Diário da Covid-19: Peru e Brasil irmanados na dificuldade

Peruanos ultrapassam a marca dos 100 mil casos e têm o maior coeficiente de incidência (3.024 casos por milhão) do continente

Por José Eustáquio Diniz Alves | ods3 • Publicada em 21 de maio de 2020 - 09:47

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Uma mulher é entrevistada por funcionários do Ministério da Mulher e das Populações Vulneráveis ​​enquanto ocupa um lugar na fila fora de uma instituição Administradora de Fundos de Pensão na cidade andina de Puno, perto da fronteira com a Bolívia. Foto Carlos Mamani/AFP

Peru e o Brasil estão passando por um momento crítico. Os dois países (assim como o Equador) estão entre as nações mais atingidas pela pandemia do novo coronavírus na América do Sul. Ambos estão batendo recordes de casos e mortes e sobem a curva como se estivessem em uma pré-cordilheira, ainda distantes do pico e longe da fase de descida. Os dois países estão tendo dificuldade para vencer um minúsculo vírus, de 1 bilionésimo de milímetro, que ocupa territórios e avança sobre as populações com grande velocidade.

Mas o Peru – que é o país das lindas linhas de Nazca, do complexo arquitetônico de Ollantaytambo e da maravilhosa cidade de Machu Picchu – está lutando para não perder esta batalha contra o coronavírus. Para entender o que se passa em nosso vizinho do outro lado da cordilheira dos Andes e banhado pelo oceano Pacífico, vamos iniciar este diário com uma breve caracterização sociodemográfica e econômica, analisar os dados da covid-19 na América do Sul e apresentar  uma entrevista com a demógrafa peruana Rofília Ramírez – doutora pela Universidad Peruana Cayetano Heredia (UPCH) y pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG) – funcionária pública com experiência no Seguro Social de Salud (ESSALUD) e no Instituto Nacional de Estadística e Informática (INEI). Além de filiada à Associação Latino Americana de População (ALAP), ela também é professora universitária e pesquisadora em temas econômicos e sociais.

Breve panorama demográfico e socioeconômico do Peru

O Peru é o quarto maior país da América do Sul.  Segundo a Divisão de População da ONU, o país tinha uma população de 7,8 milhões de habitantes em 1950, chegou a 33 milhões em 2020 e deve atingir, na projeção média, 39 milhões de pessoas em 2100. As mulheres peruanas tinham em média 7 filhos até o início da década de 1970, quando a taxa de fecundidade total (TFT) começou a cair e atingiu 3 filhos no quinquênio 1995-2000. Na primeira década do século XXI a TFT ficou estagnada em 2,7 filhos por mulher e chegou a 2,3 filhos no quinquênio 2015-20. Em consequência o Peru mantém uma pirâmide etária relativamente jovem e com um crescimento da natalidade no último quinquênio. Todavia, mesmo com uma baixa proporção de idosos e uma população jovem, o Peru não está sendo poupado pela covid-19.

A tabela abaixo apresenta alguns indicadores demográficos para o Peru, Brasil, América do Sul, ALC e o mundo. O Peru tinha uma das mais altas taxas de mortalidade infantil (MI) e uma das mais baixas esperança de vida ao nascer (Eo) em meados do século passado. Mas no quinquênio 2015-20 já apresentava indicadores equivalentes à média da América Latina e Caribe (ALC) e melhores do que a média mundial. O Índice de Envelhecimento (IE) era de 14 idosos (60 anos e mais) para cada 100 jovens de 0 a 14 anos e passou para 51 idosos por cada 100 jovens. Portanto, o Peru tem uma estrutura etária pouco envelhecida.

Em 1980 o Peru tinha uma renda per capita a preços correntes, em poder de paridade de compra (ppp) de US$ 3,2 mil, acima da renda média mundial, mas abaixo da renda per capita do Brasil e da América Latina, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). As décadas de 1980 e 1990 foram terríveis para o Peru que se distanciou da média mundial e da média da ALC. Contudo, a partir de 2004, o país andino começou a crescer mais rápido e reduziu a diferença e não sofreu tanto assim com a crise financeira internacional de 2008/09.

