Os Bolsonaros da África

Fiéis oram sem usar máscaras e sem respeitar o distanciamento social durante uma missa do Domingo de Ramos na Igreja do Evangelho Completo, em Dar es Salaam, na Tanzânia. Foto Ericky Boniphace/AFP

Líderes do continente africano apostam em chás milagrosos, conhaque e muita fé para combater os efeitos do coronavírus

Por Alexandre dos Santos | ODS 10ODS 3 • Publicada em 13 de maio de 2020 - 07:38 • Atualizada em 21 de maio de 2020 - 12:48

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Fiéis oram sem usar máscaras e sem respeitar o distanciamento social durante uma missa do Domingo de Ramos na Igreja do Evangelho Completo, em Dar es Salaam, na Tanzânia. Foto Ericky Boniphace/AFP

“Este chá de ervas dá resultado em sete dias!”, anunciou Andry Rajoelina, presidente de Madagascar, fazendo lembrar o presidente Jair Bolsonaro e a sua insistência em tratar a cloroquina como salvação para a covid-19. Em uma coletiva de imprensa no Instituto Malgaxe de Pesquisa Aplicada, em fins de abril de 2020, Rajoelina apresentou ao mundo, com orgulho, a cura para a pandemia do coronavirus usando um produto que é fruto da “sabedoria milenar da medicina tradicional africana”. O tônico, batizado como “Covid-Orgânico” (ou CVO), foi largamente distribuído para estudantes do ensino médio, integrantes do governo e militares. Desde então, sempre que possível, o presidente Rajoelina se faz fotografar segurando uma garrafa ou bebendo o CVO pelo gargalo. Os números oficiais ajudam na propaganda. Até o dia 8 de maio o país tinha registrado apenas 193 casos e nenhuma morte.

Mesmo que as terapias sejam derivadas da prática tradicional e natural, estabelecer sua eficácia e segurança através de rigorosos ensaios clínicos é fundamental. Os africanos merecem utilizar medicamentos testados de acordo com as normas aplicáveis aos medicamentos fabricados para pessoas no resto do mundo

Nota da Organização Mundial de Saúde

Apesar de não haver qualquer estudo em larga escala que comprove os efeitos do tônico milagroso, – o governo malgaxe confirma testes em menos de 20 pessoas, feitos três semanas antes do lançamento – o anúncio de uma cura que resgata e valoriza os saberes ancestrais dos povos africanos se tornou rapidamente um alavancador de popularidade para governos em apuros e líderes com popularidade em cheque. O próprio Rajoelina, eleito há menos de dois anos usando todo um aparato muito conhecido pelos brasileiros (distribuição de fakenews e antipropagandas por grupos de whatsapp e campanhas de linchamento moral de adversários usando robôs nas mídias sociais) vinha perdendo popularidade a passos largos. A pandemia se tornou uma ótima oportunidade para posar de Salvador da pátria e da humanidade, usando a mídia oficial e o gabinete militar para constranger os acadêmicos e cientistas malgaxes que criticam o “elixir milagroso”.

O presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, bebe uma amostra do remédio "Covid Orgânico" ou CVO em uma cerimônia de lançamento na cidade de Antananarivo, capital do país. Foto Ruasolo/AFP
O presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, bebe uma amostra do remédio “Covid Orgânico” ou CVO em uma cerimônia de lançamento na cidade de Antananarivo, capital do país. Foto Ruasolo/AFP

Denis Sassou Nguesso, presidente e ditador da República do Congo, país vizinho da República Democrática do Congo, no poder desde 1997 (mas tendo sido presidente entre 1972 e 1992), encomendou e recebeu carregamentos da bebida, que foram “doados” pelo governo de Madagascar. O Congo registrava na mesma data 274 casos e dez mortos.

Encomendas também foram feitas pelo ditador da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, no poder desde 1979, que tinha 439 casos e dez mortos. Nguema saldou o produto com ufanismo comovente para um país que está na 144ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (de um total de 189 países) e entre os 15 piores países no ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras: “É com profundo orgulho que anuncio termos uma cura ‘made-in-África’ para um mal trazido de fora”.

