O Brasil está em uma situação curiosa e inusitada pois a impressão geral é de que o número de casos e mortes pela covid-19 é muito maior do que indicam os dados oficiais. O próprio Ministério da Saúde reconhece que as hospitalizações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) cresceram 366% em 2020, em relação à 2019, até a 16ª Semana Epidemiológica. Este aumento foi fundamentalmente nas últimas 5 semanas. Segundo o Boletim Epidemiológico de 20/04, há 58.569 hospitalizações e 6.614 óbitos por SRAG que são classificadas como “não especificado” ou “em investigação”. Portanto, o número de mortes por “razões desconhecidas” é mais do que o dobro do número contabilizado na conta da covid-19. Enquanto isto, o caos no sistema de saúde se amplia e o colapso ocorrido em Manaus tem tido maior visibilidade.
O panorama nacional
No meio da tarde do dia 22 de abril, quando se comemorou os 520 anos do “descobrimento” do Brasil, o Ministério da Saúde divulgou o balanço da pandemia, indicando 43.079 casos e 2.741 mortes, com uma taxa de letalidade de 6,4%.
Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosA pandemia da covid-19 avançou em ritmo exponencial no Brasil nos primeiros 22 dias de abril, com o número de casos crescendo 7 vezes e o número de mortes crescendo 12 vezes. São Paulo é a Unidade da Federação (UF) com maior número de casos e mortes, mas é o Amazonas que possui o maior coeficiente de incidência e maior coeficiente de mortalidade da covid-19.
O gráfico abaixo mostra que o estado do Amazonas tinha um coeficiente de mortalidade de 45 por 1 milhão de habitantes, Pernambuco e Rio de Janeiro com 24 por milhão, São Paulo com 23 por milhão e Ceará 22 por milhão. Tocantins, com 1 óbito por milhão, é a UF com menor coeficiente de mortalidade.
Segundo a Secretaria da Saúde, o estado de São Paulo registrou 15.385 casos confirmados da doença e 1.093 mortes até 21/04. São 239 cidades que registraram algum caso e 97 cidades com pelo menos uma vítima fatal da covid-19. Há também cerca de 6 mil pacientes, suspeitos e confirmados, internados em UTI e enfermarias de hospitais de SP. A covid-19 já pode ser considerada a quinta causa mais letal no estado de São Paulo, à frente de todos os tipos de câncer, dos acidentes de transporte, da diabetes e de doenças por hipertensão.
Entre as vítimas fatais, estão 642 homens e 451 mulheres. Os óbitos continuam concentrados em pacientes com 60 anos ou mais, totalizando 77,8% das mortes. Observando faixas etárias, nota-se que a mortalidade é maior entre 70 e 79 anos (284 do total), seguida por 60-69 anos (243) e 80-99 (234). Também faleceram 90 pessoas com mais de 90 anos. Fora do grupo de idosos, há alta mortalidade entre pessoas de 50 a 59 anos (130 do total). Os principais fatores de risco associados à mortalidade são cardiopatia (61,5% dos óbitos), diabetes mellitus (42,9%), pneumopatia (14,2%), doença neurológica (11,7%) e doença renal (10,8%). Outros fatores identificados são imunodepressão, obesidade, asma e doenças hematológica e doença hepática.
A tabela abaixo mostra os 22 municípios paulistas com 5 ou mais mortes de covid-19 (até 21/04). Evidentemente, o maior número de casos e de mortes está na capital, com Guarulhos vindo em segundo lugar. Mas o interessante a observar é que os maiores coeficientes de incidência e de mortalidade não estão necessariamente nos municípios com maior Índice de Envelhecimento (IE).
Mais contrastante ainda é o caso de Caieiras, que tinha um IE de 41 idosos por 100 jovens, mas o maior coeficiente de mortalidade do estado, com o valor de 73,1 óbitos por milhão de habitantes. Isto quer dizer que, embora a covid-19 apresente maior letalidade para as faixas de idade do topo da pirâmide etária, os municípios mais impactos pela pandemia não são necessariamente aqueles mais envelhecidos e com maiores Índices de Envelhecimento.
