Aquecimento global no limite: 2025 foi o terceiro ano mais quente da história

Relatório do Copernicus mostra que temperaturas médias globais estão agora cerca de 1,4°C mais altas do que durante a era pré-industrial; últimos 11 anos foram os 11 mais quentes já registrados

Por Oscar Valporto | ODS 13
Publicada em 14 de janeiro de 2026 - 10:59  -  Atualizada em 14 de janeiro de 2026 - 13:29
Tempo de leitura: 10 min

Incêndio destrói casas na Califórnia: com crise climática, 2025 foi o terceiro ano mais quente da história (Foto: Robyn Beck / AFP – 09/01/2025)

O mundo está se aproximando rapidamente- e cada vez mais perigosamente – do limite de aquecimento de 1,5 graus Celsius, que serve como limiar para mudanças climáticas cada vez mais ameaçadoras. As temperaturas médias globais estão agora cerca de 1,4°C mais altas do que durante a era pré-industrial, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira (14/01) pelo programa Copernicus, da União Europeia. Os dados do Copernicus mostram que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, apenas marginalmente (0,01 °C) mais frio que 2023 e 0,13 °C mais frio que 2024 – ainda o ano mais quente da história do planeta.

Leu essa? Crise climática: janeiro de 2025 foi o mais quente já registrado

Os últimos 11 anos foram os 11 mais quentes já registrados. As temperaturas globais dos últimos três anos (2023-2025) apresentaram uma média superior a 1,5 °C acima do nível pré-industrial (1850-1900), o limite estabelecido pelo Acordo de Paris. Esta é a primeira vez que um período de três anos ultrapassa o limite de 1,5 °C. “O fato de os últimos onze anos terem sido os mais quentes já registrados fornece mais evidências da tendência inegável rumo a um clima mais quente. O mundo está se aproximando rapidamente do limite de temperatura de longo prazo estabelecido pelo Acordo de Paris”, afirmou Carlo Buontempo, diretor do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus. “Certamente o nós vamos ultrapassar esse limite; a escolha que temos agora é como gerenciar da melhor forma a inevitável ultrapassagem e suas consequências para as sociedades e os sistemas naturais”, acrescentou.

Os dados atmosféricos de 2025 pintam um quadro claro: a atividade humana continua sendo o principal fator das temperaturas excepcionais que estamos observando. Os gases de efeito estufa na atmosfera aumentaram de forma constante nos últimos 10 anos

Laurence Rouil
Diretora do Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus

A temperatura do ar sobre as áreas terrestres globais foi a segunda mais alta já registrada, enquanto a Antártida registrou sua temperatura anual mais alta já registrada e o Ártico, a segunda mais alta. As conclusões foram divulgadas pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que opera o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S) e o Serviço de Monitoramento da Atmosfera Copernicus (CAMS) em nome da Comissão Europeia. “Este relatório confirma que a Europa e o mundo estão na década mais quente já registrada e que o investimento da Comissão Europeia no programa Copernicus continua sendo crucial. A preparação e a prevenção continuam sendo possíveis, mas somente quando a ação é guiada por evidências científicas robustas”, destacou Florian Pappenberger, diretor-geral do ECMWF no lançamento do relatório.

Outras organizações envolvidas no monitoramento climático global – ECMWF, NASA, NOAA, Met Office do Reino Unido, Berkeley Earth e Organização Meteorológica Mundial (OMM) – coordenaram a divulgação de seus dados. “Como uma organização internacional que serve 35 nações europeias, o ECMWF fornece ciência de ponta para que decisões informadas sejam tomadas e, em última instância, ações sejam implementadas para adaptação às mudanças climáticas, porque cada ano e cada grau contam”, adicionou diretor-geral do ECMWF.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

Em 2025, a temperatura global do ar à superfície estava 1,47 °C acima do nível pré-industrial, após 1,60 °C em 2024, o ano mais quente já registrado. Os cientistas, utilizando diversos métodos, estimam que o nível atual de aquecimento global a longo prazo esteja em torno de 1,4 °C acima do nível pré-industrial. Com base na taxa atual de aquecimento, o limite de 1,5 °C para o aquecimento global a longo prazo estabelecido pelo Acordo de Paris poderá ser atingido até o final desta década – mais de uma década antes do previsto com base na taxa de aquecimento na época da assinatura do acordo.

