#RioéRua – Amizade num bar do Leblon

Ao completar 59 anos, Bracarense mantém fórmula de sucesso, no atendimento e nos petiscos, que resistirá à pandemia

Por Oscar Valporto | ods11 • Publicada em 6 de abril de 2020 - 10:00 • Atualizada em 18 de abril de 2020 - 12:56

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Bar Bracarense, quase 60 anos de Leblon: tradição na ocupação das calçadas (Foto: Oscar Valporto)

Nós nascemos no mesmo ano, mas só fomos nos encontrar já adultos, com quase 30 anos, apresentados por um amigo em comum. Foi uma amizade que evoluiu rapidamente: um ano depois já nos encontrávamos quase todas as semanas, apesar de ainda não sermos íntimos. No controle de cartelas de chope do Bracarense, este novo amigo, eu era identificado pelo Dirceu, piloto da chopeira desde sempre, como ‘Barba JB’, porque trabalhava no Jornal do Brasil e tinha uma barba ainda preta. Bares promovem milagres: na virada para década de 1990, a chopeira tinha em volta pilhas e mais pilhas de bolachas, com os nomes embaixo, e quase sempre este controle dava certo. Naqueles tempos, Maraca com Braca era uma rima e uma solução para o melhor programa para a tarde/noite de sábado, quando a clientela lotava o balcão, a calçada e os barris improvisados como mesa no bar do Leblon – cadeiras, não havia.

A parceria foi crescendo e se multiplicando para outras tardes e noites. As bolachas de chope passaram a ser acompanhados pelo meu próprio nome, ganhei direito a tomar a saideira com o botequim já de portas fechadas, Fui ficando íntimo não só do Dirceu, como do Armando, sócio da casa, do Chico (que chegou em 1991), do Vicente, do Haroldo. Frequentava mesas de diferentes rodas de amizade e, mesmo sozinho no balcão, sempre tinha alguém – conhecido ou não – que era companhia para aquela conversa fiada, que os bares produzem. Esse amigo do Leblon foi testemunha do primeiro beijo em Telma, minha amada desde 1997.

Bolinho de camarão e um uísque com a receita de Vinícius: segredos para alimentar uma antiga amizade (Foto: Oscar Valporto)
O clássico bolinho de camarão e um uísque com a receita de Vinícius: segredos para alimentar uma antiga amizade (Foto: Oscar Valporto)

Já referência na boemia, o Bracarense foi ganhando mais fama além das fronteiras cariocas: saiu até no New York Times. Mesas dobráveis foram ocupando a calçada para acomodar a clientela; mesas que viviam todas ocupadas: era preciso ter prestígio no estabelecimento para conseguir sentar logo. Boêmios, entretanto, tendem a ser conservadores. E o Bracarense começou a ser alvo de previsões sombrias, a partir da tragédia do assassinato do Armando, sócio e força vital das noites do bar, em 1997. O Braca não vai sobreviver à ausência do Armando – vaticinaram alguns. O Braca não vai sobreviver à invasão dos paulistas, que passaram a chegar em ônibus de turismo para conhecer o famoso botequim carioca – uma praga que incomodava a muitos.

Os temores voltaram a crescer com o afastamento de Arnaldo Tomé, o seu Tomé, sócio mais antigo, que, com mais de 80 anos no começo do novo século, decidiu deixar a rotina do bar que havia comprado de conterrâneos portugueses de Braga (por isso, ele nasceu Bracarense). O Braca não vai sobreviver às mudanças trazidas pelos herdeiros – previram mais uma vez os pessimistas. Eu estava na Bahia, quando o Chico, garçom estrela da casa, saiu para abrir um concorrente, ali mesmo no Leblon, com a cozinheira Alaíde, quituteira de mão cheia do Bracarense: novas previsões sombrias vieram. Nos oito anos de Salvador, jamais deixei de visitar o amigo do Leblon, praticamente em todo o desembarque no Rio – geralmente uma vez por mês. Dirceu testemunhava que eu era mais frequente do que companheiros de mesa da década de 90.

Este cronista e o tricolor Dirceu separados apenas pelo balcão: mais de 30 anos de parceria (Foto: Oscar Valporto)
Este cronista e o tricolor Dirceu separados apenas pelo balcão: mais de 30 anos de parceria (Foto: Oscar Valporto)

Para mim, a melhor definição dos atrativos de um boteco está na canção de abertura da série Cheer’s, sucesso na década de 1980, e toda passada em um bar de Boston. “Sometimes you want to go/ Where everybody knows your name/ And they’re always glad you came/ You want to be where you can see/ Troubles are all the same/ You want to be where everybody knows your name” (Alguma vezes você quer ir/ onde todos sabem o seu nome/ e estão sempre felizes que você veio/ Você quer estar onde pode ver/ problemas são sempre iguais/ você quer estar onde todos sabem seu nome). É isso: as conversas do balcão vão das dificuldades financeiras às questões de família; das agruras com o time do coração aos conflitos com a chefia; da ausência da pessoa amada ou aos problemas de relacionamento – são todos problemas semelhantes, o seu nunca é realmente pior; no máximo, diferente.

Barriga de porco: novidade no cardápio para fazer subir o colesterol (Foto: Divulgação)
Barriga de porco: novidade no cardápio para fazer subir o colesterol (Foto: Divulgação)

E é ótimo chegar no lugar onde até a nova geração de garçons já sabe o meu nome – apesar de Dirceu, Haroldo, Vicente e Antonio ainda estarem por lá. A clientela mudou um pouco mas o Bracarense segue com a receita simples que alimenta a nossa amizade há 30 anos: serviço atento e atencioso, chope bem tirado – o mais gelado do Rio de acordo com pesquisa do Globo – e, no meu caso, aquele uísque à moda do poeta Vinicius de Moraes (copo curto, gelo até a borda, uísque até o gelo boiar). A qualidade nos quitutes antigos é a mesma – o bolinho de camarão e catupiry em massa de aipim segue imbatível – já que Alaíde pode ter levado a criatividade mas não as receitas. Tem caldinho de feijão, pernil aperitivo e, agora, uma barriga de porco, introduzida pelo Kadu Tomé, da terceira geração dos proprietários: eu não preciso de mais. Mas agora o cardápio inclui até drinks à base de gim.

Bracarense fechado durante a pandemia: mais uma prova de resistência aos 59 anos (Foto: Oscar Valporto)
Bracarense fechado durante a pandemia: mais uma prova de resistência aos 59 anos (Foto: Oscar Valporto)

O Bracarense sobreviveu a todas as previsões sombrias. Sobrevivemos. E, até o começo da pandemia, estava sempre com todas as mesas ocupadas durante a semana e sempre lotado, com gente em pé na calçada no fim de semana.  Tenho certeza que não será essa ausência forçada que nos afastará: amizades boas e longas resistem ao distanciamento e aos percalços da vida. Nesta terça, 7 de abril, o Braca completa 59 anos: não tenho dúvida, que vai sobreviver a este período de portas fechadas e ruas vazias e completar 60 em 2021. Espero que este amigo antigo também.

#RioéRua

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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