Isto fica claro nos gráficos abaixo, que mostram uma correlação entre os coeficientes de incidência (gráfico da esquerda) e o coeficiente de mortalidade (gráfico da direita) com o Índice de Envelhecimento. O que se observa é que existe uma correlação positiva, mas com uma relação fraca, indicando que os municípios mais envelhecidos não são necessariamente os mais afetados pela pandemia.
No dia 22 de abril, a pandemia global atingiu a marca de 2,64 milhões de casos e 184 mil mortes, com uma taxa de letalidade de 7%. Por enquanto o pico do número diário de casos aconteceu no dia 03 de abril com um valor em torno de 100 mil e o pico de mortes no dia 17 de abril com valor próximo de 10 mil.
A Cepal – Comissão Econômica para América Latina e Caribe – lançou um relatório nesta semana para avaliar os efeitos da pandemia da covid-19 na região. Mostra que o impacto será devastador e levará, apenas este ano, o retorno de pelo menos 30 milhões de latino-americanos à pobreza. As principais conclusões do relatório são:
– A crise econômica na região em 2020, com uma queda de 5,3% no PIB, será a pior de todas na história. Para encontrar uma contração de magnitude comparável é necessário voltar à Grande Depressão de 1930 (-5%) ou até mais até 1914 (-4,9%).
– Os efeitos a médio prazo na reorganização da produção e no comércio internacional em termos de localização e tecnologia são importantes. Existem pelo menos três cenários possíveis ainda em aberto: continuação da globalização, mas com base em novos modelos de governança mais receptivos ao multilateralismo e correção das desigualdades entre países; soluções de extensão nacional ou acentuação da regionalização.
– Para a grande maioria da ALC, soluções de âmbito exclusivamente nacional não seriam viáveis por razões de economia de escala, tecnologia e aprendizagem.
– É possível que a melhor solução seja uma nova globalização com uma governança propensa a inclusão e sustentabilidade, mas para participar ativamente dessa nova globalização, a ALC deve estar produtiva, comercial e socialmente integrados. Para fazer isso, a coordenação de nossos países em questões macroeconômicas e produtivas é crucial negociar as condições do novo normal, particularmente em uma dimensão urgente na crise atual e no médio prazo: o financiamento para um novo estilo de desenvolvimento com igualdade e sustentabilidade ambiental.
CEPAL. Dimensionar los efectos del COVID-19 para pensar en la reactivación, 21/04/2020 https://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/45445/1/S2000286_es.pdf
A pandemia, questões de gênero e mulheres nos espaços de poder
O avanço das mulheres na política foi enorme nos últimos 100 anos, mas ainda estamos longe da paridade. Quando houve a pandemia da Gripe Espanhola, em 1918, não existia mulheres nos espaços de poder nacional e internacional, sequer as mulheres podiam votar (a única exceção era a Nova Zelândia que garantiu o direito de voto feminino ainda no final do século XIX). Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, em 1945, as mulheres tinham conquistado o direito de voto em alguns países (no Brasil foi em 1932), mas elas representavam apenas 3% dos assentos das Câmaras de Deputados (no Brasil não havia nenhuma mulher no parlamento). Em 1955, a participação feminina no parlamento atingiu 7,5% na média mundial e 1% no Brasil. Em 1965, o número global passou para 8,1% e no Brasil caiu para 0,5%.
[g1_quote author_name=”Charles Fourier (1772-1837)” author_description=”Filósofo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O grau de emancipação das mulheres é o termômetro através do qual se mede a emancipação de toda a sociedade
[/g1_quote]Em 1975, quando houve a 1ª Conferência Mundial das Mulheres, a média global da participação feminina nos parlamentos foi de 10,9% e no Brasil caiu mais ainda para 0,3%. Em 1985, quando houve a 3ª Conferência Mundial das Mulheres, a média global do sexo feminino nos parlamentos foi de 12,0% e no Brasil de 1,7%. Em 1995, quando houve a 4ª Conferência Mundial das Mulheres, em Beijing, a participação média global das mulheres nos parlamentos foi de 11,6% e do Brasil 6,3% (com a menor diferença entre o mundo e o Brasil).