O presidente da Tanzânia, John Magufuli, com seus 480 casos e 16 mortos, que vem alternando o respeito à democracia com arroubos autoritários, determinou que uma das diretrizes de combate à pandemia do novo coronavirus é a manutenção dos cultos religiosos. O país de maioria cristã (53%), mas com uma considerável população islâmica (31%), vem tentando se aproximar dos líderes religiosos para tentar reverter a queda na popularidade e no apoio ao Partido da Revolução, que vem perdendo capital político desde as eleições de 2005 (quando teve 58% dos votos) até a reeleição de Magufuli em 2015 (quando obteve “meros” 58% dos votos). O presidente tanzaniano vende a ideia de que “um país abençoado por Deus está protegido.” Mas, para garantir manchetes e manter a prática populista, encomendou uma grande quantidade do Covid-Orgânico, cujas garrafas devem ser distribuídas com a ajuda dos líderes religiosos do país.

Na mesma linha da salvação religiosa, o presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza, defende um slogan que é quase uma cópia do mantra brasileiro: “Burundi é nosso orgulho e Deus é o líder acima de todos”. Lá foram registrados 15 casos e uma morte. Para Nkurunziza, o país de maioria cristã “não precisa de confinamento porque pôs Deus em primeiro lugar”.

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Já na Guiné-Bissau, com 564 casos e duas mortes, o presidente Umaro Sissoco Embaló, que acaba de ser reconhecido pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental depois de meses de contestações a respeito dos resultados das eleições de dezembro de 2019, encomendou um carregamento de Covid-Orgânico visando melhorar a imagem como líder. Afinal, o país se dividiu nas últimas eleições, dando a ele 53,55% dos votos. Embaló terá uma dura batalha de popularidade pela frente, já que o primeiro-ministro, Nuno Nabiam, que se recuperou da covid-19, alega que uma receita local de chá de alho, gengibre e limão, tomado até cinco vezes ao dia, o curou.

O presidente em exercício do Burundi, Pierre Nkurunziza (C), fala durante a abertura da campanha presidencial. Apesar da covid-19, as eleições seguem marcadas para o dia 20 de maio. Foto Tchandrou Nitanga/AFP
O presidente em exercício do Burundi, Pierre Nkurunziza (C), fala durante a abertura da campanha presidencial. Apesar da covid-19, as eleições seguem marcadas para o dia 20 de maio. Foto Tchandrou Nitanga/AFP

Na vizinha Guiné, o presidente Alpha Condé também anunciou uma receita local para o combate ao coronavirus: beber água quente e inalar mentol várias vezes por dia. O país tinha registrado até 8 de maio 1.927 casos e 11 mortes.

Com a profusão de soluções locais e milagrosas sendo apresentadas em vários países africanos, o governador de Nairóbi, a capital do Quênia, ganhou as manchetes das agências de notícias ao apresentar, com toda a pompa e solenidade, a sua solução para o combate à pandemia. Doses diárias e generosas de conhaque Hennessy, que ele mesmo chamou de “desinfetante da garganta”. Durante a coletiva, o governador distribuiu dezenas de garrafinhas para os jornalistas e convidados. A empresa produtora do conhaque, surpreendida com a repercussão, foi obrigada a vir a pública para negar as características antivirais da bebida. O Quênia tinha 621 casos e 29 mortos.

A rápida notoriedade que o presidente de Madagascar, Andry Rajoalina, e o Covid-Orgânico ganharam nas últimas semanas, acendeu o alerta da Organização Mundial da Saúde. O escritório regional da OMS para a África divulgou uma nota na qual condena o uso e a propaganda de soluções que não tenham passado por testes de eficácia rigorosos: “Mesmo que as terapias sejam derivadas da prática tradicional e natural, estabelecer sua eficácia e segurança através de rigorosos ensaios clínicos é fundamental”. A nota continua: “Os africanos merecem utilizar medicamentos testados de acordo com as normas aplicáveis aos medicamentos fabricados para pessoas no resto do mundo”.

A União Africana também se apressou em pedir cautela e responsabilidade aos líderes dos países africanos. “Qualquer remédio ou medicamento reclamado por alguém tem de passar por um ensaio clínico ou avaliação independente e essa avaliação tem de mostrar que é seguro, eficaz e conduzido de forma ética”, disse John Nkengasong, diretor do Centro de Prevenção e Controle de Doenças da União Africana. A União Africana também pediu que o governo malgaxe compartilhe os dados sobre os testes realizados com o Covid-Orgânico, bem como a relação dos componentes do produto. O que se sabe até agora é que uma das ervas usadas para a produção do chá é a artemísia, planta com eficácia comprovada contra a malária.

Alexandre dos Santos

Jornalista formado pela Uerj em 1996 e mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Trabalhou como repórter em jornal impresso e em TV. É professor de História da África no curso de Relações Internacionais da PUC-Rio. Carioca de muitas ascendências: camaronesa, angolana, portuguesa e espanhola. E-mail: [email protected] Instagram: @alsantos72

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