Dez coisas que todo mundo deveria saber sobre a Groenlândia

Características climáticas, políticas e culturais do país mais visado de todos os tempos da última semana - graças a Donald Trump

Por Observatório do Clima | ODS 13
Publicada em 23 de janeiro de 2026 - 09:57  -  Atualizada em 23 de janeiro de 2026 - 10:05
Tempo de leitura: 9 min

Paisagem gelada de Nuuk, capital da Groenlândia: Donald Trump transformou ilha coberta de gelo, com menos de 60 mil moradores, num dos lugares mais falados do mundo (Foto: Governo da Groenlândia / Divulgação)

(Claudio Angelo*) – Sim, Donald Trump conseguiu transformar uma ilha coberta de gelo, onde moram menos de 60 mil pessoas, num dos lugares mais falados do mundo. O Observatório do Clima aproveitou a deixa para elencar dez curiosidades sobre esse (ainda) gélido território no Ártico que foi o “marco zero” da atual crise climática.

1 – Todo mundo fala em urso polar, mas o negócio lá é cachorro

Embora o urso-polar (nanoq, em groenlandês) seja o símbolo do país, o camarão seja o centro da economia e as focas sejam abatidas aos milhares (mais de 50 mil por ano, segundo o governo local), o bicho onipresente na ilha é o cachorro. O cão de trenó groenlandês, uma variedade local domesticada há milênios, é meio de transporte, ferramenta de caça e animal de estimação (ou seja, pelo menos os groenlandeses Trump não pode acusar de comer cachorro). São 15 mil doguinhos contra menos de 7.000 ursos que frequentam (ninguém os mares em volta da Groenlândia. O número de cães caiu pela metade nos últimos 20 anos, em grande parte por causa da mudança climática, que limitou a possibilidade de jornadas de caça em trenós por causa da redução do gelo marinho.

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2 – O maior município do mundo fica ali

Altamira, no Pará, pode tentar à vontade. Mas seus 160 mil quilômetros quadrados não são páreo para o município groenlandês de Sermersooq, com 532 mil quilômetros quadrados (e exatos 24.229 habitantes), uma área maior que a da Espanha. Cortando a ilha de sudoeste a nordeste, o município de Sermersooq abriga a capital, Nuuk, com 20 mil habitantes, e outros distritos menores e aldeias.

3 – O maior parque nacional terrestre do mundo também

Toda a porção noroeste da Groenlândia é um imenso parque nacional, que tem exatamente esse nome: “Parque Nacional”. São 990 mil quilômetros quadrados, uma área maior que a de Mato Grosso e habitada permanentemente por um punhado de militares.

4 – A origem do nome é uma fake news imobiliária

Oitenta e um por cento do território de 2,2 milhões de quilômetros quadrados da maior ilha do mundo são permanentemente (por enquanto) cobertos por um manto de gelo que ultrapassa os 3 km de espessura em algumas áreas. Mas o nome da ilha, Grønland, significa “terra verde” em escandinavo. A origem remonta ao século 10, quando o islandês Erik, o Vermelho, “descobriu” a ilha (habitada havia milênios por indígenas) e propagandeou seu suposto verdor para fundar ali uma colônia viking. É possível que a Groenlândia fosse mesmo mais verde naquela época, o chamado Período Quente Medieval, quando todo o hemisfério Norte esquentou.

5 – Os americanos já tiveram ideias malucas sobre o território antes

A mais louca delas foi a proposta de criar uma ferrovia debaixo do manto de gelo, atravessando-o de leste a oeste, para transportar mísseis nucleares sem que a União Soviética percebesse. Deu errado porque eles descobriram que o gelo se movimenta. Também foram feitas duas tentativas de comprá-la da Dinamarca, em 1867 e em 1910. Em 1916, os EUA reconheceram a soberania dinamarquesa e pararam de encher o saco, mas desde 1941 mantiveram bases militares na ilha (hoje resta uma, Pituffik, antiga Thule).

