Reconhecer e fortalecer as tecnologias sociais do Rio de Janeiro

Do soro caseiro dos anos 1980 às hortas comunitárias do século 21, a cidade tem histórico de iniciativas que criam elos entre inovação e inclusão

Por Henrique Silveira | ArtigoODS 10ODS 11 • Publicada em 4 de abril de 2025 - 08:35 • Atualizada em 4 de abril de 2025 - 08:39

Horta comunitária no Rio de Janeiro tecnologias sociais promovem inclusão social, sustentabilidade, trabalho e renda (Foto: Marco Antonio Rezende / Prefeitura do Rio)

Vivemos num mundo onde a ciência e tecnologia promovem inovações capazes de impulsionar o desenvolvimento das nações. Neste cenário, também devemos destacar a importância da inteligência comunitária na construção de soluções que atendam às necessidades locais. No Rio de Janeiro, as tecnologias sociais emergem como um elo entre inovação e comunidade, promovendo inclusão social, sustentabilidade, trabalho e renda.

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Tecnologias sociais são produtos, técnicas e/ou metodologias, reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representam efetivas soluções de transformação social. Essa definição foi elaborada pela Rede de Tecnologia Social (RTS), criada em 2005 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, Fundação Banco do Brasil, FINEP, Petrobrás, Sebrae, Fórum de Reitores de Universidades entre outros atores relevantes. A RTS foi criada para promover a articulação de diferentes instituições e promover a difusão e a reaplicação em escala de tecnologias sociais.

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Os exemplos de tecnologias sociais são abundantes. Nos anos 1980, a Pastoral da Criança promoveu o uso de soro caseiro, uma mistura simples de água, sal e açúcar, para combater a desidratação causada por diarreias, especialmente entre crianças. Em 1988, o Ministério da Saúde promoveu uma campanha nacional para recomendar a utilização do soro caseiro.

O Rio de Janeiro possui tradição na construção de tecnologias sociais, muitas das quais foram gestadas na confluência entre as favelas, movimentos sociais, ONGs e universidades. Nos anos 1990, iniciativas como Viva Rio, Ação da Cidadania, AfroReggae e CUFA (Central Única das Favelas) emergiram na cena pública promovendo ações e soluções para violência urbana, a pobreza e falta de oportunidades para as juventudes.

A Incubadora Tecnológica de Cooperativa Populares (ITCP), da COPPE/UFRJ, e a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) possuem histórico de articulação dos conhecimentos acadêmicos e populares na construção de empreendimentos econômicos solidários e de tecnologias sociais para a saúde pública e o desenvolvimento local.

Foi no chão da pobreza que os pré-vestibulares comunitários foram criados, tecnologia social que colocou milhares de cariocas pobres na universidade. Esse movimento, articulado com política de cotas, mudou a face das universidades nos anos 2000, tornando-as mais populares e democráticas. Muitos desses jovens universitários voltaram para suas comunidades com o compromisso de melhorar a vida da população e acabaram criando uma nova geração de tecnologias sociais, com organizações como Observatório de Favelas, Redes da Maré, Agência de Redes para a Juventude, Circo Crescer e Viver, Casa Fluminense, Fogo Cruzado, entre inúmeras outras.

É notório que a sociedade civil desempenha um papel crucial na produção e disseminação de tecnologias sociais no Rio de Janeiro, gerando soluções adaptadas às realidades de cada território. Reconhecer essas iniciativas e apoiar a replicação daquelas mais exitosas são tarefas fundamentais para o desenvolvimento da cidade.

Atualmente, a Fundação Banco do Brasil é a principal instituição que atua na promoção das tecnologias sociais. Um de seus projetos é o Banco de Tecnologias Sociais, que certificou 767 iniciativas de transformação social no Brasil ao longo de mais de 20 anos. Deste total, 69 Tecnologias Sociais certificadas possuem origem no Rio de Janeiro. Muitas dessas tecnologias já foram incorporadas como políticas públicas pela prefeitura, como o Circuito Carioca de Feiras Orgânicas, as ciclorrotas do Centro da cidade, as Hortas Comunitárias e as Ações Locais de Cultura.

A nível federal, o Governo Lula 3 vem promovendo o fortalecimento das tecnologias sociais no Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Uma das propostas da 5° Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em 2024, foi a criação de um Programa Nacional de Tecnologia Social. Além disso, tramita no Congresso Nacional o PL 3.329/2015 que dispõe sobre a Política Nacional de Tecnologia Social. Essas ações representam um marco institucional para o reconhecimento e replicação de iniciativas populares capazes de promover inclusão, sustentabilidade e geração de renda em todo Brasil.

A Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação da cidade do Rio de Janeiro está desenvolvendo sua estratégia de tecnologia social e duas iniciativas merecem destaque. A primeira é o reposicionamento das Naves do Conhecimento como Aceleradora de Tecnologias Sociais, oferecendo capacitações e disponibilizando sua infraestrutura de coworking, estúdio de podcast, gravação de vídeo e laboratórios para apoiar coletivos locais.

A segunda iniciativa é a criação da Rede Carioca de Tecnologia Social, que possui o objetivo de reconhecer e apoiar tecnologias sociais que promovam inclusão, sustentabilidade e geração de renda, fortalecendo o ecossistema de inovação social do Rio de Janeiro. Entre as ações que serão desenvolvidas estão o mapeamento das tecnologias
sociais da cidade, elaboração de formas de apoio, difusão das melhores práticas e elaboração de um arcabouço legal alinhado com a política nacional.

O caminho para um futuro mais inclusivo e sustentável passa pela valorização das tecnologias sociais e pela força da inteligência comunitária. No Rio de Janeiro, vemos que a união entre o poder público e a sociedade civil pode gerar mudanças significativas e duradouras. Por isso, devemos continuar a fomentar essa cultura de cooperação e inovação social para todos os cidadãos do Rio de Janeiro e do Brasil.

Henrique Silveira

Henrique Silveira é geógrafo, com mestrado em Cultura e Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e subsecretário de Tecnologias Sociais, na Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação da Prefeitura do Rio de Janeiro. Foi fundador e coordenador-geral da Casa Fluminense

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