Raízes do Carnaval: quatro personalidades da maior festa popular brasileira

Carnaval 2025: websérie conta as histórias de Xica Manicongo, Dona Nicolina, Paulo da Portela e Mãe Hilda Jitolú

Por Micael Olegário | ODS 11 • Publicada em 28 de fevereiro de 2025 - 09:41 • Atualizada em 28 de fevereiro de 2025 - 11:57

Raízes do Carnaval: episódios contam histórias de pessoas que ajudaram a construir o legado da maior festa popular brasileira (Arte: Pablo Candeia)

Quais são as raízes do carnaval? A maior festa popular brasileira é cultura, memória e ancestralidade. Feita de gente, de alegria e de confluência. A origem da celebração pode até estar ligada às tradições cristãs e europeias, mas é nas Américas que o carnaval ganha ritmos, cores e diversidade. De Norte a Sul do Brasil, as festividades também são fruto da resistência afro-brasileira, por meio da luta de diferentes personagens.

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Para celebrar as histórias de quem ajudou a transformar o carnaval brasileiro em uma das maiores festas populares do mundo, o #Colabora criou a websérie “Raízes do Carnaval”. Com roteiros produzidos por Ana Carolina Ferreira, direção de Allana Gama e apresentação de Aydano André Motta, a websérie conta a história de personagens que marcaram época no carnaval do Rio de Janeiro, de Salvador e de Porto Alegre.

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Mãe Hilda Jitolú: matriarca do Ilê Aiyê

O carnaval de Salvador não seria o mesmo sem Mãe Hilda Jitolu. Ialorixá do Acé Jitolú — um dos mais tradicionais terreiros de candomblé da capital baiana — ela é reconhecida por ser a matriarca do Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do carnaval de Salvador. Nos anos 1970, durante a ditadura militar, as pessoas negras eram impedidas de participar dos blocos e desfiles. Esse foi o contexto que levou à criação do Ilê Aiyê, por iniciativas dos filhos de Mãe Hilda.

A líder religiosa deu corpo ao movimento para fazer com que a arte, a música e as tradições do povo preto ganhassem espaço no carnaval da cidade com o maior número de afrodescendentes do Brasil. No Ilê Aiyê, Mãe Hilda abria os cortejos, resistindo ao racismo e contribuindo para a construção da cultura afro-brasileira. No aniversário de 50 anos do bloco, a jornalista Júlia Moa contou parte da personagem e de seu protagonismo feminino.

Neta de escravizados, Mãe Hilda nasceu em 1923 no bairro Curuzu e, além de suas contribuições para o bloco afro, também lutou pela implementação da educação básica para meninas e mulheres, o que a levou a receber o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 2005. A história de Mãe Hilda — falecida em 19 de setembro de 2009 — também é contada no livro “Mãe da Liberdade: A trajetória da Ialorixá Hilda Jitolú, matriarca do Ilê Aiyê”, escrito pela jornalista Valéria Lima, neta da Ialorixá e diretora-executiva do Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolu.

Xica Manicongo: considerada a primeira travesti do Brasil

“Quem tem medo de Xica Manicongo?” é o tema do enredo do Carnaval 2025 da Paraíso do Tuiuti. A escola de samba homenageia Xica Manicongo, considerada a primeira travesti da história do Brasil e personagem do segundo episódio da websérie Raízes do Carnaval. Nascida no Congo no século XVI, ela foi sequestrada e trazida para ser escravizada no Brasil.

Xica Manicongo viveu em Salvador em uma época que as pessoas trans e travestis eram ainda mais perseguidas e, por isso, foi acusada de sodomia pela Inquisição da Igreja Católica. Após ter sua identidade criminalizada, Xica foi obrigada a se vestir com roupas masculinas até sua morte, sendo chamada de “Francisco Manicongo”. A identidade de gênero de Xica só foi reconhecida graças ao trabalho e a pesquisa da ativista negra travesti Majorie Marchi, responsável por resgatar e rebatizar a personagem histórica.

O enredo que recorda a história da primeira travesti do Brasil foi desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, com samba-enredo de Claudio Russo e Gustavo Clarão. A letra cita os assassinatos de pessoas LGBT+ no Brasil e exalta a resistência de pessoas trans e travestis. “Eu, travesti. Estou no cruzo da esquina. Pra enfrentar a chacina. Que assim se faça. Meu Tuiuti. Que o Brasil da terra plana. Tenha consciência humana”, diz o samba-enredo. 

Paulo da Portela: sambista pioneiro do carnaval do Rio

Paulo Benjamim de Oliveira, mais conhecido como Paulo da Portela, foi um sambista e compositor responsável pelo primeiro samba de enredo da história do carnaval e por fundar a escola de samba mais antiga ainda em atividade no Brasil, a Portela. Nascido no Bairro de Oswaldo Cruz em 1901, ele também ficou reconhecido por defender a valorização do movimento sambista no país.

Em 1922, Paulo foi um dos fundadores do Conjunto Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz, depois denominado de Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela. Entre suas composições mais famosas estão: “Cocorocó”, com a Velha Guarda da Portela, “Cantar para não chorar”, composição junto de Heitor dos Prazeres, com a Velha Guarda da Portela, “Pam pam pam pam”, com Elza Soares, entre outros.

Paulo da Portela também foi responsável por levar o samba para o exterior, primeiro em viagem ao Uruguai e depois nos Estados Unidos. Pouco depois, desentendimentos entre eles e outros dirigentes o fizeram romper com a Portela. Após sua morte em 1949, outros artistas, como Paulinho da Viola e Monarco, gravaram alguns de seus sambas mais populares.

Dona Nicolina: referência do carnaval de Porto Alegre

O último episódio da websérie Raízes do Carnaval mergulha na história de Dona Nicolina, reconhecida como a baiana mais antiga em atividade no carnaval da capital gaúcha, No último dia 18 de fevereiro, Nicolina Franco Gonçalves da Silva completou 94 anos, grande parte deles dedicados ao carnaval de Porto Alegre e sua escola, Unidos de Vila Isabel, de Viamão – homônima da carioca.

Dona Nicolina tem no samba uma herança ancestral, seus pais eram donos de um salão de baile em Rio Pardo, município do interior do Rio Grande do Sul. Na adolescência, mudou-se para Porto Alegre e se viu nas primeiras escolas do carnaval de Porto Alegre, ainda na década de 1960. Desde então, começou a participar de todos os desfiles e folias.

“Eu me realizo vestida de baiana”, afirma Dona Nicolina, em entrevista concedida para o Nonada Jornalismo. Devido a um problema de saúde nas pernas, desde 2019 ela não pode mais desfilar, passou então a ser homenageada como destaque da Unidos da Vila Isabel, inspiração e símbolo de alegria do carnaval local.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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