Hotelaria sustentável em tempos de pandemia

Xigera Safari Lodge, em Botsuana: aberto recentemente, é um dos bons exemplos de hotelaria sustentável no continente africano | Foto de divulgação/Great Plains Conservation

Especialistas destacam a importância da conscientização dos viajantes para que hotéis sejam cada vez mais 'verdes' em todo o mundo, inclusive no Brasil

Por Mari Campos | ODS 12 • Publicada em 4 de junho de 2021 - 09:35 • Atualizada em 9 de junho de 2021 - 09:54

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Xigera Safari Lodge, em Botsuana: aberto recentemente, é um dos bons exemplos de hotelaria sustentável no continente africano | Foto de divulgação/Great Plains Conservation

A Organização Mundial do Turismo (OMT) clama, desde 2020, por uma recuperação responsável do setor de viagens, equilibrando as necessidades das pessoas e do planeta para a prosperidade dos negócios. Esse foi o mote da última edição da feira ITB em Berlim, o maior evento de turismo do mundo, realizada virtualmente em março de 2021: “Repensar, regenerar, reiniciar”. Demorou mas, com o crescente número de turistas se preocupando com a sustentabilidade de suas viagens, a hotelaria começou a reagir e se tornar mais sustentável com diversas medidas desenvolvidas globalmente nos últimos anos.

“Sustentabilidade na hotelaria já era uma bandeira no pré-pandemia e uma demanda muito importante na hotelaria de luxo. As pessoas investirão cada vez mais em menos deslocamentos na viagem e mais tempo no mesmo destino, no mesmo hotel. De uma forma geral, percebeu-se que o turismo escalonado reflete em qualidade na experiência de quem viaja e em tranquilidade nos destinos”, diz Simone Scorsato, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), entidade que reúne diversos hotéis e pousadas brasileiros e com a sustentabilidade no turismo como espinha dorsal de suas ações.

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Plástico descartável é um problema para a hotelaria sustentável

Entretanto, a pandemia da covid-19 trouxe um retrocesso significativo para o setor sobretudo no que diz respeito aos plásticos de uso único. Mesmo as poucas redes hoteleiras que tinham já anunciado eliminação total de plástico descartável a partir deste ano ou do ano que vem voltaram atrás em seus cronogramas e postergaram seus planos para 2024 ou 2025.

No Brasil, o problema foi longe: muitos hotéis passaram a utilizar muito mais plástico descartável durante a pandemia. Como se isso conferisse algum tipo de segurança ao hóspede.

“A pandemia tornou necessário o desenvolvimento de protocolos sanitários que incluem a individualização de objetos higienizados. Mas em nenhum momento, em nenhum estudo, recomendou-se que isso fosse feito com plástico”, alerta Simone.

No ano passado, na retomada das atividades da maioria dos hotéis e pousadas brasileiros, muitos passaram a embalar pratos, xícaras, talheres, frutas e até pãezinhos em filme plástico. Redes sociais mostraram casos extremos em que resorts embrulhavam até mesmo garrafas plásticas de água mineral em plástico descartável na hora de deixá-las no frigobar.

“Na hotelaria em geral muita gente vem usando o plástico simplesmente porque é mais fácil. Mas é extremamente necessário retomarmos essa discussão”, diz Simone. “Na BLTA, o uso de plástico é completamente desaprovado e desestimulado. Estamos sempre em cima de boas práticas, que não impactem o meio ambiente e valorizem cultura e legado local para fortalecer a autenticidade brasileira. Um país com tantos biomas, tão diverso como o Brasil, precisa entender que as pequenas ações responsáveis de cada destino, empreendedor, hotel e comunidade devem sempre visar o futuro”, enfatiza.

Hotelaria sustentável: bons exemplos pioneiros

A hotelaria internacional entendeu mais cedo a necessidade de tornar o setor mais sustentável. Da abolição completa dos plásticos à autossuficiência energética, diversos resorts independentes, como as propriedades Soneva, nas Maldivas, e o premiado The Brando, na Polinésia Francesa não só preservam recursos naturais como investem na educação dos hóspedes sobre o papel que cada um tem na conservação do planeta. Foram precursores importantes para diversas iniciativas sustentáveis na hotelaria que vemos hoje.

