A moda brasileira estará pronta para assumir a sua parte na redução de emissões de gases de efeito estufa?

Máquina de costura mostra blusa com a mensagem “Nós mudamos a moda” em Hamburgo, na Alemanha / Foto: Jonas Klüter/dpa

Revisão do modelo atual é fundamental para frear aumento da temperatura global aos níveis definidos pelo Acordo de Paris

Por Yamê Reis | ODS 13 • Publicada em 21 de outubro de 2020 - 07:05 • Atualizada em 23 de outubro de 2020 - 12:08

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Máquina de costura mostra blusa com a mensagem “Nós mudamos a moda” em Hamburgo, na Alemanha / Foto: Jonas Klüter/dpa

Nas duas últimas décadas, a indústria da moda experimentou um crescimento sem precedentes. A consolidação do fast fashion como modelo de negócios hegemônico teve como consequência a duplicação da receita global do setor: a indústria emprega mais de 75 milhões de trabalhadores, na sua maioria mulheres, gerando 1 trilhão de euros anuais em receita. E apesar da pandemia de 2020 projeta-se um crescimento de até 7% até 2024. Mas esse crescimento exponencial trouxe também uma preocupação crescente com a sustentabilidade e as consequências ambientais provocadas pelo descarte do excesso de produtos e a fragmentação cada vez maior da cadeia produtiva.

Pesquisa recente publicada pela Global Fashion Agenda atesta que a indústria da moda produziu por volta de 2 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa em 2018, representando 4% do total de emissões globais naquele ano, o equivalente às emissões da França, Grã-Bretanha e Alemanha juntas. Desse total de emissões da moda, 70% vem das atividades industriais desde a produção da matéria-prima até a confecção. Os 30% restantes ficam distribuídos entre as operações do varejo, a vida útil do produto (lavagens) e o descarte. Portanto, se medidas extremas não forem tomadas, as taxas de emissões da indústria tendem a crescer em 2,7% até 2030.

O nível de mudanças necessárias para a reversão desse quadro demanda um forte engajamento de toda a cadeia produtiva. Marcas de moda e fornecedores precisam criar e assumir compromissos com políticas de redução energética e reciclagem no fim da vida útil dos produtos.

E após 2030 o desafio será ainda maior, pois, para limitar a temperatura ao aumento de até 1,5 graus definidos pelo Acordo de Paris, será essencial implementar modelos de negócios circulares e reduzir os de níveis de consumo, o que implica uma revisão total do modelo atual.

Uma boa iniciativa de colaboração para atingir essas metas de mudança foi a criação do Pacto da Moda em 2019 e que já conta com a adesão de 60 grandes marcas globais. Baseado nos princípios da Science Based Targets (SBT), uma instituição que define metas para a Ciência, o Pacto foca suas ações em 3 áreas essenciais:

– Zero emissões de GEE (gases de efeito estufa) até 2050;

– Restauração da biodiversidade e proteção das espécies e ecossistemas naturais;

– Proteção dos oceanos, por exemplo, removendo o uso de plásticos de uso único.

A colaboração entre a indústria e o varejo é fundamental para o alcance desses objetivos, direcionando todo o setor para as estratégias da economia circular de redução da extração de recursos naturais, apoio à inovação, rastreabilidade e transparência, e monitoramento de impacto.

Todos esses aspectos das mudanças necessárias para a regeneração da indústria da moda serão debatidos no Rio Ethical Fashion, o Fórum internacional de Moda Sustentável que fará sua segunda edição de 30 de outubro a 30 de novembro.

Problemas globais demandam soluções globais e muita colaboração. A moda brasileira, uma das mais expressivas da indústria têxtil global, estará pronta para assumir a sua parte na redução de emissões?

 

Yamê Reis

Yamê Reis é a idealizadora do Rio Ethical Fashiom. Atualmente atuando como coordenadora de Design de Moda no IED-Rio, a executiva de moda tem carreira desenvolvida na liderança de projetos com forte impacto no mercado brasileiro, potencializando capacidades criativas e gerando novos negócios em empresas como Cantão, Totem e Le Lis Blanc. Em 2017 fundou a Moda Verde, empresa que atua nas áreas de Educação, Direção Criativa e projetos especiais para Moda Sustentável. Seu objetivo central é colaborar com empresas que desejem contribuir de forma positiva para a construção de uma moda socialmente responsável e com baixo impacto ambiental. Socióloga e fundadora do Partido Verde nos anos 80, Yamê atuou em projetos pioneiros como Amazon Life (1993), produziu e desfilou a primeira coleção feita com tecidos de hemp para sua marca autoral Yamê Reis (1994) e lançou no Fashion Rio o primeiro jeans orgânico nacional, uma parceria do Cantão com o selo NOW (Natural Organic World) (2007).

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