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Unesco aponta declínio da liberdade de expressão e aumento da violência contra jornalistas


Entre 2022 e 2025, 186 jornalistas foram mortos enquanto cobriam guerras e zonas de conflito – aumento de 67% em relação ao período 2018/2021


O Relatório Mundial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) sobre Tendências na Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia 2022-2025 revela um declínio de 10% no índice de liberdade de expressão em todo o mundo desde 2012 – “um nível não visto em décadas”, de acordo com a agência da ONU. Durante o período analisado (2022-2025), 186 jornalistas foram mortos enquanto cobriam guerras e zonas de conflito – aumento de 67% em comparação com o período do relatório anterior (2018-2021).
O documento aponta que, somente em 2025, 93 jornalistas foram mortos, dos quais 60 em zonas de conflito, a maioria em Gaza, sob ataque sistemático das forças israelenses desde outubro de 2023. “A liberdade de expressão e de informação não é uma opção: é a própria condição para uma paz duradoura. Diante de um retrocesso histórico, devemos agir em conjunto para proteger e defender o direito de todos de pensar, escrever e informar”, afirmou o diretor-geral da Unesco, o pesquisador egípcio Khaled El-Enany, no lançamento do relatório em dezembro. “A Unesco continuará liderando os esforços globais para fortalecer o pluralismo e garantir que a diversidade não só seja protegida, mas também ativamente promovida”, acrescentou.
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Apesar dos compromissos internacionais para acabar com a impunidade para o assassinato de jornalistas, a responsabilização é rara. Embora tenha havido um progresso modesto — com as taxas de impunidade caindo de 95% em 2012 para 85% em 2024 — a maioria dos agressores ainda permanece impune.
Além do perigo de morte, o relatório destaca que jornalistas enfrentam uma ampla e crescente gama de ataques — físicos, digitais e legais – que forçam esses profissionais a fugirem de suas casas e seus países: de acordo com o relatório, desde 2018, mais de 900 jornalistas, apenas na América Latina e Caribe, foram forçados ao exílio.
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Veja o que já enviamosA Unesco também destaca o aumento do risco para repórteres ambientais: entre 2009 e 2023, foram registrados 749 ataques a jornalistas que cobriam questões ambientais em 89 países, com crescimento acentuado nos últimos anos. Dos 46 assassinatos de jornalistas ambientais contabilizados desde 2010, houve condenações em apenas seis casos. O relatório também aponta que, nas principais plataformas digitais, o número de posts negacionistas da crise climática cresceu entre 24% a 40% de 2021 a 2024.
De acordo com o documento, o assédio online contra jornalistas — particularmente contra mulheres — aumentou “drasticamente” em todo o mundo. O relatório cita nova pesquisa realizada pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) para a ONU Mulheres, em parceria com a Unesco, revelando que 75% das jornalistas e profissionais da mídia sofreram violência online no exercício de suas funções em 2025; em 2020, 73% das mulheres jornalistas haviam recebidos ataques online.
O Relatório sobre Tendências Mundiais em Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia é publicado pela Unesco a cada quatro anos. A edição de 2022-2025, intitulada “Jornalismo: Moldando um Mundo em Paz”, tem como base contribuições, percepções e dados fornecidos por mais de 100 especialistas em liberdade de expressão e desenvolvimento da mídia, e derivados de centenas de fontes acadêmicas e institucionais.
A Unesco alerta para as ameaças a valores básicos como a informação como um bem público e a integridade da informação. “As conclusões revelam que esses valores estão sob uma pressão sem precedentes, ameaçando a capacidade do mundo de atingir a meta 16.10 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – acesso público à informação e liberdades fundamentais – até 2030”, destaca o texto.
Ao destacar que o Índice Global de Liberdade de Expressão caiu 10% nos últimos 10 anos, “um forte indicador de como a liberdade de imprensa está se deteriorando”, o relatório da Unesco também alerta para “o aumento significativo da autocensura entre jornalistas no mesmo período”, com um crescimento de 63%, uma taxa de quase 5% ao ano. “O recente declínio na liberdade de expressão representa uma mudança historicamente significativa e sem precedentes. Contrações comparáveis ocorreram apenas durante períodos extraordinários, incluindo a Primeira Guerra Mundial, a ascensão do autoritarismo até o fim da Segunda Guerra Mundial, e o período de 1963 a 1973, coincidindo com a Guerra Fria”, ressalta o texto.
O documento também mostra dados que revelam essas restrições à liberdade de expressão e de imprensa e as ameaças globais à democracia: 48% de aumento nos esforços de governo para controlar a mídia; 72% da população mundial vive hoje sob regimes não democráticos, maior índice desde 1978; 361 jornalistas foram presos por publicações apenas em 2024.
O relatório alerta ainda que o domínio crescente das grandes empresas de tecnologia – com suas políticas e práticas em constante mudança – criaram um terreno fértil para a disseminação de discursos de ódio e da desinformação online. “Essas dinâmicas afetam diretamente os ecossistemas de informação dos quais dependem grupos vulneráveis, incluindo crianças e adolescentes”, aponta o texto. “Em conjunto, essas pressões políticas, sociais e comerciais estão minando a liberdade de imprensa, a pluralidade e a diversidade. Nos últimos dois anos, a ascensão acelerada da inteligência artificial tem marginalizado ainda mais o valor da mídia”, acrescenta


Liberdade de expressão: tendências positivas e soluções globais
A Unesco aponta ainda que, apesar do declínio global da liberdade de expressão, “progressos significativos estão sendo feitos”, destacando que, entre 2020 e 2025, 1,5 bilhão de pessoas passaram a ter acesso às mídias sociais e às plataformas de mensagens, “ampliando as oportunidades de participação cívica em todo o mundo”.
O relatório também enfatiza o impulso do jornalismo investigativo colaborativo nesse período, com o aumento das investigações transfronteiriças. A Unesco aponta ainda a multiplicação de unidades de checagem de fatos estão nas organizações de mídia e também a aprovação, em muitos países em todo o mundo, de leis que reconhecem a mídia comunitária, “ajudando a salvaguardar uma fonte vital de informações locais confiáveis”, como tendência positivas no cenário da liberdade de expressão e de imprensa.
O Relatório sobre Tendências Mundiais em Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia 2022/2025, de 240 páginas, termina com recomendações aos estados-membros das Nações Unidas para reverter tendências e buscar soluções para enfrentar as ameaças à liberdade de expressão e à segurança dos jornalistas.
As principais recomendações são: 1) Investimento e Proteção ao Jornalismo, a fim de promover sociedades pacíficas, com o reconhecimento da defesa do jornalismo livre e independente como prioridade; 2) Transparência na Esfera Digital, enfatizando a cooperação entre todos os atores, neste ambiente de informação online globalizado, para garantir o acesso transparente à informação, promover a responsabilização e capacitar os usuários a fazer escolhas informadas; e 3) Alfabetização Midiática e Informacional, com ações para ensinar os cidadãos a se engajarem criticamente com a informação e a navegarem com segurança nas plataformas de mídias sociais, bases essenciais para a construção de maior confiança no atual ecossistema de informação.
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Oscar Valporto
Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade







































