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Veja o que já enviamosRio 2026: a prisão de Salvino Oliveira e a favela como “evidência criminal” em ano eleitoral
Ação da polícia contra vereador mostra que a cidadania do favelado é a primeira a ser revogada nos jogos do poder
O texto de hoje não é sobre números, embora o Estado insista em nos transformar neles. É sobre o peso de um endereço e a fragilidade da cidadania quando ela nasce no asfalto quente da favela. A prisão do vereador Salvino Oliveira precisa ser lida para além das manchetes policiais. Estamos em 2026, um ano eleitoral onde a segurança pública vira o “balcão de negócios” de votos, e o corpo negro e favelado é a moeda de troca mais barata para fazer os dados saltarem aos olhos do eleitorado.
Em outubro do ano passado, no bojo da chacina do Alemão e Penha, o governador Cláudio Castro bradou o termo “narcoterrorismo”. Ali, não estava apenas descrevendo um crime; estava calibrando uma arma política. Quando se carimba um território como “terrorista”, retira-se dele o status de cidade e o transforma em campo de batalha. Ali, o direito morre e a presunção de inocência é a primeira vítima.


Essa retórica é o combustível para uma máquina moedora de gente. Segundo dados do Ministério Público (MP), em cinco anos, as polícias realizaram mais de 5 mil ações em comunidades. É uma média assustadora de quase três operações por dia. Onde está o resultado prático para quem vive lá? O que sobra é o trauma, o comércio fechado e a escola sem aula.
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Veja o que já enviamosPara quem usa a segurança como elemento de voto, essa é a engenharia perfeita: subjulga-se o morador como se o CEP fosse um atestado de periculosidade. Ao rotular a favela como ninho de “narcoterroristas”, o Estado justifica prisões como a de Salvino com base em suposições que o asfalto jamais aceitaria para um dos seus.
Salvino é fruto de políticas públicas, um exemplo de ascensão reconhecida. Nasceu e cresceu na Cidade de Deus, comunidade favelada na Zona Oeste da Cidade: foi ambulante, vendeu balas estudou no Pedro II, formou-se em gestão de políticas públicas pela Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Em 2024, com 26 anos, foi eleito vereador no Rio com 27 mil votos pelo PSD, do prefeito Eduardo Paes, depois de ser secretário especial da Juventude no município.
Mas, quando desejos eleitorais maiores entram em jogo, sua história é tratada como fumaça. Se ele veio do território agora sob o selo do “terrorismo”, seu sucesso é lido pelo sistema não como mérito, mas como suspeição.
No Brasil, e especialmente no Rio, nascer pobre em territórios vulneráveis joga você para uma estatística de vida curta. Se você sobrevive e desafia o sistema ocupando uma cadeira no Legislativo Municipal, o sistema tenta te devolver para a grade, seja ela física ou social.
A prisão de um corpo que veio da favela, baseada no estigma de sua origem, não é justiça. É controle social com fins eleitorais. Dos três indícios levantados pela polícia para pedir a prisão de Salvino, dois estão ligados ao fato de ele ter nascido em uma favela e se dizer representante das comunidades.
O estado que executa 5 mil operações em 5 anos é o mesmo que não consegue garantir o direito básico de defesa a quem ousa representar a ponta da pirâmide. O “Estado de Exceção” opera hoje com o cronômetro da campanha eleitoral no bolso. E ainda é março.
Fica para 2026 a pergunta não sobre a culpa de Salvino (que até prova em contrário, é um cidadão pleno), mas sobre um sistema que só enxerga a favela através da mira do fuzil ou da grade da cela. Quando o desejo de poder é maior que o respeito à democracia, a cidadania do favelado é a primeira a ser revogada. Até quando?
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