais contra a precarização do ensino na instituição.

Apesar das demissões, os alunos não foram comunicados do desligamento dos professores e as duas coordenadoras que ficaram no ensino à distância estão usando os robôs chamados de “agentes inteligentes”  da plataforma D2L, usada para as aulas, para mandar avisos aos alunos, comunicar sobre a prorrogação de prazos de entrega de atividades e correções de trabalhos. No entanto, tanto na plataforma quanto no site da UP, ainda constam os nomes dos professores, especialistas, mestres e doutores, como se estivessem ainda acompanhando os alunos.

No sábado, dia 25/07, os universitários lideraram um protesto em frente à sede da UP. Além de novo buzinaço, os estudantes colocaram cruzes no gramado da reitoria com nomes de cursos que foram extintos. De acordo com os alunos, já foram extintos, em Curitiba, os cursos de Ciências Biológicas (bacharelado e licenciatura), Química, Física e Matemática (licenciatura). No campus Londrina, encerraram as atividades Administração e Ciências Contábeis.

Manifestantes com cartazes contra a direção da UP: demissões por e-mail e vídeoconferência (Foto: Resiste UP)
Manifestantes com cartazes contra a direção da UP: demissões por e-mail e vídeoconferência (Foto: Resiste UP)

O Sindicato dos Professores do Ensino Superior (Sinpes) está atuando junto ao Ministério Público do Trabalho para mediar as demissões em massa na universidade. “Estamos mobilizando a categoria e os estudantes para a reversão ou negociar indenizações”, afirmou o presidente do Sinpes, Valdy Perrini.

O Grupo Cruzeiro do Sul, com sede em São Paulo, comprou ao longo dos últimos anos faculdades privadas em todo o Brasil e tem 350 mil alunos e 9 mil funcionários. Sua última aquisição foi a UP, em dezembro de 2019. O valor da transação não foi divulgado. Nos últimos meses, o grupo está realizando demissão em massa de professores nas diversas faculdades que compõem o grupo, como a Unicid, a Uninove e a Unifran, em São Paulo, substituindo as atividades práticas por correções automatizadas. Ao mesmo tempo abriu edital para contratação de professores de ensino à distância em João Pessoa, na Paraíba, com salários menores aos pagos em São Paulo ou Paraná.

De acordo com vídeo divulgado pelo marketing da UP, em junho de 2020, o vestibular de outono, já durante a pandemia, tinha sido o melhor do ensino à distância da universidade. Foram 1.400 novos alunos em comparação aos 716 alunos do mesmo período em 2019. A razão das demissões dos professores, ainda segundo a carta do proprietário da instituição, se deve aos “níveis de evasão e inadimplência” na pandemia. “Neste momento triste e sem paralelos de crise mundial que se abateu sobre o Brasil desde meados de março e atinge a praticamente todos os setores da economia, a Cruzeiro do Sul Educacional tem evitado tomar medidas mais drásticas, mesmo sofrendo com o aumento expressivo da inadimplência e da evasão, resultados do impacto da pandemia no emprego e na renda de seus alunos e famílias”, afirma nota enviada também à imprensa.

Em janeiro de 2020, entretanto, ao visitar a Universidade Positivo, Carlos Fernando de Araújo Jr., pró-reitor de Educação a Distância do Grupo Cruzeiro do Sul Educacional, anunciou aos professores que o modelo de ensino no Paraná era muito “caro” em relação aos métodos educacionais aplicados pela paulista Cruzeiro do Sul e que iria aplicar uma “Lista de Schindler”, referência a outro filme de 1993, dirigido por Steven Spielberg, conta a história do industrial alemão que manteve trabalhadores judeus longe dos trens para os campos de concentração.

Semana passada os professores da UP foram avisados que os cursos EAD oferecidos pela universidade não teriam mais atividades discursivas, uma das características da universidade do Paraná, fazendo que os alunos também escrevessem durante a sua formação universitária. No modelo Cruzeiro do Sul, os alunos só fazem questionários de múltipla escolha. Pela legislação brasileira, os cursos universitários EAD têm o mesmo valor acadêmico do curso presencial e a informação não é citada no diploma.

Fundada por um grupo de professores, entre eles o senador Oriovisto Guimarães (Podemos/PR), a UP chegou a ser uma das principais universidades privadas do estado, com um campus que conta até mesmo com cisnes negros no lago e um teatro de 2.400 lugares, que recebia orquestras e shows e era referência cultural para o Paraná. As mensalidades na UP variam de acordo com o curso, mas o de Medicina pode chegar a 8 mil reais. Nas demissões de sexta-feira, que incluíram também funcionários, todos os professores do EAD da UP foram dispensados, além de professores dos cursos presenciais. Todos estavam já preparando suas aulas para o segundo semestre.

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