Projeto ‘Absorvidas’ combate pobreza menstrual em presídios

Diretoras do Absorvidas, da esq. para dir.: Luiza Guedes, Giullia Jaques, Luana Lira e Joyce Mayra (Fotos: Arquivo Pessoal)

Iniciativa foi criada por uma estudante do Rio de Janeiro para levar bioabsorventes e conhecimento aos “presos que menstruam”

Por Heloisa Aun | ODS 10ODS 3 • Publicada em 23 de novembro de 2020 - 09:04 • Atualizada em 27 de novembro de 2020 - 22:00

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Diretoras do Absorvidas, da esq. para dir.: Luiza Guedes, Giullia Jaques, Luana Lira e Joyce Mayra (Fotos: Arquivo Pessoal)

Levar conhecimento sobre o ciclo menstrual e promover o acesso a produtos de higiene, como absorventes e papel higiênico. Estes são os objetivos do projeto Absorvidas, que busca acabar com a chamada “pobreza menstrual” de mulheres em penitenciárias: “Até hoje é um tabu falar sobre menstruação. Muitas mulheres são privadas do direito de saber sobre o próprio corpo e o ciclo que o impacta”, afirmam as integrantes da iniciativa.

O projeto foi criado em agosto de 2019 por Giullia Jaques, que havia acabado de concluir o Ensino Médio. Nascida em uma família muito pobre, a jovem cresceu em Belford Roxo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e na fase de idealização do Absorvidas estava no processo de candidatura para uma universidade nos Estados Unidos. Atualmente, ela estuda business (administração), com bolsa integral, em Boston.

A ideia da iniciativa nasceu quando Giullia participou de um bootcamp da LALA, uma ONG da América Latina, que ocorreu em Lima, no Peru. No local, ela e os outros participantes assistiram a uma palestra de uma organização. “Eles começaram nos perguntando: ‘o que vocês fazem quando acordam?’. Todo mundo achou a pergunta estranha, mas as respostas foram as esperadas, como ir ao banheiro, lavar o rosto ou escovar os dentes”, relata. Os integrantes da instituição indagaram: “E se vocês não tivessem acesso a um banheiro ou a uma privada?”.

Foi então que ela e os presentes no programa descobriram que o trabalho da ONG era levar privadas e construir banheiros em comunidades vulneráveis em Lima. A primeira pergunta veio seguida de outro questionamento sobre coisas básicas que eles tinham acesso, mas que muitas outras pessoas no mundo não. “Eu nunca tive privilégios, além de ser branca. Não tive acesso a muitos recursos e estudei toda vida em escola pública. Por isso, fui anotando aspectos que pareciam pequenos, como o apoio da minha família para estudar, remédios, em especial para cólica, e logo me veio a ideia dos absorventes. Esta última palavra ficou piscando naquela lista”, conta.

A partir do exercício, Giullia refletiu sobre quem no Brasil não tem como comprar absorventes. “Não precisei pensar muito. Foi jogar as palavras-chave no Google para entender que as pessoas que mais sofrem sem absorventes são as que estão privadas de liberdade”, afirma. Assim surgiu o interesse em atender as necessidades dessa população. Mas, para ela, quando a gente está tentando resolver um problema que não nos afeta diretamente, o primeiro passo é entender a questão e formar uma relação de confiança com a comunidade.

Nos meses seguintes, a jovem estudou e enviou vários e-mails para órgãos do governo com o objetivo de compreender o que queria fazer de fato. Depois, as demais integrantes entraram para o time e o projeto saiu do papel graças ao trabalho de todas. Para viabilizar a iniciativa, elas criaram uma campanha de financiamento coletivo com o intuito de arrecadar R$ 30 mil em 30 dias. Em apenas 17 dias, o valor foi alcançado e ao final do período o total foi de R$ 31.355,00.

Com o dinheiro, o Absorvidas começou o projeto-piloto das ações propostas. Entraram em contato com os fornecedores: a Herself, que fez os bioabsorventes por R$ 11 a unidade, e a Cooperativa Libertas, que criou os saquinhos em que os produtos seriam guardados pelas detentas.

A iniciativa ainda organizou o material que a Herself enviou sobre higiene e ciclo menstrual para ter conteúdo disponibilizado aos “presos que menstruam”. “A gente não está lá nessa fase de adaptação para tirar dúvidas, mas queríamos que existisse esse contato e a possibilidade delas não só aprenderem a usar os bioabsorventes, mas entender por qual motivo utilizá-los e de que forma eles ajudarão suas vidas.”

Os bioabsorventes e os produtos do kit serão entregues até o fim deste ano. “Vamos averiguar se elas se adaptaram, o que aconteceu no processo e o que podemos mudar”, explica. Enquanto isso, a equipe vai seguir com a organização para implementação do plano de ação em longo prazo. A proposta é que as próprias mulheres dentro das penitenciárias comecem a produzir os itens de higiene. “Estamos acompanhando o processo no Rio Grande do Sul, com a confecção feita pela Herself, e a ideia é expandir para outras penitenciárias e estados do Brasil”, revelam.

