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O artista e o império, uma história sempre mal contada

Exposição em Londres analisa a complexa relação entre arte, propaganda e poder


Uma das principais telas em exposição, pintada por Elizabeth Butler, em 1842, retrata o único sobrevivente de um massacre ocorrido no Afeganistão no século 19
Uma das principais telas em exposição, pintada por Elizabeth Butler, em 1842, retrata o único sobrevivente de um massacre ocorrido no Afeganistão no século 19

Examinar a história de um império – o maior que já existiu – sem sucumbir ao patriotismo ou versões romantizadas de batalhas heroicas não é uma tarefa banal. Quando o passado envolve guerras, invasões e escravidão, refletir sobre ele é tarefa que nem todos os museus estão prontos para encarar de forma profunda. Uma exposição em cartaz na Tate Britain, em Londres, quebra esse tabu. “Artist and Empire” (Artista e Império), uma das principais atrações deste inverno no circuito das mostras na capital britânica, é uma aula sobre a relação entre arte e poder, ou melhor, sobre como artistas ajudam a escrever a História e podem servir como uma arma poderosa de propaganda do Estado.

"Bakshiram", de 1886, retrato de artesão indiano pintado por Rudolf Swoboda
“Bakshiram”, de 1886, retrato de artesão indiano pintado por Rudolf Swoboda

A exposição reúne mais de 200 peças que reconstroem a trajetória do império britânico – uma potência que chegou a controlar, em seu auge, um quarto do mundo, até desaparecer na segunda metade do século 20 – espelhando a expansão colonial pela África, América do Norte, Caribe e Ásia durante 400 anos. Muitas das obras, entre pinturas, desenhos, fotos e esculturas, estavam esquecidas em museus militares sem importância, desde que as antigas colônias britânicas começaram a se tornar independentes, a partir dos anos 40. Algumas – representantes de um gênero artístico totalmente ultrapassado nos dias atuais – viraram motivo de polêmica em décadas mais recentes, quando o colonialismo passou a ser questionado, e foram tiradas das vistas do público. Resgatá-las e juntá-las numa única exposição, coisa que surpreendentemente nunca foi feita desde que o império britânico deixou de existir, exige contextualizar uma trajetória que não foi pavimentada apenas de conquistas gloriosas e desenvolvimento, como preferem os livros tradicionais de história, mas também de violência e apropriações. A inédita mostra da Tate não tem o objetivo de discutir se os tempos imperiais foram bons ou ruins, e sim de analisar a herança artística desse período da história britânica. É, além disso, um programa que estimula reflexões sobre o presente.

A exposição começa com mapas que desenhavam o mundo desde o século 16 de acordo com a visão ocidental, apagando fronteiras e impondo novos nomes a terras que iam sendo conquistadas pelos navegadores e comerciantes britânicos, a começar pela Irlanda. Eram, claro, documentos geográficos essenciais em outras eras, mas também ideológicos.

A conquista das colônias britânicas, entre batalhas e acordos comerciais, foi retratada por pintores de diferentes séculos de forma triunfante e sempre protagonizada por homens brancos em atos heróicos. A arte servia à narrativa imperialista. É importante, portanto, a iniciativa da Tate de recuperar essas obras e propor que sejam observadas agora com outros olhos, deixando claro como telas históricas ajudaram a construir o mito do grande império britânico.

“Embora aparentemente objetivo, com alguns quadros que se apresentam como relatos de testemunhas oculares, pinturas históricas foram cuidadosamente produzidas para ganhar a simpatia do público ao Império. Apenas alguns sugerem as convulsões sociais e relações de poder desiguais que a retórica do Império procurava encobrir”, explica o catálogo. Mais tarde, quando a fotografia foi inventada, imagens captadas por britânicos serviram ao mesmo propósito.

Foto do século 19 (autor desconhecido) mostra um nativo de Fiji, antiga colônia britânica.
Foto do século 19 (autor desconhecido) mostra um nativo de Fiji, antiga colônia britânica.