Em 2019, o Peru estava com uma renda de US$ 15 mil, pouco abaixo da renda per capita do Brasil e da ALC (em torno de US$ 16,7 mil), mas bem abaixo da renda média mundial de US$ 18,4 mil. Ou seja, o Peru vinha apresentando desempenho econômico acima da média do continente antes de ser atingido pela pandemia do coronavírus.

Para 2020, o estudo da Cepal, “Dimensionar los efectos del COVID-19 para pensar en la reactivación” (21/04/2020), mostra que a pandemia da covid-19 pegou a ALC em um momento de debilidade macroeconômica, pois, no decênio posterior à crise financeira de 2008/09, o continente apresentou, em média, o menor crescimento desde a década de 1950.

A Cepal projeta um aumento do desemprego e da pobreza e uma redução da renda per capita de todos os países da região. A Cepal estima uma queda do PIB, em 2020, de -5,3% na ALC, de 5,2% no Brasil, de 5,2% na América do Sul e de – 4% no Peru. Se estes números se confirmarem o Peru poderá ser um pouco menos afetado pelo pandemônio econômico atual que a média da região. Evidentemente, quanto maior for o impacto da pandemia maior será o pandemônio econômico e maior será o sofrimento das populações afetadas.

Assim, é fundamental vencer a batalha contra o coronavírus. Quanto mais rápido a epidemia for eliminada, mais velozmente o país poderá voltar à ativa e reduzir os efeitos negativos do aumento do desemprego, da pobreza e da queda da renda média. Neste aspecto, o Peru terá que fazer um esforço muito grande para alcançar a renda média mundial.

Dados sobre a Covid-19 no mundo, na América do Sul, no Brasil e no Peru

A América do Sul tem se tornado um enorme foco de propagação da pandemia do novo coronavírus. Considerando os 10 maiores países da região, a América do Sul com 5,5% da população mundial respondia no dia 20 de maio de 2020 por 10,2% do número de pessoas infectadas e por 8,1% das mortes globais. Mas o país com maior peso proporcional é o Brasil que tem 2,7% da população mundial, mas responde por 5,7% dos casos e das mortes da covid-19.

O Peru, com 0,4% da população mundial respondia em 20/05, por 2% dos casos e 0,9% das mortes e ultrapassou a marca de 100 mil casos. A tabela abaixo mostra que o Peru tem o maior coeficiente de incidência (3.024 casos por milhão) e o segundo maior coeficiente de mortalidade (92 mortes por milhão).

O Brasil tem, destacadamente, os maiores números de casos e de mortes, mas o maior coeficiente de mortalidade está no Equador, com 164 mortes por milhão de habitantes. A Venezuela tem os menores coeficientes, mas existem muitos questionamentos sobre a confiabilidade e comparabilidade dos dados. Dos dez países do continente sul americano o Paraguai parece que é a nação com maiores êxitos até aqui.

O jornal Financial Times apresenta uma série de gráficos com dados para o número de casos e de mortes para todos os países do mundo, a partir da média móvel de sete dias (uma semana) do novos casos e novas mortes, por número de dias desde que foram alcançadas, em média, três mortes pela primeira vez. Nos gráficos abaixo estão destacados os casos do Peru, do Brasil e dos Estados Unidos (primeiro lugar no ranking nos números acumulados). Os 3 países estão com coeficientes muito altos.

No gráfico abaixo, com o número de novas pessoas infectadas nas últimas 24 horas, o Peru ultrapassou primeiro o Brasil e depois os EUA, tornando-se um país com altíssimo coeficiente de incidência. Os EUA que tinham um coeficiente de incidência muito alto já apresentam uma consistente tendência de queda, se bem que em alto patamar. O Brasil segue a mesma tendência do Peru, deve ultrapassar os EUA em breve. Mas cabe destacar que o Peru realizou 20,6 mil testes por milhão de habitantes, enquanto o Brasil realizou somente 3,5 mil testes por milhão (segundo o site Worldometers). De qualquer forma, o Peru só está atrás do coeficiente de incidência de países demograficamente pequenos como o Qatar, Bahrain e Kuwait.