6 – Os groenlandeses se autogovernam, mas…

Embora tenha sido desde o século 18 uma colônia dinamarquesa, use a coroa como moeda e tenha suas relações internacionais controladas pela Dinamarca, a Groenlândia mantém autogoverno desde 2009, com um primeiro-ministro e um Parlamento próprios. Os groenlandeses também gerem a própria economia, e sonham com os royalties da mineração para comprar a independência da Dinamarca – que hoje subsidia a população groenlandesa com mais de US$ 1 bilhão por ano. O dinamarquês também é ensinado nas escolas, juntamente com o groenlandês (kalaallisut), língua da família esquimó-aleúte.

Iceberg formado pela geleira de Jakobshavn, na Groenlândia: efeitos do aquecimento global (Foto: Claudio Angelo / OC)
Iceberg formado pela geleira de Jakobshavn, na Groenlândia: efeitos do aquecimento global (Foto: Claudio Angelo / OC)

7 – O aquecimento global “começou” ali

Em 1997, satélites começaram a detectar uma aceleração anormal da geleira de Jakobshavn, no oeste groenlandês (de onde se desprendeu o iceberg que afundou o Titanic). O fenômeno se deveu ao aquecimento anormal das águas do Atlântico e tornou a Groenlândia o “marco zero” da crise climática atual. O derretimento da maioria das grandes geleiras da ilha, que desembocam no mar, está acelerando, despejando bilhões de toneladas de água doce no mar por ano e aumentando o nível dos oceanos. O degelo às vezes é tão repentino que tem provocado terremotos em algumas áreas: a crosta terrestre, pressionada pelo gelo há milhares de anos, de repente se ergue quando o derretimento acontece, causando abalos.

8 – O degelo está facilitando a exploração mineral, mas…

A Autoridade de Mineração da Groenlândia vende o país como “subexplorado, rico em minérios e com uma população pró-mineração”. O degelo e a redução da neve do inverno têm tornado algumas jazidas mais acessíveis, como a mina de prata de Maarmorilik, cujo potencial foi ampliado após o derretimento de parte do manto de gelo. Por outro lado, deslizamentos de terra, que põem as operações de mineração em risco, também estão mais frequentes. A Groenlândia tem a oitava maior jazida de terras raras do mundo e uma mina já em operação. Mas a logística ainda não é simples.

9 – O governo decidiu parar a exploração de petróleo

A Groenlândia tem quase 50 bilhões de barris de potencial offshore, segundo um estudo pioneiro de 2008 do Serviço Geológico dos EUA. O derretimento do gelo marinho torna os campos mais acessíveis e a exploração, mais barata. Em 2014 as primeiras licenças começaram a sair, mas em 2021 o governo groenlandês decidiu parar a expansão e não autorizar mais novos poços. Além das razões ambientais – a ilha não quer produzir a substância que está alterando o clima e acabando com o modo de vida groenlandês –, há a percepção de que os melhores empregos não ficarão com os groenlandeses (mas os impactos ambientais, sim). Alô, Amapá!

10 – A Rússia nunca esteve longe

A alegação de Donald Trump de problemas de segurança no Ártico é uma mentira com um fundo de verdade. Na Guerra Fria, o Ártico era um dos lugares mais vigiados militarmente do planeta, por ser o caminho dos mísseis nucleares americanos para a Rússia e vice-versa. No final do conflito os EUA abandonaram a região, mas a Rússia não: o maior país ártico do mundo continua com forte presença na zona polar e tem planos de transformar a Passagem Nordeste numa rota marítima quando o Oceano Ártico ficar sem gelo no verão. O Canadá, vizinho a oeste da Groenlândia, quer fazer a mesma coisa com a Passagem Noroeste, em seu território. Quanto mais o gelo marinho derreter, maior será a movimentação de navios na zona polar, mas os países do Conselho do Ártico (Canadá, Dinamarca, Noruega, Islândia, Finlândia, Suécia, EUA e Rússia) têm colaborado na região mesmo com conflitos em outras áreas. Ao menos por enquanto, já que Trump não quer cooperar com os vizinhos e Vladimir Putin não tem motivos para fazê-lo.

*Claudio Angelo é jornalista, formado pela Universidade de São Paulo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima e autor de “A espiral da morte – como a humanidade alterou a máquina do clima” e “O silêncio da motosserra – quando o Brasil resolveu salvar a Amazônia”

Observatório do Clima

O Observatório do Clima é uma rede que reúne entidades da sociedade civil para discutir a questão das mudanças climáticas no contexto brasileiro.

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