Uma das principais telas em exposição, pintada por Elizabeth Butler em 1842, retrata o único sobrevivente de um massacre ocorrido no Afeganistão no século 19, durante a guerra anglo-afegã. Só um militar inglês conseguiu escapar com vida num exército de 4.500 homens obrigados a se retirar de Kabul. O icônico quadro, propagado como uma ode à resistência imperial, sempre pertenceu à Tate, mas há mais de meio século – quando ficou claro que poderia ser compreendido como o retrato de uma operação militar desastrosa para os britânicos – estava longe dos olhos do público, emprestado para outra instituição. A pintura de Lady Butler, intitulada “The Remnants of an Army” (Remanescentes de um Exército) foi restaurada e agora, sem dúvida, provoca um olhar crítico sobre a tragédia da guerra num país que continua a desafiar tropas estrangeiras, entre elas as enviadas pelo Reino Unido. A mesma derrota foi pintada por Williams Burns Wollen, que retratou os sobreviventes do último regimento cercados pelos afegãos, enfrentando a morte iminente de forma heroica. Hoje, cartões postais que reproduzem a obra de uma outra era circulam nas convulsionadas ruas de Kabul como símbolo da propaganda antiocidental.

Uma série de retratos pintados pelo artista australiano Rudolf Swoboda, por encomenda da rainha Vitória, também ganharam destaque na Tate. Um ceramista que foi convidado a demonstrar sua arte para a rainha no castelo de Windsor, em 1886, posou para Swoboda com seu turbante laranja. Era apenas um retrato etnográfico, como tantos outros feitos na época, mas agora, como ressaltam os curadores da exposição, o quadro tem um outro significado. O ceramista, Bakshiram, na verdade um prisioneiro em Agra (Norte da Índia), tem um olhar de dignidade e desafio, e não de submissão. O que antes era apresentado como exótico – como importantes figuras políticas europeias vestindo trajes típicos das colônias – hoje nos faz pensar em diferenças culturais menosprezadas.

Retrato do capitão Colin Mackenzie (1842), vestido com roupas afegãs. Óleo sobre tela de James Sant (1820-1916).
Retrato do capitão Colin Mackenzie (1842), vestido com roupas afegãs. Óleo de James Sant (1820-1916).

Nas últimas salas da mostra, dedicadas à arte contemporânea, a exposição reúne obras que, finalmente, contestaram a ideologia imperialista, assinadas tanto por artistas britânicos quanto por autores vindos de terras já ocupadas por colonizadores, como Nigéria e Bangladesh. Sutilmente, a iniciativa da Tate Britain – que vem recebendo aplausos da maior parte dos críticos – questiona ainda o papel dos grandes museus, que tendem a reproduzir apenas uma visão da História, sem debater, por exemplo, como as coleções não-ocidentais foram parar em seu acervo e como foram catalogadas.

“Artist and Empire” está longe de ser a atração mais divertida da inesgotável lista de entretenimentos de Londres nesta época do ano e, por isso, talvez passe desapercebida por quem planeja visitar a cidade no inverno. Mas, para os britânicos, vem sendo vista como uma seleção necessária para evitar que mitos sejam perpetuados, reforçando o papel do museu como polo de reflexão. “A incapacidade da Grã-Bretanha em aceitar o legado controverso do Império tem sido corrosiva. Localmente, tem contribuído para uma ignorância profunda e duradoura. O conhecimento da história real do Império é desigualmente distribuído em todo o mundo. Descendentes das vítimas de injustiças passadas estão muitas vezes mais familiarizados com os sangrentos anais do governo colonial do que os súditos britânicos, isolados com segurança, em casa, de qualquer exposição aos detalhes violentos de conquistas e expropriações”, escreveu no catálogo da exposição o professor de Literatura Inglesa e Americana Paul Gilroy, do King’s College de Londres.

Entwined, colagem das irmãs Singh, de origem indiana, que mistura a estética da pintura em miniatura da Índia com elementos pop
Entwined, colagem das irmãs Singh, de origem indiana, que mistura a estética da pintura em miniatura da Índia com elementos pop

Escrito por Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King's College.

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