Muitos lodges de safári africanos também aplicam natural e continuamente o conceito de turismo regenerativo, que, durante a pandemia, ganhou destaque internacional. São há anos exemplos de hotelaria capaz de entender a sustentabilidade como fundamental para a continuidade do negócio, que depende obrigatoriamente de quatro Cs: conservação, comércio, cultura e comunidade. Ou, como define a Organização das Nações Unidas (ONU), do equilíbrio de três pilares: desenvolvimento social, crescimento econômico e preservação ambiental. Afinal, o impacto ambiental e social do turismo realmente sustentável pode deixar os destinos como um todo ainda melhores a médio e longo prazo.

Leão em frente ao novo Xigera Safari Lodge, em Botsuana | Foto de divulgação/Great Plains Conservation

‘Safari camps’ africanos têm boas iniciativas inclusive na pandemia

O selo Preferred Hotels lançou durante a pandemia uma nova marca, a Beyond Green, que promete ter em seu portfólio somente hotéis e resorts independentes comprometidos com o turismo responsável e regenerativo. Como o novo e fotogênico Xigera Safari Lodge, na Botsuana, que andou roubando a cena nas redes sociais no começo deste ano. Os camps de safári da Great Plains Conservation, criados pelo casal sul-africano Beverly e Derek Joubert e presentes em três países africanos diferentes, foram pioneiros. Seu Zarafa Camp, no norte da Botsuana, foi o primeiro lodge de safári 100% autossuficiente energeticamente. Hoje, todas as suas propriedades são abastecidas por energia solar, livres de plástico, promovem turismo com baixo volume e baixo impacto, e cuidam ininterruptamente de suas comunidades e seu entorno.

Todo o lucro dos camps da Great Plains Conservation é obrigatoriamente revertido em ações de conservação e provento para as comunidades locais. No Mara Nyika, no Quênia, uma das propriedades mais novas do grupo, 500 famílias Maasai são inclusive parceiras econômicas da propriedade. Durante a pandemia, redes de camps de safári como a própria Great Plains e a Porini Camps (vencedores em diferentes edições do World Tourism Awards no quesito sustentabilidade) custearam elas mesmos, durante meses sem hóspedes e sem demitir um único funcionário, seguranças 24 horas para afastar contrabandistas e caçadores (que voltaram com tudo em destinos em lockdown) da vida selvagem nos arredores de suas reservas.

Entre as grandes redes hoteleiras, o grupo francês Accor firmou recentemente um acordo com o site de reservas Expedia e a Unesco para promover globalmente o turismo sustentável e introduzir práticas de turismo responsável em 252 hotéis da rede no Brasil. Entre elas estão a interrupção do uso de plástico descartável e a promoção das culturas e economias locais.

Mara Nyika, no Quênia: todo o lucro é revertido em iniciativas para as comunidades locais | Foto de divulgação/Great Plains Conservation

A realidade brasileira

Embora estejamos acompanhado um crescimento importante no segmento hoteleiro brasileiro de unidades preocupadas em serem mais sustentáveis, ainda estamos distantes de ver grande parte do mercado realmente envolvida com isso. No Brasil, os avanços em sustentabilidade no turismo começaram a aparecer há quase de 30 anos, após a Eco-92. Mas, hoje, não temos no país política pública de desenvolvimento sustentável para o turismo. Ainda assim, existem excelentes exemplos de hotelaria sustentável também por aqui e os hóspedes já entenderam que é preciso muito mais do que o aviso nos banheiros para evitar a troca de toalhas.

“No Brasil, o contexto da narrativa política atual não é o que gostaríamos, mas há muitos brasileiros ‘nadando contra a corrente’ e fazendo trabalhos importantes para preservar cultura e diversidade. Temos parceiros excepcionais, como Cristalino Lodge, Comuna do Ibitipoca, Refúgio Caiman e tantos outros”, diz Simon Heyes, proprietário da Senderos, empresa especializada em promover internacionalmente diferentes empreendimentos turísticos sustentáveis, brasileiros e latino-americanos.

Preservação da vegetação nativa e da fauna são algumas das ações da hotelaria nacional

O Cristalino Lodge, na Floresta Amazônica, ocupa uma área de vegetação primária seis vezes maior que o Arquipélago de Fernando de Noronha. Criou a Fundação Cristalino para auxiliar diretamente no desenvolvimento de pesquisas sobre a biodiversidade da Amazônia. O Anavilhanas Jungle Lodge, também na Amazônia, na entrada do Parque Nacional Anavilhanas, fez um projeto tão sustentável que já tinha a licença ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) antes mesmo de começar a obra. Todos os bangalôs e chalés são abastecidos com energia solar, guias não tocam nos animais nem durante as focagens noturnas no Rio Negro e água filtrada é fornecida gratuitamente para os hóspedes. Os funcionários são quase todos oriundos das comunidades vizinhas e a cozinha utiliza ingredientes locais e sazonais no preparo da maioria dos pratos.

