A pandemia e a vez do investidor com consciência socioambiental

Em debate promovido pelo CEBDS, executivos apontam caminhos para o desenvolvimento sustentável do país pós-crise do covid-19

Por Valquiria Daher | ODS 12 • Publicada em 28 de maio de 2020 - 09:45 • Atualizada em 28 de maio de 2020 - 13:07

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Em Tóquio, painéis mostram os resultados da bolsa durante a pandemia (Foto: Kazuhiro NOGI / AFP)

A pandemia de covid-19 deve acelerar um processo já em curso no qual o investidor preocupado apenas com a dobradinha risco e retorno cede lugar àquele que exige impacto social e ambiental positivo das empresas onde coloca seu dinheiro. A previsão foi feita por executivos, nesta quarta-feira (27/05), no webinar sobre finanças da série de oito encontros virtuais (Re)visão 2050 – planejando o futuro pós-pandemia, promovida pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). O #Colabora é um dos apoiadores da iniciativa e vai acompanhar todos os debates, que pretendem apontar caminhos para a implementação de uma agenda positiva a longo prazo no país.

Esse investidor de impacto pode ser um dos motores para concretizar grandes transformações na forma como se faz negócios. “Tem um papel dos investidores e dos bancos importante nesse ecossistema. Na hora que um grande fundo de investimento desinvestir, tirar a sua posição de uma empresa por conta dos impactos ambientais e sociais, aí sim a gente vai ter uma mensagem. Hoje, por mais que empresas queiram entregar todos os componentes (ambiental, social e de governança), há uma pressão dos investidores pelo resultado econômico do trimestre”, destaca Tânia Consentino, presidente da Microsoft Brasil, uma das participantes do webinar.

O webinar sobre finanças, parte da série de debates sobre o país pós-covid-19 (Reprodução)

Assim como Tânia, Luciano Gurgel, diretor de investimento na Yunus Social, lembra que, no início do ano, Larry Fink, CEO da BlackRock, maior empresa de gerenciamento de investimentos do mundo, fez um alerta, em sua já tradicional carta anual às lideranças empresariais, sobre a urgência de combater as mudanças climáticas. “De um lado, a gente tem a carta de Fink sobre a importância da responsabilidade socioambiental e, por outro, vê a luta por materiais hospitalares para lidar com a covid-19 em pista de pouso na China, com gente oferecendo dinheiro na hora”, diz ele, lembrando também o dilema ético em relação a uma vacina contra o novo coronavírus, quando esta chegar. “Há empresas farmacêuticas que já estão fechando acordos com quem pagar mais. É o velho insistindo em não morrer. De outro lado, existem companhias que já disseram que, se desenvolverem a vacina, será zero lucro. Como atores da propagação dessa nova consciência, cabe a nós nomear essas boas iniciativas para que sejam realidade no cenário pós-crise”, diz Gurgel.

Algo levantado durante a pandemia é que as empresas não são ilhas, não estão isoladas, não há essa perspectiva de pensar no seu negócio de maneira fechada dentro de um aquário

Nabil Kadri

O papel dos investidores para o redirecionamento dos negócios à importância das entregas sociais e ambientais começou a ser discutido a partir da Rio 92, destaca Nabil Kadri, chefe do departamento de meio ambiente e Amazônia do BNDES, que enfatiza a posição de vanguarda do Brasil em relação às chamadas ESG (sigla em inglês para as melhores práticas ambientais, sociais e de governança) nas últimas décadas.

O economista acredita que essas ferramentas já adotadas pelo sistema financeiro, que, segundo ele, tem instrumentos e garantias para os que apresentam práticas mais inclusivas e com menor impacto ambiental, podem usadas também no ambiente corporativo, no trato com fornecedores, distribuidores e clientes. “Assim, é possível estimular aqueles que interagem com a empresa a avançar na agenda social ambiental e de governança. Algo levantado durante a pandemia é que as empresas não são ilhas, não estão isoladas, não há essa perspectiva de pensar no seu negócio de maneira fechada dentro de um aquário. É preciso transbordar as práticas corporativas para o seu ecossistema como um todo.”

Já vimos episódios nos últimos anos no Brasil e no mundo que mostram que o resultado econômico a qualquer custo não é sustentável

Tânia Consentino

E as empresas já são e serão cada vez mais cobradas por seus impactos sociais e ambientais, enfatiza Tania. Corrupção, trabalho análogo ao escravo, exaurir os recursos do planeta e tanto mais não são práticas que os bons resultados financeiros possam apagar nem dos consumidores nem dos funcionários ou dos talentos que estão no mercado. “Já vimos episódios nos últimos anos no Brasil e no mundo que mostram que o resultado econômico a qualquer custo não é sustentável”, argumenta a presidente da Microsoft.