O gráfico abaixo (também do jornal Financial Times) apresenta o número de mortes diárias por milhão de habitantes. Da mesma forma, o Peru e o Brasil se destacam, pois estão se aproximando dos EUA e apresentam uma inclinação ascendente da curva, ao contrário dos EUA e de países europeus, como Itália, Espanha e Reino Unido, que possuem coeficientes de mortalidade maiores, mas em declínio.

Estes gráficos são úteis para mostrar que o Peru e o Brasil estão no epicentro da epidemia, pois apresentam tendência de expansão, enquanto a média mundial apresenta tendência de retração. Ou seja, o Peru e o Brasil estão indo para o topo do ranking dos países mais atingidos pelo coronavírus quando se controla a etapa epidemiológica da pandemia e o peso demográfico dos países.

Entrevista com a demógrafa Rofília Ramírez sobre a pandemia no Peru

Para entender melhor o que acontece no Peru, apresentamos uma entrevista com uma testemunha ocular das ações realizadas pela população do país para tentar controlar o perigo da covid-19 e garantir a proteção social necessária para este período de dificuldades.

Quando o Peru percebeu a gravidade da pandemia?

Rofília Ramírez, demógrafa peruana. Foto Arquivo Pessoal
Rofília Ramírez, demógrafa peruana. Foto Arquivo Pessoal

Rofília Ramírez – Em 6 de março de 2020 foi confirmado o primeiro caso (importado) de coronavírus no Peru. Diante disso, o governo e a mídia mantêm a população informada sobre o progresso da epidemia. Dada a importância de controlar o surto, em 12 de março o Peru formou o Grupo de Trabalho “Comissão Multissetorial de Alto Nível para conduzir os trabalhos de coordenação e articulação visando a prevenção, proteção e controle do coronavírus (covid-19)”, composto por representantes de instituições de saúde pública e privadas, pesquisadores sociais e epidemiologistas.

Diante do avanço da pandemia, em 11 de março, o Governo declarou oficialmente uma Emergência em Saúde em nível nacional. Nesse mesmo dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou covid-19 como uma pandemia.

Que medidas sanitárias foram tomadas pelo governo e pela sociedade civil?

Rofília Ramírez – Na declaração de emergência sanitária (Decreto Supremo nº 008-2020-SA), o Ministério da Saúde aprovou um Plano de Ação e uma relação de bens e serviços que seriam necessários contratar para enfrentar a emergência sanitária, inclui as instituições de saúde pública, Seguridade Social da Saúde (sistema de saúde contributivo), Saúde das Forças Armadas e Polícia Nacional do Peru. Os centros assistenciais priorizam o atendimento de pacientes com COVID-19, bem como estabelecem medidas de prevenção e controle para impedir a disseminação da covid-19.

Entre estas medidas estão: as pessoas que entram no território nacional por portos, aeroportos e postos de entrada terrestre devem apresentar a Declaração Juramentada de Saúde do Viajante, para evitar a covid-19, e aqueles provenientes de países com histórico epidemiológico, devem se sujeitar ao isolamento domiciliar por 14 dias; foi determinado uso obrigatório de máscaras; foram suspensas as atividades educacionais em todos os níveis; suspensos os eventos envolvendo a concentração de pessoas em espaços fechados ou abertos; implementação de medidas sanitárias em estabelecimentos comerciais e mercados; e foi implementado o trabalho remoto, conforme orientação das empresas.

Como a quarentena (isolamento social) tem funcionado no Peru?

Rofília Ramírez – A quarentena/imobilização social obrigatória foi acatada pela maioria da população; no entanto, não faltaram casos de pessoas que não cumpriram e as forças armadas e a polícia tiveram que intervir. As estatísticas indicam que nas regiões onde houve menos cumprimento da quarentena apresentam atualmente o maior número de infecções e mortes. Durante os 75 dias de quarentena e devido ao aumento do número de infecções e mortes, medidas mais duras foram implementadas, prolongando as horas de imobilização compulsória. Houve reforço das forças armadas e da polícia cuidando das ruas e fronteiras, multas variando de 86 soles a 430 soles (algo entre 145 reais e 720 reais), para as pessoas que circulam na rua sem passe de trabalho e que não trabalham em atividades econômicas consideradas essenciais (saúde, comércio, etc.). Também é proibido andar sem máscara, dirigir com veículo particular sem autorização do Ministério da Defesa, ou realizar atividades sociais, recreativas, culturais e religiosas com uma aglomeração massiva de pessoas.

