Indígenas abandonados à própria sorte contra coronavírus

Indígenas do Vale do Javari esperam para ser atendidos na Central de Saúde. Foto da Univaja

Sem assistência do governo e vulneráveis à doença 'dos homens brancos', povos da floresta terão de enfrentar pandemia por conta própria

Por Amazônia Real | ODS 3
Publicada em 17 de março de 2020 - 08:00  -  Atualizada em 11 de fevereiro de 2021 - 16:55
Tempo de leitura: 13 min

Indígenas do Vale do Javari esperam para ser atendidos na Central de Saúde. Foto da Univaja
Indígenas do Vale do Javari esperam para ser atendidos na Central de Saúde. Foto da Univaja

Izabel Santos

Manaus (AM) – Diante da pandemia do coronavírus, os indígenas brasileiros estão abandonados à própria sorte. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde, não anunciou medidas e nem investimentos para prevenir a disseminação da doença nas terras onde vivem povos reconhecidos pela saúde pública como vulneráveis e de imunidade baixa.

A Sesai é a responsável por planejar, coordenar, supervisionar, monitorar e avaliar a implementação da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, observados os princípios e as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). A secretaria atende uma população de 760.350 indígenas através de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei).

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Na Amazônia Legal, 25 distritos abrigam uma população de 433.363 pessoas. Até a segunda-feira (16), não havia registro de casos suspeitos de coronavírus na população indígena.

Para o coordenador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi’i, antropólogo João Paulo Barreto, da etnia Tukano, a região do Alto Rio Negro não está preparada para enfrentar o coronavírus. “Primeiro pelas distâncias, depois pelo próprio sistema imunológico dos indígenas. Além disso, o preparo para enfrentar a doença exigiria recursos e profissionais treinados”, listou. “Essa doença (coronavírus) não está entre as concepções de saúde e doença tratadas pelos kumuã. É de não indígena e, para curá-la, teríamos que usar a medicina dos brancos mesmo”, explicou.

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Essa doença não está entre as concepções de saúde e doença tratadas pelos kumuã. É de não indígena e, para curá-la, teríamos que usar a medicina dos brancos mesmo

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É no centro de medicina que muitas pessoas, inclusive a maioria não indígena, procuram atendimento de saúde através do conhecimento tradicional dos Kumuã (pajés), em Manaus. Cientes sobre a precariedade das ações, principalmente em regiões remotas e de difícil acesso da Amazônia, onde estão povos isolados, as organizações mais importantes do Movimento Indígena Nacional tomaram medidas para impedir o avanço do coronavírus nas aldeias. Doenças como malária, tuberculose, gripe, hepatite, sarampo, entre outras, têm alta incidência devido, por exemplo, à invasão de garimpeiros nas terras indígenas. Agora, muitas lideranças temem que a nova infecção respiratória chegue às comunidades pelo trânsito de não-indígenas.

Integrante da coordenação executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o advogado Dinamam Tuxá expôs preocupação com a falta de orientação da Sesai sobre o Covid- 19. “Não recebemos nenhum comunicado oficial, por qualquer meio, do Ministério da Saúde nem da Sesai sobre o tema. Mas, de forma extraoficial, fomos orientados a evitar aglomerações como aeroportos, e permanecer nos territórios evitando contato com gente de fora”.

Como medida de prevenção à doença, a Apib anunciou na última quinta-feira (12) o adiamento do 16º Acampamento Terra Livre (ATL), evento que reúne todos os anos, em abril, milhares de indígenas de várias etnias, em Brasília. O ATL também costuma receber vários participantes de outros países, entre indígenas e integrantes de organizações aliadas, além da mídia internacional. “O objetivo do ATL é buscar a promoção e implementação de direitos, não causar problemas, principalmente na saúde. Precisamos proteger as nossas comunidades”, explicou Dinaman Tuxá.

Na última sexta-feira (13), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) anunciou a suspensão do ingresso de pessoas não-indígenas à terras indígenas do Alto Rio Negro, entre os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Izabel do Rio Negro e Barcelos, no noroeste do Amazonas, na fronteira com Colômbia e Venezuela. A região possui a maior diversidade indígena do país, com 23 etnias diferentes, vivendo em 12 territórios.

Outra medida da Foirn foi suspender as viagens interestaduais e internacionais por tempo indeterminado dos integrantes da organização. O presidente da entidade, Marivelton Baré, disse que a medida visa a proteger os mais vulneráveis, como os idosos. “A precaução é a melhor medida que podemos tomar. Não podemos esperar os casos para fazer alguma coisa. Também achamos que é descaso do governo federal não tomar medidas urgentes para resguardar a saúde dos indígenas”, avisou o dirigente, sublinhando que a medida vale para todos. “Profissionais da saúde que estão fora do Alto Rio Negro, outros indígenas e até para Funai, que não pode autorizar a entrada de ninguém sem antes nos comunicar. Vamos analisar caso a caso”, explicou.