Um dos legados da pandemia é constatar que as crises são frequentes e, logo, outra chegará, seja por vírus, impactos ambientais ou sociais. E como o sistema financeiro e as corporações lidarão com elas? “No futuro espero que os investidores de impacto sejam chamados só de investidores. Precisamos criar anticorpos sociais para que crises dessa proporção possam ser combatidas de forma mais efetiva. Essa crise mostra a fragilidade do nosso sistema imunológico social, que não é pronto para lidar com uma crise como essa. Não é possível fazer isso com mudança climática, concentração de renda, desigualdade… Espero que o processo de tomada de decisão e o universo das finanças tenha tomado esse tipo de consciência com essa crise”, aspira Gurgel, completando: “As empresas deveriam parar de gerar essas doenças autoimunes e mudar de lado, desenvolvendo sistemas de defesa da sociedade.”

Precisamos criar anticorpos sociais para que crises dessa proporção possam ser combatidas de forma mais efetiva. Essa crise mostra a fragilidade do nosso sistema imunológico social

Luciano Gurgel

“Gostaria que o sistema imunológico eliminasse os investidores que não são de impacto”, diz Tânia, pegando carona na paródia sobre a pandemia e destacando a urgência de mudanças: “Não podemos espera 2050, as novas finanças têm que ser amanhã ou em 2030. Há pessoas que não têm acesso à energia elétrica ou à água potável. Combustíveis fósseis seguem recebendo subsídios, e quem trabalha com eficiência energética não consegue aplicar para uma linha de investimento.”

A ampliação do crédito a quem precisa é outra das urgências pós-crise. Para Gurgel, o sistema bancário brasileiro é um dos mais concentrados do mundo com apenas cinco instituições financeiras ficando com 90% dos ativos. “O banco olha para o pequeno empreendedor como se fosse uma casa de penhor. A primeira pergunta é ‘qual a garantia?’ O banco empresta a quem não precisa. Se tenho garantia, pra que preciso ir ao banco?” Para Tânia, outro ponto é a dimensão de gênero. Noventa por cento dos investimentos vão para startups de homens, ela exemplifica.

Marina Grossi, presidente do CEBDS, também vê essa desigualdade: “A falta de acesso ao crédito e a precária digitalização da população em diversos lugares do país, levando em consideração as dimensões continentais do Brasil, são pontos de alerta”, afirma, destacando que 30% dos brasileiros não estão inseridos no sistema bancário e que, de cada 10 sem contas em banco, 6 são mulheres, a maioria negra.

A posição do cidadão, seja ele empresário ou investidor ou com qualquer outro papel na sociedade, nesse caminho da busca por práticas mais sustentáveis também precisa ser revista, na opinião de Leonardo Letelier, CEO da Sitawi Finanças do Bem. “A gente exige que o produto seja mais sustentável, mas vai ao supermercado e compra o mais barato. Queremos políticos e políticas melhores, mas não nos interessamos em participar das discussões políticas. Essa transformação exige maior participação de todos”.

Próximos encontros

A webserie Visão 2050 é uma realização do Cebds, com patrocínio do Itaú, da Vale, apoio da ERM, da KPMG, da SITAWI e apoio de mídia do Colabora. Os webinars podem ser vistos pelo YouTube do CEBDS ou pelo Zoom, onde é possível se inscrever para os próximos encontros aqui.

– 10/06 Alimentos

– 24/6   Energia

– 08/7 Biodiversidade e Florestas

– 22/7 Economia Circular

– 05/8 Cidades

Assista ao encontro completo sobre finanças no vídeo abaixo:

Valquiria Daher

Formada em Jornalismo pela UFF, nasceu em São Paulo, mas cresceu na cidade do Rio de Janeiro. Foi repórter do jornal “O Dia”, ocupou várias funções no “Jornal do Brasil” e foi secretária de redação da revista de divulgação científica “Ciência Hoje”, da SBPC. Passou os últimos anos no jornal “O Globo”, onde se dedicou ao tema da Educação. Editou a Revista “Megazine”, voltada para o público jovem, e a “Revista da TV”. Hoje é Editora do Projeto #Colabora e responsável pela Agência #Colabora Marcas.

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