Existem medidas econômicas tomadas pelo governo para garantir que as pessoas mantenham sua sobrevivência?

Rofília Ramírez – As medidas econômicas são destinadas tanto às populações vulneráveis como às empresas. Para famílias em situação de vulnerabilidade, o governo concedeu dois títulos monetários de 380 soles cada (cerca de 650 reais), para famílias em situação de pobreza e extrema pobreza registradas no cadastro de beneficiários do programa JUNTOS. Da mesma forma foram transferidos recursos financeiros para os Governos municipais entregarem cestas de produtos alimentícios a famílias pobres em sua jurisdição. Também se previa o fornecimento de recursos para as famílias rurais, assim como transferência para ajudar idosos em alto risco e pessoas com deficiências graves.  Para trabalhadores formais a possibilidade de retirar até 2.400 soles (4 mil reais) do Fundo de Compensação por Tempo de Serviço (CTS) e da retirada do Fundo de Pensão Privada (AFP) de 2 mil soles (3.400 reais) e, posteriormente, 25%.

Para trabalhadores independentes foi entregue um bônus monetário de 380 soles (650 reais). Para as empresas o Estado subsidiará as folhas de pagamento de empresas que tenham trabalhadores com salários de até 1.500 soles (2.500 reais). Além disso, foi estabelecido um alívio tributário para empresas que faturam menos de 21 milhões de soles (35 milhões de reais) e foi criado o fundo “Reactiva Peru” para conceder créditos e subsídios para as empresas com risco de romper as cadeias de pagamento de seus funcionários.

Quando e como o governo planeja encerrar a quarentena?

Rofília Ramírez – Até agora, o presidente em suas mensagens à nação, não fez uma declaração sobre colocar um fim da quarentena. A quarentena foi de fato estendida, de acordo com o Presidente, considerando as recomendações do Ministério da Saúde, Faculdade de Medicina e especialistas em epidemiologia, sobre o progresso da disseminação do covid-19.

Existem lições que você acha que o Peru pode ensinar ao Brasil neste momento diante da pandemia?

Rofília Ramírez – É um evento incomum, por esse motivo, os países estão implementando ações de acordo com o avanço e focalização do contágio. O destaque foi a criação de um Sistema Integrado de Informações sobre a covid-19 em nível nacional, onde as unidades de saúde estaduais (subsidiadas), o sistema contributivo, o das forças armadas e as clínicas (privadas) relatam diariamente a existência de infraestrutura ( quartos, camas disponíveis, ocupadas etc.) e equipamentos (ventiladores mecânicos e assistidos etc.). Essas informações foram usadas como sistema de referência para a internação dos infectados pela covid-19 (de acordo com a presidente da Comissão Covid-19, o sistema de saúde é fragmentado). Também é informado regularmente o número de testes aplicados, o número de infectados, recuperados e falecidos. No Peru, por meio de um mapa de calor, identificou-se que os mercados de suprimentos, principalmente os maiores, eram os principais focos de infecção. Esses foram fechados para tratamento de desinfecção e aberto novamente com apenas os funcionários não infectados.

Como você e sua família estão lidando com esses 2 meses de quarentena?

Rofília Ramírez – Não é fácil. Na minha casa, eu tenho meus pais, eles são idosos (acima de 88 anos), portanto, o cuidado deve ser extremo, raramente saio de casa para compras e não recebemos visitas de pessoas que moram em outros lugares, nem mesmo meus irmãos. Para os meus pais, sendo uma população extremamente vulnerável, o isolamento é total. Em relação às minhas atividades de trabalho, tenho feito em modalidade mista, ou seja, presencial no escritório e trabalho remoto em casa. Com essa modalidade, há certamente mais horas dedicadas ao trabalho diariamente.

“Com o progresso, acreditamos que a natureza estava dominada”

Mario Vargas Llosa

Escritor peruano e Prêmio Nobel de Literatura

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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