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Missão cumprida para Lorrayne

Estudante carioca conta o que aprendeu na competição da Dinamarca; interesse pelas neurociências cresce nas escolas


Lorrayne participa da prova de neuroanatomia na competição na Dinamarca
Lorrayne participa da prova de neuroanatomia na competição na Dinamarca

Foi uma espécie de amor à primeira vista. A estudante Lorrayne Isidoro, de 17 anos, conta que ficou fascinada pelas neurociências desde seu primeiro contato com a área. Tudo começou com um cartaz divulgando inscrições para uma olimpíada nacional colado na parede do seu colégio e culminou com sua participação na competição internacional de neurociências (The Brain Bee), realizada de 30 de junho a 4 de julho, em Copenhague, na Dinamarca.

Lorrayne e outros candidatos no Museu de Medicina
Lorrayne e outros candidatos no Museu de Medicina

Depois de muita dedicação, dificuldades burocráticas e até vaquinha pela internet, a jovem de família pobre diz que está realizada de ter representado o país e volta para o Rio de Janeiro cheia de gás, direto para o vestibular de Medicina. Ficou em 18º entre 25 competidores internacionais. Na prova de “diagnóstico de pacientes”, diz que, pelo ranking parcial, conquistou o 2º lugar. Mas para ela a posição importa pouco: “Vim para participar e adquirir conhecimento”, contou de Copenhague. “Era uma das etapas que tinha que enfrentar na vida”.

Quem também está satisfeito com a missão cumprida é o coordenador nacional das olimpíadas de neurociências e professor da UFRJ, Alfred Sholl. Em sua quarta edição no Brasil, o programa começou como uma maneira exatamente de despertar o interesse de jovens para uma área que não se estuda no currículo básico, mas que está mais perto do que se imagina. “As neurociências estão presentes no dia a dia desses jovens, que podem ter avós ou outros familiares acometidos pelas desordens no sistema nervoso”, ressalta.

Lorrayne na prova de histopatologia no Brain Bee
Lorrayne na prova de histopatologia no Brain Bee

Nem sempre o sentimento é de satisfação. Sholl lembra que o caminho das neurociências no país é cheio de barreiras. Financiamento está entre elas. Essa é a primeira vez, aliás, que um representante das olimpíadas brasileira consegue estar presente na competição internacional e fazer parte da comissão julgadora geral, porque é a primeira vez que houve recursos disponíveis para tal. A visibilidade que a história de Lorrayne ganhou fez a diferença. E com isso também surgiram mais interessados em montar novos comitês regionais (antes da competição nacional, os alunos precisam vencer as regionais).

Dias intensos em Copenhague

Não só de provas foi a experiência de Lorrayne. Uma dia, os alunos tiraram para conhecer a capital dinamarquesa. Andaram a pé, de ônibus, pelas ruas movimentadas de bicicletas e pontos turísticos. Um dos pontos altos foi o parque de diversões Tivoli, que funciona desde o século XIX, com a mesma arquitetura e o jeito ingênuo da época de se divertir. Em vez dos brinquedos, Lorrayne gostou mais das plantas dali: “é interessante ver como elas podem ser diferentes das nossas”. Do alto da torre redonda de Copenhague, Lorrayne viu uma arquitetura bem diferente da que está acostumada. Os prédios, às vezes coloridos, como no porto antigo de Nyhavn, ou modernos, como nos canais, também impressionou a menina em sua primeira viagem internacional. “As construções são lindas, e é tudo muito organizado”.

Grupo do Brain Bee, as olimpíadas de Neurociência, posa na Dinamarca
Grupo do Brain Bee, as olimpíadas de Neurociência, posa na Dinamarca

De Copenhague, até Sholl volta empolgado com a estrutura arquitetada para a competição e pela possibilidade de participação de Lorrayne. São dias intensos de provas e palestras a que poucos têm acesso: “Eu só fui ver um evento internacional deste porte no meu doutorado. É realmente inspirador”.

Enquanto isto, o desafio brasileiro não está apenas em despertar o interesse, mas manter os cérebros no Brasil. O incentivo à neurociência é geralmente mais atraente em outras nações. Só para se ter uma ideia, numa rápida pesquisa no histórico da competição internacional, que é realizada desde 1999, representantes dos Estados Unidos ganharam nove edições; Canadá e Austrália, três cada; e Índia, duas. Este ano, foi uma jovem da Romênia quem levou o troféu.

Um exemplo prático dessa realidade foi a partida, há um mês e meio, da neurocientista Suzana Herculano-Houzel  para os Estados Unidos. Uma das mais respeitadas cientistas brasileiras decidiu aceitar o convite da Universidade Vanderbilt depois de enfrentar anos de dificuldades financeiras, burocráticas e estruturais para trabalhar no Brasil.

Autora de sete livros (o último, “The Human Advantage”, foi lançado este ano pelo MIT Press e será lançado em português pela Companhia das Letras), Suzana participou da Feira Literária de Paraty (Flip), na última semana, e contou como anda a vida em seu novo laboratório:

“Hoje eu trabalho num lugar onde a administração é feita por administradores, onde a informática é cuidada por pessoas especializadas em informática, onde eu não sou a minha própria agente de viagem, contadora, eletricista, torneira mecânica etc, a lista é longa… O que quer dizer que estou num mundo dos sonhos que as pessoas fora da academia do Brasil têm”.

A neurocientista comentou ainda críticas de acadêmicos que afirmaram que sua decisão desestimularia jovens a perseguir carreiras científicas: “Eu chego no final do dia extremamente satisfeita e contando as horas para começar o dia seguinte de trabalho. É uma pena que esta não seja a situação que os jovens no Brasil possam aspirar num futuro próximo”. E engrossou o coro dos cientistas que condenaram a junção dos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação com o das Comunicações, anunciada pelo presidente interino Michel Temer.

Por outro lado, uma pesquisa divulgada em março pela “Scientometrics” mostrou que a taxa de crescimento, entre 2006 e 2013, na produção científica brasileira em neurociências (index 1.19) é maior do que a taxa global (1.15). A neurociência fica em terceiro no ranking de áreas consideradas mais produtivas em revisões de artigos no Brasil, abaixo de farmacologia e química. E houve um movimento de internacionalizar as publicações brasileiras em revistas científicas, consideradas de maior impacto. Quando analisada de perto, no entanto, são poucas as instituições e pesquisadores que fazem parte deste processo. O neurocientista Iván Izquierdo é mais o citado em estudos científicos da área nos últimos 20 anos.

No caso de Lorrayne, no final das contas acabou sobrando apoio: do seu colégio, o Pedro II, do governo, pelo CNPQ, e da população. Em dois dias, a campanha pela internet arrecadou os R$ 15 mil estabelecidos através da doação de cerca de 480 voluntários  (contas serão prestadas após a viagem, enfatiza Scholl). Com isso, a mãe Estela pôde torcer pessoalmente pela filha. Quando perguntada sobre o futuro de Lorrayne, ela diz que prefere pensar mais no presente. Hoje, está orgulhosa da vida por ela.

23/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse período, a importância  das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.


Escrito por Flavia Milhorance

Jornalista com mais de dez anos de experiência em reportagem e edição em veículos de imprensa do Brasil e exterior, como BBC Brasil, O Globo, TMT Finance e Mongabay News. Mestre em jornalismo de negócios e finanças pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres.

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