Há muita apreensão entre as lideranças indígenas sobre a situação da Terra Indígena Vale do Javari, no sudoeste do Amazonas, na fronteira com Peru e Colômbia, onde vivem indígenas isolados e de recente contato. Segundo dados da Funai, há 16 registros em estudo de índios isolados, 11 deles confirmados. O Vale do Javari tem seis povos contatados (Marubo, Matís, Kanamari e Kulina-Pano) e dois de recente contato (Korubo e Tshohom Djapá).

Em nota, a Apib expressou novamente preocupação às consequências de medidas adotadas pelo governo Bolsonaro em relação à saúde indígena e contato com povos isolados por missões evangélicas. “Ressaltamos que pandemias como estas alertam para a gravidade de uma política de contato com os povos isolados, em razão dos riscos não só de etnocídio, mas também de um doloso genocídio”, diz a Apib.

Dinamam Tuxá confirmou que os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei’s) não estão estruturados para casos de Covid-19. “Se isso [o coronavírus] se instalar nas terras indígenas vai ser o caos. Os distritos estão completamente enfraquecidos, assim como os polos base [de saúde]. Apesar de ter equipes multidisciplinares locais com médicos e enfermeiros, sabemos que muitas estruturas estão precárias e sem insumos como álcool em gel e máscaras, para o atendimento adequado das comunidades e o devido acompanhamento dessa pandemia”.

Invadida novamente por milhares de garimpeiros, a Terra Indígena Yanomami, entre Amazonas e Roraima, está vulnerável a várias doenças, entre elas o novo coronavírus. No território vivem mais de 25 mil yanomamis e yekuanas. Há também presença de indígenas isolados. A Funai confirma a existência de um povo isolado e estuda a de outros seis cujos vestígios foram registrados. “Essas populações, além de sujeitas a conflitos com garimpeiros, também estão mais suscetíveis a doenças comuns entre os não-indígenas, podendo uma simples gripe dizimar vários integrantes de um grupo”, avisa texto da fundação, publicado em 2019.

“Eles (os garimpeiros) entram e saem da TI Yanomami quando querem, têm pista de pouso e trilha dentro da área e fazem a exploração ilegal de ouro bem perto dos locais onde os indígenas circulam”, acusou Junior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital Indígena (Condisi) Yanomami e Ye’kuana. Segundo ele, o Distrito Especial Indígena (Dsei) Yanomami conta com equipes treinadas e intérpretes para esclarecer a população indígena sobre o novo coronavírus. “Estamos transmitindo informações e esclarecimentos sobre a doença e seguindo o protocolo determinado pelo Ministério da Saúde para o coronavírus”.

Primeiro contato dos indígenas Koburo com os homens brancos, em 2015. Foto CGIIRC/Funai
Primeiro contato dos indígenas Koburo com os homens brancos, em 2015. Foto CGIIRC/Funai

A Terra Indígena Vale do Javari fica no município de Atalaia do Norte, sudoeste do Amazonas, onde vivem seis etnias contatadas e um registro de pelo menos 16 grupos indígenas isolados. Yura Marubo, da organização União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), destacou a falta de controle nas fronteiras internacionais para uma possível expansão do Covid-19. “A presença do coronavírus no Vale do Javari seria devastadora. Temos uma fronteira aberta e com circulação livre entre o município de Atalaia do Norte e o Peru, com a Colômbia é mais controlado, mas a circulação existe do mesmo jeito”, explicou Yura, criticando a falta de uma política de saúde indígena. “Estão brincando de governar o país. Não temos medidas efetivas e de longo prazo, somente medidas paliativas. Não sabemos nem como vão abordar questões como o isolamento [quarentena], que entre os indígenas não é comum. É provável que as famílias fujam, aí vai ser pior, pois vão se esconder e ficar sem assistência”.

Com mais de 20 anos de experiência em educação e saúde indígena, Rosimeire Teles, da etnia Arapaso, de São Gabriel da Cachoeira, afirmou que os indígenas de toda a Amazônia estão ameaçados pelo coronavírus. “Ninguém está preparado para essa doença, nem os municípios e nem as comunidades indígenas. Não se trata de dinheiro, mas sim de solução, pois não existe remédio contra ela. É uma doença (coronavírus) desconhecida que está chegando a países ricos e pobres, a todos os lugares. Pessoas como nós, indígenas, são muito vulneráveis a ela, pois temos a imunidade baixa”, enfatizou.

Procurada pela Amazônia Real, a Sesai informou, por meio da assessoria de imprensa, que o Ministério da Saúde lançou, na quarta-feira (11), um edital para contratar 5.811 médicos brasileiros e assim reforçar o atendimento à população durante a pandemia. Em diversas cidades da região é em hospitais militares que as populações indígenas procuram assistência, como em Tabatinga, na fronteira do Amazonas com Colômbia e Peru, e São Gabriel da Cachoeira, fronteira com Colômbia e Venezuela. Também são os militares responsáveis pelos deslocamentos em embarcações e aeronaves em ações de emergências em regiões de difícil acesso. Mas o Comando Militar da Amazônia não divulgou se tem planos para socorro durante a crise.

A reportagem também procurou a Funai e, por e-mail, a assessoria de imprensa respondeu que a fundação atua “em apoio logístico às ações da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). (Colaboraram Elaíze Farias e Kátia Brasil)

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