Dignidade a pessoas encarceradas

Mais do que a distribuição de bioabsorventes, o projeto discute a omissão de toda a sociedade sobre a dignidade das pessoas encarceradas. “Não tem como debater segurança pública e questões sociais se a gente continua ignorando essa população e as condições que as levaram a cometer o crime, como a fome e a desigualdade”, reiteram.

Para mudar parte dessa invisibilidade, a iniciativa optou pela luta por dignidade menstrual. Assumir que a pobreza menstrual não é apenas não ter acesso a absorventes, como também não entender o próprio ciclo, significa empoderar e libertar os “presos que menstruam”. “A gente quer falar sobre os produtos que levaremos. Não podemos simplesmente entregar bioabsorventes sem explicar os benefícios e por que usá-los, por exemplo, pelo fato de serem livres de produtos químicos”, pontuam.

O ponto chave do Absorvidas é fazer com que as pessoas impactadas façam parte do projeto. Nas oficinas e workshops, serão abordados os temas relacionados ao ciclo e à produção dos bioabsorventes. “No futuro, temos esperança de que isso possa ser uma fonte de renda para as detentas, pois o mercado de bioabsorventes no Brasil é muito novo.”

A luta pelo fim da pobreza menstrual é evidenciada pelas integrantes a partir de um questionamento: “Como a gente vive sem saber o que realmente acontece com o nosso corpo durante a menstruação?”. “O nosso sangue é considerado sujo e isso é um problema muito grande. A gente precisa falar a respeito porque as mulheres foram retiradas de ter conhecimento sobre seus corpos. Falar sobre menstruação é necessidade”, concluem.

Cadê o absorvente?

A Herself, parceira do Absorvidas, e a Herself Educacional criaram em outubro um movimento, intitulado “Cadê o Absorvente?”, para denunciar como a dignidade menstrual é invisibilizada e como a extrema pobreza afeta essa realidade. Por meio de um abaixo-assinado na plataforma Change.org, as empresas mostram dados alarmantes, como o que revela que 26% das adolescentes brasileiras, entre 15 e 17 anos, não têm acesso a produtos higiênicos durante o período menstrual. A informação faz parte de uma pesquisa realizada há dois anos pela marca de absorventes Sempre Livre.
A petição online já tem mais de 42 mil apoiadores. O movimento ressalta, ainda, que as estudantes em situação de vulnerabilidade chegam a perder até 5 dias de aulas por mês por estarem menstruadas e não terem protetores íntimos. Segundo o texto, moradoras de rua também não têm acesso a esses produtos, e grande parte das presidiárias chega a usar miolo de pão como absorvente.

O texto lista algumas propostas de combate à pobreza menstrual, como políticas públicas que tragam autonomia e dignidade a meninas, mulheres, homens trans e todas as pessoas que menstruam. Entre as possibilidades elencadas, estão: distribuição de absorventes sustentáveis em postos de saúde e presídios; redução de impostos sobre os protetores menstruais; criação de cooperativas de produção de absorventes com mulheres em situação de vulnerabilidade; inclusão desses produtos na cesta básica; e acesso a saneamento básico.

Ademais, há alguns projetos de lei que visam promover a dignidade menstrual. No caso do Rio de Janeiro, foi aprovada em julho a primeira medida para a dignidade menstrual. A Lei Estadual de número 4.892, de 1º de novembro de 2006, sofreu alterações para incluir o absorvente higiênico entre os produtos que compõem a cesta básica no âmbito do Estado.

Heloisa Aun

Jornalista formada pela Cásper Líbero e estudante de Letras na USP, atua desde o início da carreira com a temática dos direitos humanos e meio ambiente. Nos últimos anos, idealizou campanhas de combate ao assédio sexual e à violência doméstica contra mulheres. Também é voluntária na área de comunicação e de educação em projetos sociais.

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2 comentários “Projeto ‘Absorvidas’ combate pobreza menstrual em presídios

  1. Josane M Rios da Rocha disse:

    Projeto maravilhoso e de grande proporção!!!! Fico admirada como vocês conseguiram mostrar o mundo que não vemos nem percebemos de pessoas que vivem à margem do mínimo da condição humana . Parabéns meninas !!!! Por colocar mais luz em nossos olhos e percepção a nossa realidade. Vocês são inspiradoras ❤️

  2. Liane gregory disse:

    Parabéns pelo projeto! Muito importante, eu nunca tinha pensado nisso, lendo a matéria, me comoveu, e me fez pensar como deve ser dificil para essas mulheres, que se rncontram nessa situação! Parabéns pela iniciativa!

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