Jovens negros desenham futuro mais inteligente e inclusivo para o Rio

O Ubuntu_Labe, da Coppe/UFRJ, juntou 30 jovens negros para desenvolver projetos que tornem o Rio mais inclusivo, tecnológico e digno de se viver. Arte Claudio Duarte

Programa da Coppe/UFRJ ajuda a transformar a cidade em um lugar mais seguro, tecnológico e digno para a população preta e parda

Por Agostinho Vieira | ODS 11 • Publicada em 11 de dezembro de 2020 - 09:11 • Atualizada em 16 de dezembro de 2020 - 09:10

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O Ubuntu_Labe, da Coppe/UFRJ, juntou 30 jovens negros para desenvolver projetos que tornem o Rio mais inclusivo, tecnológico e digno de se viver. Arte Claudio Duarte

“O Ubuntu não significa que uma pessoa não se preocupe com o seu progresso pessoal. A questão é: o meu progresso pessoal está a serviço do progresso da minha comunidade? Isso é o mais importante na vida. E se uma pessoa conseguir viver assim, terá atingido algo muito importante e admirável.” A explicação, simples e didática, dada pelo Nobel da Paz Nelson Mandela resume bem o trabalho de 30 jovens negros e pardos que vivem no Rio de Janeiro. Eles fazem parte do programa Ubuntu_Labe, da Coppe/UFRJ, que desenvolve projetos para tornar a cidade mais inclusiva, diversa, tecnológica e, principalmente, digna de se viver.

O projeto começou antes da pandemia, era para ser mais presencial e focado apenas em jovens do Rio. Acabou sendo remoto, digital e incluindo estudantes de outros estados e até de outros países. Na primeira chamada pública foram 168 inscritos. Após meses de trabalho, eles chegaram a nove iniciativas que agora começam a ser apresentadas para os potenciais investidores. Com a participação do professor Matheus Henrique Oliveira, do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, as ações contam com o apoio do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e têm como objetivo desenvolver políticas públicas de igualdade racial na cidade e fortalecer e expandir o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir).

Além do professor Matheus, participam da organização do programa: Christian Basílio, aluno de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social da UFRJ; Joana Ribeiro, facilitadora de processos criativos e colaborativos, Lawrence Duarte, aluno de Biblioteconomia da UFRJ, e Rafael Ramires, aluno de Tecnologias Educacionais na Universidade Estácio de Sá. Christian e Ramires se conheceram em Imbariê, bairro de Caxias, onde vivem. Ali eles desenvolveram o projeto Akangatu – inteligência em Tupi -, para apoiar jovens da região: “Começamos com quatro estudantes e chegamos a doze. Gente que estava parada no tempo, em situação de vulnerabilidade social. A ideia era estimular os estudos, promover rodas de conversar”, explica Ramires, mostrando que o conceito do Ubuntu já estava no sangue.

O Ubuntu_labe, ou U_labe, como eles preferem chamar, começou tentando responder uma pergunta central: “Cidades inteligentes para quem?”. Uma abordagem que discute o espaço de exploração onde vivem os integrantes do programa e tenta tornar mais concreta uma visão de futuro em que haja mais igualdade racial. Outras cinco questões nortearam o trabalho do grupo, ligadas aos temas: Educação Popular, Saúde e Saneamento, Ética e Privacidade Digital, Vida Urbana e, finalmente, Gênero.

Aliás, as questões de gênero, especialmente as que atingem as mulheres negras, estão muito presentes nos nove projetos que estão em andamento. Dois deles tratam especificamente da insegurança que cerca o dia a dia dessas jovens.  O projeto Anas -Alerta Mulher, por exemplo, é um aplicativo que pode ser baixado em qualquer tipo de celular e permitirá às jovens negras se comunicarem rapidamente em caso de assédio e ou qualquer outra ameaça de violência. Incluirá informações sobre os ônibus, metrô e trens da cidade. Ele possibilitará também um contato rápido com autoridades como a Polícia Militar e a Guarda Municipal. Já o SegurasRio é uma plataforma para a construção de redes de segurança, apoio e notificação de formas de combater a violência contra a mulher negra no espaço público. Para isso, o projeto está desenvolvendo um aplicativo que permite a conexão entre mulheres que partilham o mesmo trajeto para o trabalho, a universidade ou qualquer outro local.

Mas qualquer cidade minimamente inteligente precisa incentivar a alimentação saudável. É isso propõem os projetos Asante e Maniva. O primeiro sugere a criação de hortas comunitárias, nas favelas e nas periferias da cidade. Produzindo legumes, frutas e verduras orgânicas que seriam vendidas, prioritariamente, nas comunidades. Junto com a venda dos produtos a ideia é incentivar a disseminação de conhecimentos ancestrais da cultura africana acerca da alimentação saudável. A ideia principal é combater a insegurança alimentar enfrentada pela população preta e periférica do Rio. O primeiro protótipo será lançado no Complexo da Maré.

O Maniva segue na mesma linha. Um aplicativo orientado para conectar produtores locais de alimentos e consumidores em um ambiente urbano. O projeto espera criar um mercado de vendas geolocalizado e mediado por uma moeda digital que ajude os pequenos produtores a venderem seus produtos em rede e a combater a formação de desertos alimentares urbanos.

Fazer o dinheiro da população nega girar é exatamente a proposta da Central Afro. Inspirada no movimento Black Money, dos Estados Unidos, a Central Afro espera ser um portal de intermediação para prestadores de serviços pretos e pardos. Para isso, o objetivo do grupo é desenvolver um portal onde serão mapeados os diversos serviços oferecidos por pessoas pretas na cidade do Rio de Janeiro de forma a facilitar a conexão com os consumidores.

O Tela Preta Tech aposta na formação das mulheres negras de favela. Especialmente na inclusão social e tecnológica dessas pessoas. Este programa tem o objetivo de capacitar mulheres pretas em tecnologias como programação, pacote office e edição de vídeos em um ambiente acolhedor de diálogos e questionamentos. O Projeto Odília foi criado por duas mulheres pretas com o objetivo promover a autonomia da mulher negra, cisgênera ou transgênera, no seu processo de autocuidado e saúde com foco em informação e tecnologia. Desenvolvido como um web-app de informação, acompanhamento e partilha, o Odilia tem a intenção de colocar a saúde da mulher preta em primeiro lugar, de forma acessível e interativa.

O Moja.Dev é um coletivo de desenvolvedores pretos orientado para ampliar o acesso às informações sobre serviços essenciais públicos e autônomos para a população preta e periférica do Rio de Janeiro. O projeto começa a partir do “SUAS na Sua Mão” que se concentra na promoção do acesso a serviços da Assistência Social e dando continuidade com os aplicativos e plataformas sobre os serviços de saúde e de trabalhadores pretos autônomos.

O último dos nove projetos, mas não menos importante é o Cidade Hackeada, que tem o propósito de repensar a cidade a partir do protagonismo dos jovens negros e com uma pegada de cultura e futurismo. Os programas de educação desenvolvidos pela rede buscam misturar elementos da arte de rua com a educação tecnológica de crianças e jovens. Quem estiver interessado em buscar mais informações pode acessar o site do projeto https://ubuntulabe.org/about/ ou a sua página no Instagram: @ubuntulabe. Os investimentos em cada um dos projetos variam entre R$ 50 mil e R$ 250 mil. Muito pouco, considerando o impacto que eles podem ter na cidade e o brilho nos olhos dos jovens desenvolvedores. Afinal de contas, como explicou Mandela, é o progresso pessoal a serviço da comunidade.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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