Número de infectados no Brasil pode chegar a 380 mil

Subnotificação dos casos da Covid-19 no país dificulta as projeções, mas isolamento social já começa a dar resultados

Por José Eustáquio Diniz Alves | ods12ods3 • Publicada em 3 de abril de 2020 - 08:46 • Atualizada em 8 de abril de 2020 - 11:24

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Militares desinfetam uma estação de metrô em Brasília contra o coronavírus. Foto Evaristo Sá/AFP

Além dos problemas ambientais de longo prazo, a humanidade enfrenta, no curto prazo, uma dupla crise global – na saúde pública e na economia. Guardadas as devidas proporções, é como reviver, simultaneamente, a pandemia da Gripe Espanhola, de 1918, e a crise econômica de 1929 que gerou a grande depressão dos anos de 1930. O surto de coronavírus e suas consequências são os desafios mais prementes colocado às atuais gerações. No mundo, podemos chegar a mais de 66 milhões de infectados e quase 1 milhão de mortos. No Brasil, segundo as projeções, teríamos até 380 mil infectados e  cerca de 20 mil mortes.

O mundo precisa se colocar à altura dos problemas globais e solucionar os desafios colocados pela saúde, pela economia e pela ecologia. O Brasil precisa abandonar a inação nas áreas social e ambiental e transformar o “país do futuro” em uma nação real, alicerçada sobre uma base ecossocial justa, saudável e equitativa

Porém, a racionalidade humana, por meio da ciência médica e da ciência econômica aprendeu a lidar com tais desafios. Os custos de vidas da Gripe Espanhola e os custos econômicos da grande depressão, que antecedeu a Segunda Guerra, provavelmente, não serão repetidos no século XXI. A maioria absoluta da população mundial vai sobreviver, assim como a capacidade de produção de bens e serviços vai subsistir.

Indubitavelmente, teremos um primeiro semestre de muitas agruras no Brasil e no mundo. Contudo, a vida vai continuar. O ano de 2020 pode ser o início de um novo tempo se os seres humanos despertarem do sono e do sonho entorpecedor que supõe ser possível enriquecer a sociedade, mantendo um desenvolvimento econômico virulento e degradador do meio ambiente. Um mundo novo é possível. Porém, a Era pós-covid-19 não poderá repetir e reproduzir os erros do velho sistema que nos trouxe até aqui.

Mas, vamos por partes. Primeiramente precisamos vencer a pandemia. Depois, vencer a recessão econômica. E estas duas tarefas devem ser executadas com os olhos no futuro de um novo mundo, amparado na justiça social e ambiental.

Alunos do ensino médio da cidade de Huaian, na província de Jiangsu, leste da China, começam a retomar às aulas após o fim da quarentena. Foto STR / AFP
Alunos do ensino médio da cidade de Huaian, na província de Jiangsu, leste da China, começam a retomar às aulas após o fim da quarentena. Foto STR / AFP

Como vencer a pandemia?

Ainda não existe vacina para a covid-19. Para conter o surto do novo coronavírus só há uma solução que é a quarentena e o isolamento social para evitar a difusão do contágio. O remédio é amargo, mas tem funcionado, especialmente onde foi aplicado no tempo e nos espaços corretos.

A China inicialmente hesitou, mas depois paralisou a economia no epicentro original da epidemia, a província de Hubei, e teve sucesso em manter o número de pessoas infectadas em cerca de 82 mil e o número de mortes em 3.300. Mas, a Itália, por exemplo, que demorou a decretar a quarentena, viu o número de infectados ultrapassar a marca de 110 mil casos e o número de mortes chegar a cerca de 13 mil no final de março. A Índia – com mais de 1,3 bilhão de habitantes – decretou quarentena nacional.

Atualmente, cerca de um terço da população mundial está, total ou parcialmente, sob regras de isolamento. Com isso, a taxa de crescimento do número notificado de casos e de mortes, que chegou a uma média de 12% ao dia, começou a diminuir no final do mês de março, embora se mantenha em patamar elevado. Desta forma, as previsões mais catastróficas parecem afastadas e tudo indica que o mês de abril poderá apresentar um achatamento das curvas.