Recorde de calor no verão de São Paulo: 2025 registrou multiplicação de ondas de calor, incêndios florestais e outros eventos climáticos extremos (Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil - 27/12/2025)
Recorde de calor no verão de São Paulo: 2025 registrou multiplicação de ondas de calor, incêndios florestais e outros eventos climáticos extremos (Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil – 27/12/2025)

Ondas de calor e estresse térmico

De acordo com o relatório do Copernicus, os últimos três anos, de 2023 a 2025, foram excepcionalmente quentes por dois motivos principais. O primeiro fator é o acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, resultante das emissões contínuas e da menor absorção de dióxido de carbono pelos sumidouros naturais. Em segundo lugar, as temperaturas da superfície do mar atingiram níveis excepcionalmente altos em todo o oceano, associadas a um evento El Niño e a outros fatores de variabilidade oceânica, amplificados pelas mudanças climáticas. Outros fatores incluem alterações na quantidade de aerossóis e nuvens baixas, além de variações na circulação atmosférica.

Assim como em 2023 e 2024, uma parcela significativa do globo apresentou temperaturas muito acima da média em 2025. As temperaturas do ar e da superfície do mar nos trópicos foram menores do que em 2023 e 2024, mas ainda muito acima da média em muitas áreas fora dos trópicos. “Os dados atmosféricos de 2025 pintam um quadro claro: a atividade humana continua sendo o principal fator das temperaturas excepcionais que estamos observando. Os gases de efeito estufa na atmosfera aumentaram de forma constante nos últimos 10 anos”, enfatizou Laurence Rouil, diretora do Serviço de Monitoramento da Atmosfera do Copernicus. “Continuaremos monitorando os gases de efeito estufa, aerossóis e outros indicadores atmosféricos para ajudar os tomadores de decisão a entender os riscos das emissões contínuas e a responder de forma eficaz, reforçando as sinergias entre a qualidade do ar e as políticas climáticas. A atmosfera está nos enviando uma mensagem e devemos ouvi-la”, acrescentou.

A análise do Copernicus aponta que as temperaturas tropicais mais baixas em comparação com 2023-2024 foram parcialmente atribuídas à persistência de condições próximas à média ou de La Niña fraca no Pacífico equatorial ao longo de 2025. As temperaturas mais altas dos dois anos anteriores foram parcialmente influenciadas por um forte fernômeno El Niño. O El Niño tende a ter um efeito de aquecimento nas temperaturas globais, sobreposto ao aquecimento global de longo prazo causado pela ação humana, enquanto o La Niña tende a ter o efeito oposto. As temperaturas sobre o Atlântico tropical e o Oceano Índico também foram menos extremas em 2025 do que em 2024.

As temperaturas mais altas nas regiões polares compensaram parcialmente as temperaturas mais baixas observadas nas regiões tropicais durante 2025. As temperaturas médias anuais atingiram seu valor mais alto já registrado na Antártica² e o segundo mais alto no Ártico. Temperaturas anuais recordes também foram observadas em diversas outras regiões, notadamente no Pacífico noroeste e sudoeste, no Atlântico nordeste, no extremo leste e noroeste da Europa e na Ásia central.

O relatório ressalta que as condições excepcionais de 2025 ocorreram em um ano marcado por “eventos extremos notáveis” ​​em muitas regiões, incluindo ondas de calor recordes, tempestades severas na Europa e Ásia, mortes relacionadas ao clima na América do Norte e incêndios florestais na Espanha, Canadá e sul da Califórnia. Os pesquisadores lembraram que esses eventos devem reforçar a crescente atenção pública aos riscos climáticos. “O Copernicus foi criado para fornecer a formuladores de políticas, empresas, acadêmicos e cidadãos na Europa e em todo o mundo informações confiáveis ​​e independentes sobre o clima e a atmosfera para embasar decisões. Os resultados de hoje mostram quanto essa missão se tornou vital”, apontou Mauro Facchini, chefe de Observação da Terra na direção-geral da Indústria de Defesa e Espaço da Comissão Europeia.

O relatório revela ainda que, eEm 2025, metade da área terrestre global experimentou mais dias do que a média com pelo menos forte estresse térmico – definido como sensação térmica de 32°C ou superior. O estresse térmico é reconhecido pela OMS como a principal causa de mortes relacionadas ao clima em todo o mundo. Em áreas com condições secas e frequentemente ventosas, as altas temperaturas também contribuíram para a propagação e intensificação de incêndios florestais excepcionais, que produzem carbono, poluentes atmosféricos tóxicos como material particulado e ozônio, que impactam a saúde humana. Esse foi o caso em partes da Europa – que registrou suas maiores emissões totais anuais de incêndios florestais – e da América do Norte, de acordo com dados do CAMS. Essas emissões degradaram significativamente a qualidade do ar e tiveram impactos potencialmente nocivos à saúde humana em escalas locais e maiores.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *