ODS 1
Pesca com botos: cooperação interespécies vira patrimônio cultural


Iphan reconhece prática de pescadores artesanais e botos-de-Lahille que acontece no litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul


Conhecemos o Jorginho desde os oito anos de idade, quando ele veio pescar conosco pela primeira vez. O pai dele o ensinou bem. Hoje, ele é um dos pescadores que mais presta atenção em nossos movimentos, por isso, sempre sabe quando estamos mostrando uma tainha*.
Jorginho é o apelido de Jorge Rosa, 60 anos de idade e 43 anos como pescador artesanal registrado. Ele é um dos guardiões da pesca com botos, prática tradicional e cooperativa que une pescadores e botos-de-Lahille.
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“A Geraldona, quando está na minha frente, mostra com os olhos que vai mergulhar e vir com o peixe. Ela te olha antes de mostrar um peixe, pula de lado e mostra de bico, faz um carnaval”, descreve Jorginho, sobre a interação que permite localizar os peixes embaixo d’água.
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Veja o que já enviamosGeraldona é o nome dado a uma boto fêmea da Barra do Rio Tramandaí, no litoral norte do Rio Grande do Sul. Segundo o pescador, ela é uma das matriarcas do grupo que habita as águas do estuário que conecta o Rio com o Oceano, em um canal que se sobrepõe aos municípios de Imbé e Tramandaí.
Em março deste ano, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu a pesca com botos como patrimônio cultural e um bem imaterial brasileiro. “Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirma o parecer do órgão.
Ao inscrever a prática no Livro de Saberes, o texto do Iphan destaca a profundidade histórica, a complexidade socioecológica e o valor simbólico e afetivo da pesca com botos. “O boto pra mim é um filho que casou e foi embora. de vez em quando eu vou lá visitar”, descreve Jorginho.
Além da foz do Rio Tramandaí (RS), a pesca com botos acontece no Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, junto à cidade de Laguna. Há registros ocasionais também nos estuários dos Rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC). A prática já é reconhecida como patrimônio imaterial pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), desde 2018.


Projeto Botos da Barra
“Às vezes, o boto pula e a gente fala é só um (peixe), ou é uma tainha grande, é uma tainha pequena, até isso a gente já sabe”, conta Jorge Rosa. Depois que os pescadores jogam as redes ou tarrafas na água, é comum que os botos peguem um dos peixes para si.
Jorginho pontua, porém, que alguns pescadores mais jovens não têm paciência. Logo ao avistar os animais, já lançam as tarrafas, antes mesmo dos botos encontrarem as tainhas. Nesse contexto, nasceu o Projeto Botos da Barra com o objetivo de auxiliar na salvaguardar esse conhecimento tradicional.
A iniciativa está vinculada à rede Gephyreus e ao Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O projeto foi um dos responsáveis por articular a parte técnica e científica necessária para o reconhecimento da pesca com botos pelo Iphan.
“Agora a gente tem força pra lutar contra o esgoto e por outras coisas que estão acontecendo aqui no nosso município e que podem prejudicar os botos. Isso (o reconhecimento) foi a melhor coisa que aconteceu para os botos e para os pescadores”, destaca Jorginho, ao relacionar a certificação da prática com a luta pela defesa do Rio Tramandaí.


Esgoto ameaça botos do Tramandaí
Jorginho, sei que você nos entende e nos conhece: precisamos de ajuda. Não podemos deixar que poluam as águas do Rio Tramandaí. Isso vai acabar com todos os seres que vivem aqui, as tainhas, os botos e os pescadores. Se isso acontecer, não vamos conseguir continuar pescando juntos*.
O esgoto que Jorge menciona é o de um emissário construído pelo Grupo Aegea, empresa que acionou o controle da Corsan (Companhia Riograndense de Saneamento) após a privatização da estatal em 2023.
Entidades ambientais e associações locais denunciam os impactos socioambientais do despejo do esgoto de Xangri-Lá e Capão da Canoa – dois outros municípios do litoral norte do RS – na Barra do Tramandaí. O projeto foi licenciado, mas não passou por um estudo de impacto ambiental (EIA).
A esperança dos moradores de Tramandaí e da região é de que o reconhecimento pelo Iphan aumente a pressão para realização de estudos mais amplos sobre os impactos da instalação do emissário de esgoto na região.
Ao relembrar a infância pelos banhados e lagoas da barra, Jorge se emociona e teme pelo futuro. “Que futuro vão deixar para minha neta de 7 anos que gosta de pescar? E para os filhos de outros pescadores que já estão aprendendo? Não vão ter futuro, não vão pescar, porque não vai ter mais Rio”.
O pescador cita ainda o avanço dos condomínios e outras atividades que também prejudicam a vida dos ribeirinhos. “Estão acabando com os banhados aqui, onde vive ratão, capivara, onde a tainha desova na piracema”, denuncia.
Os botos não podem falar ou participar das audiências públicas, mas Jorginho empresta sua voz para a defesa da espécie companheiro com quem compartilha o Rio, as tainhas e a vida.
*Os trechos com frases atribuídas aos botos da Barra do Tramandaí (RS) foram elaborados por este repórter a partir do relato do pescador Jorge Rosa. Trata-se de um recurso narrativo e de imaginação, utilizado como uma forma de alteridade com humanos e mais-que-humanos (animais, plantas, rios e montanhas).
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Micael Olegário
Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.





