A Comuna do Ibitipoca é projeto experimental, socioambiental e turístico em Minas Gerais espalhado por mais de 5 mil hectares de área anteriormente degradada. Hoje, tem 99% do seu espaço em processo de recuperação da flora e fauna nativas da Mata Atlântica.

Etnia, em Trancoso, na Bahia: ações sociais durante a pandemia voltadas para as comunidades locais | Foto de divulgação/Tuca Reinés

Trabalhadores locais e onças-pintadas em primeiro lugar

O Refúgio Ecológico Caiman, que ocupa 53 mil hectares no Pantanal sul-mato-grossense, tem instalações totalmente integradas à natureza local e é parceiro de projetos de conservação importantes como o Onçafari. Idealizado pelo ex-piloto de Fórmula 1 Mário Haberfeld há dez anos, tem como objetivo a preservação do Pantanal através do ecoturismo, com trabalho espelhado nas técnicas utilizadas há mais de 30 anos com leopardos e leões na África para garantir observação sustentável e constante de onças-pintadas.

“Felizmente temos cada vez mais empreendimentos preocupando-se não apenas em preservar a natureza, mas também com as pegadas que sua atividade pode deixar”, diz Mário Haberfeld.

No Sul da Bahia, propriedades como a Mata N’Ativa Pousada e a Etnia Casa Hotel, em Trancoso, e o Maitei, em Arraial D’Ajuda, vêm apoiando diferentes projetos de sustentabilidade no turismo ao longo dos anos, valorizando sempre produtos e prestadores de serviços locais. Durante a pandemia, promoveram ações sociais importantes, garantindo manutenção do quadro de funcionários e fazendo um trabalho intenso junto às comunidades locais para arrecadar e entregar alimentos, evitando o avanço da fome.

Turistas mais conscientes

Alguns especialistas reforçam a importância da consciência do próprio viajante para que a sustentabilidade na hotelaria seja uma realidade no setor de forma mais abrangente. “As iniciativas sustentáveis são mérito da consciência dos empresários do setor. Mas também em boa parte, da demanda dos próprios hóspedes, que estão cada vez mais exigentes”, diz Mário Haberfeld, do Onçasafari.

Muitos hotéis brasileiros sustentáveis encorajam constantemente seus hóspedes a contribuírem com seus esforços de conservação e preservação. Parte da indústria turística acredita que a pandemia vem acelerando esse processo de comprometimento do viajante.

“A maneira como o mercado estava crescendo não era sustentável. Então temos essa oportunidade para mudar e transformar as experiências turísticas”, diz Simon Mayle, diretor de eventos das ILTM Americas e Latin America e da WTM Latin America, três das principais feiras de turismo internacional na América Latina.

A sustentabilidade vem sendo uma preocupação crescente em parte dos viajantes. “É possível que um grupo significativo de turistas brasileiros, tenha, ao longo deste um ano de pandemia, aprendido um pouco mais sobre seu papel nos destinos, e adote conscientemente uma prática de turismo mais sustentável daqui por diante”, diz Mariana Aldrigui, pesquisadora na EACH/USP e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP.

Opções sustentáveis nem sempre são as mais econômicas

Pesquisas recentes do Airbnb e da Booking.com mostram, respectivamente, 51% dos entrevistados afirmando considerar sempre ou frequentemente os aspectos ambientais e de sustentabilidade ao escolher acomodações e destinos para suas viagens e 71% com o intuito de viajar de forma mais sustentável daqui pra frente. Mas, infelizmente, nem sempre o desejo de viagem realmente se converte em ação na hora H. Até porque muitas vezes as opções mais sustentáveis da hotelaria não são as mais econômicas.

“O viajante médio continuará viajando para onde o seu tempo e o seu dinheiro puderem levar”, alerta Ricardo Freire, criador do portal Viaje na Viagem. Mariana Aldrigui concorda: “A priorização de opções mais sustentáveis de turismo acontece quando é possível garantir acesso a condições mínimas de bem-estar em geral. Do contrário estaremos defendendo um conceito impraticável para quem está apenas buscando sobreviver no dia a dia”.

Mari Campos

É jornalista formada e premiada que há 16 anos trabalha como freelancer especializada em turismo, colaborando com diversos jornais, revistas e sites no Brasil e também em outros seis países. Rodando o mundo todo desde sempre, o continente africano é até hoje uma de suas grandes paixões.

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