Na Conferência de Beijing foi aprovada a política de cotas visando implementar ações afirmativas para reduzir as desigualdades de gênero na política. Os resultados foram positivos e a participação feminina nas Câmaras de Deputados passou para 16,2% em 2005, para 22,2% em 2015 e 25,1% em 2020. A participação feminina também cresceu no Brasil, mas em menor ritmo. Em consequência, a diferença entre o mundo e o Brasil aumentou até 2015. Mas os dados de 2020, mostram que a participação feminina na Câmara Federal brasileira atingiu seu maior nível (15%) e até reduziu um pouco a diferença em relação ao resto do mundo, mas está muito distante da meta de paridade no poder (50% para cada sexo). Nota-se, portanto, que o Brasil tem um grande déficit democrático de gênero.
Portanto, a maior percentagem de mulheres na política está, em geral, correlacionada com melhor desempenho econômico e social dos países. Isto fica claro na governança da saúde pública dos países neste período da pandemia de covid-19. Sete países que são liderados por mulheres no poder possuem indicadores de bom desempenho diante da emergência de saúde pública. São elas: Ângela Merkel da Alemanha, Mette Frederiksen da Dinamarca, Erna Solberg da Noruega, Sanna Marin da Finlândia, Katrín Jakobsdóttir da Islândia, Jacinda Ardern da Nova Zelândia e Tsai Ing-wen de Taiwan.
A tabela abaixo mostra que a percentagem de mulheres no parlamento está acima de 30% nos 7 países, mais do dobro dos 15% do Brasil. Em relação à quantidade de pessoas em situação crítica e que constituem casos sérios de saúde, o Brasil tinha 8,3 mil pessoas, número muito maior do que o da Alemanha que tinha 4,8 mil pessoas nesta situação (lembrando que a Alemanha já passou pelo pior e está descendo a curva da pandemia). Mas os outros 6 países possuem uma quantidade muito pequena de pessoas em estado crítico, com destaque para Islândia (apenas 4 casos), Nova Zelândia (3 casos) e Taiwan com zero caso.
Em relação aos óbitos o Brasil só está atrás da Alemanha, mas lembrando que não só a Alemanha, mas estes outros países também estão na fase de descer a curva da pandemia. O indicador de óbitos por milhão, o destaque são a Nova Zelândia e Taiwan com números muito baixos. O Brasil nas próximas semanas (exatamente porque possui muitas pessoas em casos críticos) deve apresentar grande aumento do número de mortes pela covid-19 e provavelmente terá um indicador de óbitos por milhão superior aos países dirigidos por mulheres.
Nestes sete países, que apresentam maior equidade de gênero nos espaços de poder, as mulheres têm mostrado grande capacidade de liderança e governança e bons resultados no gerenciamento da crise, especialmente em relação ao Brasil que está caminhando para números muito preocupantes. Ou seja, a equidade de gênero é não apenas um princípio da democracia e da justiça social, mas também um meio de reduzir o sofrimento da população e um meio para mitigar os efeitos danoso da pandemia.
A pandemia de covid-19 e a violência doméstica
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a pedido do Banco Mundial, produziu a nota técnica “Violência doméstica durante a pandemia de Covid-19”, tratando de uma questão de gênero que afeta o dia a dia dos relacionamentos domésticos. A nota diz que embora a quarentena seja a medida mais segura, necessária e eficaz para minimizar os efeitos diretos da Covid-19, o regime de isolamento tem imposto uma série de consequências não apenas para os sistemas de saúde, mas também para a vida de milhares de mulheres que já viviam em situação de violência doméstica. Sem lugar seguro, elas estão sendo obrigadas a permanecer mais tempo no próprio lar junto a seu agressor, muitas vezes em habitações precárias, com os filhos e vendo sua renda diminuída <http://forumseguranca.org.br/>
Frase do dia 22 de abril de 2020
“O grau de emancipação das mulheres é o termômetro através do qual se mede a emancipação de toda a sociedade”.
Charles Fourier (1772-1837)