O gráfico 1 apresenta quatro cenários para o número acumulado de casos de covid-19 no mundo de abril a junho de 2020. No cenário 1, a taxa de crescimento média diária fica em 5,5% ao dia em abril e atingiria 7,2 milhões de casos (pessoas infectadas) em 30 de junho. No cenário 2, a taxa fica em 7,1% em abril e alcançaria 18,4 milhões de casos no final do período. No cenário 3, a taxa fica em 8,7% e os casos poderiam chegar a 34,6 milhões No cenário 4, a taxa de crescimento média diária fica em 9,3% ao dia no mês de abril e o número de casos atingiria a marca de 66,4 milhões de pessoas em 30 de junho de 2020. A taxa de letalidade global está em torno de 5%. Devido às duras medidas que estão sendo tomadas na maior parte dos países, o mais provável é um resultado mais próximo do segundo cenário, algo como 0,25% da população mundial infectada e cerca de 920 mil mortes.

Gráfico 1: cenários para os casos de Covid-19 no mundo: abril- junho de 2020

Arte Fernando Alvarus

Dados do WorldOmeteres:  https://www.worldometers.info/coronavirus/coronavirus-death-toll/

O gráfico 2 apresenta também quatro cenários, mas para o território brasileiro. As taxas de crescimento diárias do número de casos nos quatro cenários são semelhantes aos cenários globais. Mas os números finais no Brasil, obviamente, são bem menores, sendo 42 mil pessoas infectadas em 30 de junho, no primeiro cenário, 106 mil no segundo cenário, 200 mil  no terceiro cenário e 380 mil pessoas notificadas com covid-19, no quarto cenário (representando quase 0,2% da população total do Brasil). Se a taxa de letalidade ficar em torno de 5%, então o Brasil teria 19 mil mortes até 30 de junho de 2020.

Gráfico 2: cenários para os casos de Covid-19 no Brasil: abril- agosto de 2020

Arte Fernando Alvarus

Dados do WorldOmeteres:  https://www.worldometers.info/coronavirus/coronavirus-death-toll/

Sem dúvida, a prevalência dos cenários mais amenos do surto só ocorrerá na medida em que houver boa vontade geral e sinergia entre as pessoas, as instituições da sociedade civil e as diversas instâncias do Poder Público. Somente o isolamento social pode evitar a propagação do vírus. Assim, para que a Covid-19 deixe de ser uma ameaça local e global, a circulação humana necessita ser reduzida ao máximo e as atividades antrópicas precisam engatar uma marcha lenta. Mas, em geral, paralisar a economia implica em recessão, desemprego, perda de renda e muito desamparo material e espiritual.

Como vencer a recessão econômica?

A recessão global e nacional, no primeiro semestre de 2020, é inexorável, pois a economia parou. Fábricas, lojas e shopping centers fecharam. Alunos e professores se afastaram das salas de aula. Restaurantes, teatros, cinemas e esportes paralisaram as atividades e até as Olimpíadas de 2020, do Japão, foram postergadas. O turismo acabou. Todas as atividades não essenciais foram interrompidas.

O índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque chegou a cair mais de 30% (equivalente à crise de 1929) e o preço do barril do petróleo ficou abaixo de US$ 20, um dos menores valores desde o choque do petróleo da década de 1970. No Brasil, o Ibovespa caiu quase 50% e o dólar ultrapassou R$ 5, recorde histórico. O desemprego subiu e a renda caiu em todos os lugares.

Mas, ao contrário da grande depressão dos anos de 1930, está havendo uma reação das autoridades econômicas. Os Bancos Centrais reduziram as taxas de juros e aumentaram a liquidez da moeda, enquanto os governos estão utilizando os instrumentos fiscais para injetar dinheiro no mercado e garantir a solvência das empresas, dos bancos e a sobrevivência dos desempregados e dos trabalhadores informais. De repente, até os economistas e políticos liberais passaram a defender a interferência do Estado para salvar a demanda agregada e o nível de atividade econômica.

Sem dúvida, a prioridade do momento é garantir o funcionamento do sistema de saúde para evitar a multiplicação das mortes, a manutenção dos serviços essenciais e a sobrevivência das pessoas, especialmente das camadas mais vulneráveis da sociedade. A situação é de emergência e os indivíduos devem colaborar, enquanto o Poder Público deve atuar com políticas de redução de danos.

Nestes momentos de crise, qualquer meta de equilíbrio fiscal é inviável, pois a recessão provoca um aumento das despesas e uma redução das receitas públicas. Consequentemente, haverá um crescimento mais acelerado da dívida pública. Mas, há décadas, John Maynard Keynes (1883-1946) ensinou que situações deste tipo são temporárias e que as medidas contracíclicas de curto prazo, tomadas com o objetivo de amenizar as tribulações das gerações atuais, devem ser compensadas no longo prazo e devem ser pagas pelas gerações futuras.

O mundo tem funcionado desta maneira. As políticas “estatistas” keynesianas ajudaram na expansão capitalista no pós-Guerra e viabilizaram o maior ciclo de crescimento da produção e do consumo da história da humanidade. Especialmente nos momentos de crise, as políticas monetárias e fiscais expansionistas garantiram o crescimento econômico, mesmo que às custas de um endividamento crescente, do aumento das desigualdades sociais e da ampliação da exploração do Planeta. De acordo com as regras usuais, o horizonte de curto prazo e as necessidades presentes tendem a prevalecer sobre o bem-estar das gerações futuras e o equilíbrio de longo prazo dos ecossistemas.

Essa tem sido a lógica de funcionamento do processo de simbiose entre o Estado e o mercado para garantir o desempenho da máquina insana e insone de acumulação de riqueza. Na bonança, as forças do mercado chamam para si o protagonismo da economia e, na borrasca, os mais espertos recorrem ao Estado para socializar as perdas e privatizar os lucros. De crise em crise, a velha ordem funciona exacerbando as desigualdades sociais, empobrecendo o meio ambiente, piorando o clima e jogando para as futuras gerações as dívidas sociais e ambientais. Este caminho é insustentável e precisa mudar!

Superar o antigo normal e construir um mundo com justiça social e ambiental

A pandemia da covid-19 é uma tragédia que acende diversos alertas. Mas ela pode servir para a humanidade refletir sobre o modelo de desenvolvimento econômico que adotamos desde a Revolução Industrial e o começo do uso generalizado dos combustíveis fósseis. Como diria Shakespeare: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Ou seja, há algo de errado com o estilo de vida global.

Subitamente, a poderosa engrenagem emperrou e o mito de um crescimento econômico ininterrupto empacou. O que parecia inimaginável, aconteceu. Um vírus microscópio se espalhou por mais de 200 países e territórios e, neste início de abril, o número de pessoas infectadas ultrapassou a cifra de 1 milhão de casos notificados (e outros tantos não notificados), com cerca de 50 mil mortes. De repente, o mundo estancou. Quem achou que não precisava parar, ou demorou para tomar essa decisão, se deu mal.

Não resta dúvidas de que a prioridade imediata é reforçar o sistema de saúde, evitar o aumento generalizado do desemprego e a quebradeira de pequenas e médias empresas, garantir renda para os trabalhadores informais e as populações mais carentes, reforçar o sistema de proteção social e afastar a possibilidade de um caos coletivo. Bem ou mal, medidas de aumento dos gastos públicos estão sendo aprovadas pelos Executivos e pelos Legislativos em todo o mundo e no Brasil não é diferente.

Porém, por aqui, não se vê medidas para mitigar a recessão econômica que, ao mesmo tempo, ataquem o processo de concentração de renda. Os altos salários e os “penduricalhos” da elite dos membros do Judiciário, Legislativo e Executivo não foram questionados. Nada ainda se fez de concreto para viabilizar o aumento do imposto sobre as grandes fortunas e o imposto sobre a herança dos super ricos que concentram a propriedade e acumulam grande patrimônio.

Diversos projetos megalomaníacos – como o do submarino nuclear – continuam absorvendo os parcos recursos nacionais, quando poderiam estar fortalecendo o Sistema Único de Saúde (SUS) e outras políticas públicas. Porém, o apelo da salvação advinda do aumento do gasto público não pode obnubilar a ineficiência e a corrupção do Estado que tem se mostrado incapaz de enfrentar epidemias como as de Dengue, Chikungunya, Zika, Febre amarela, Sarampo e agora terá mais uma doença na longa lista das enfermidades nacionais.

Enfim, os desafios são enormes. O Brasil, que se transformou em uma “potência submergente”, tem regredido economicamente desde 2014 e adotado um caminho de “especialização regressiva”, que tem gerado grande dependência da produção e exportação de commodities, estagnação da renda, baixa produtividade econômica, fraca competitividade internacional, aumento das desigualdades e da pobreza, além de grande destruição do meio ambiente. O que estava ruim, piorou.

Deste modo, a luta contra o surto do novo coronavírus e as medidas para evitar uma depressão econômica não devem ser feitas com os olhos direcionados para o retrovisor e para o antigo normal que guiou o modelo de desenvolvimento global e nacional nas últimas décadas. O Brasil e o mundo precisam sair da crise atual olhando para a frente e para um futuro socialmente justo e ambientalmente sustentável.

Na década de 1930, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, transformou a crise em oportunidade, ao lançar um plano para reativar a economia e promover o bem-estar social (que ficou conhecido como “New Deal”). No século XXI, existe uma proposta que recupera os princípios do “New Deal” e acrescenta as iniciativas para evitar a catástrofe ecológica.

O “Green New Deal” (Novo Acordo Verde) é a alternativa holística para enfrentar a pandemia da Covid-19, o pandemônio da crise socioeconômica e o caos climático e ambiental que são as grandes ameaças existenciais atuais à civilização.

De modo sintético o ‘Green New Deal’ visa realizar 5 objetivos gerais para redirecionar a economia sem ultrapassar as fronteiras planetárias e a capacidade de carga do Terra:

  • Investir na infraestrutura e na produção de bens e serviços para enfrentar de forma sustentável os desafios econômicos, sociais e ambientais, por exemplo, o investimento em saneamento básico que garanta a saúde da população e do meio ambiente;
  • Zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa através de uma transição justa e correta da matriz energética e da transição dos motores de combustão interna para os motores elétricos e veículos compartilhados, com investimentos em transporte coletivo;
  • Implementar políticas de pleno emprego e trabalho decente e privilegiar as atividades direcionadas para a transição para uma economia de baixo carbono;
  • Limpar o ar, o solo e a água, garantido a resiliência climática e comunitária, produzindo alimentos saudáveis, paralelamente ao processo de reflorestamento, de proteção da vida selvagem e de regeneração dos ecossistemas;
  • Promover a justiça e a equidade em todos os aspectos da vida econômica, social e ambiental.

Pode parecer um sonho. Mas o sonho que se sonha junto se torna realidade. A engenhosidade humana já deu inúmeros exemplos de grandeza, mas falta deixar de lado a ganância e assentar a solidariedade interespécie e entre espécies no centro da ação prática.

O mundo precisa se colocar à altura dos problemas globais e solucionar os desafios colocados pela saúde, pela economia e pela ecologia. O Brasil precisa abandonar a inação nas áreas social e ambiental e transformar o “país do futuro” em uma nação real, alicerçada sobre uma base ecossocial justa, saudável e equitativa.

Citação: ALVES, JDE. Brasil: uma potência submergente, Colabora, 05/12/2018

https://projetocolabora.com.br/artigo/brasil-uma-potencia-submergente/

José Eustáquio Diniz Alves

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-doutorado no Núcleo de Estudos de População – NEPO/UNICAMP. É professor e pesquisador independente. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

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