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Na Glória, uma taberna que parece ter perdido a memória

Bar-restaurante frequentado por Noel Rosa e Mário de Andrade e encharcado de história caminha para o centenário sem reverenciar seu passado

ODS 11 • Publicada em 17 de março de 2026 - 09:10 • Atualizada em 17 de março de 2026 - 09:54

Bares e restaurantes, em geral, gostam de ostentar sua história e sua glória com placas com a data de fundação na fachada, a manutenção de características, das opções do cardápio à arquitetura e à decoração, a exibição de fotos antigas do lugar e seus frequentadores. Poucos lugares no Rio de Janeiro foram palcos de tantas histórias envolvendo personagens famosos como a Taberna da Glória, inaugurada em 1930 em bairro vizinho ao Centro do Rio, numa época em que ficava estrategicamente localizada entre a efervescência da Lapa e o Palácio do Catete, sede da Presidência da República e próxima também ainda das sedes da Câmara, do Senado, do STF e de todos os órgãos federais concentrados no Centro. Mas poucos lugares do Rio com tanta história preservam tão pouco sua memória como a Taberna da Glória.

Numa mesa do bar, numa madrugada de 1932, que o já então famoso compositor Noel Rosa selou sua amizade com uma jovem cantora de 18 anos, que acabara de ouvir nos estúdios da Rádio Educadora: Aracy de Almeida se tornaria companheira de boemia do bardo da Vila, intérprete de seus sambas, e a maior divulgadora de sua obra. A Taberna da Glória, já nos seus primórdios, recebia alguns craques da música brasileira: os estúdios das emissoras do começo da nossa era do rádio ficavam no vizinho Centro e pelas mesas do bar e restaurante – no salão e na calçada – passavam Pixinguinha, Orlando Silva, Francisco Alves, Ismael Silva, Cartola.

A Taberna da Glória na década de 1960: durante décadas ponto de encontro de craques da música e da literatura (Foto: Reprodução / Correio da Manhã)
A Taberna da Glória na década de 1960: durante décadas ponto de encontro de craques da música e da literatura (Foto: Reprodução / Correio da Manhã)

Noel Rosa morreu em 1937, mas Aracy de Almeida seguiu frequentando as madrugadas da taberna. “Ele era muito matusquela. Bebia pra cacete”. A frase é de Aracy, que tinha o hábito de chamar muita gente, quase sempre carinhosamente, de matusquela (indivíduo meio maluco, sem juízo, que não regula da cabeça, segundo o Dicionário Aulete). E o personagem em questão é o escritor Mário de Andrade, fundador do modernismo, autor de Pauliceia Desvairada, marco da moderna poesia brasileira, que frequentou o mesmo bar.

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O paulista Mário de Andrade morou três anos no Rio entre 1938 e 1941 – de dia dava expediente no Instituto Nacional do Livro e na então Universidade do Distrito Federal; à noite e pela madrugada, batia ponto na Taberna da Glória. Comandava sempre uma grande mesa, onde se reuniam jovens escritores – Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Guilherme Figueiredo, Pedro Nava, também seu médico e amigo, e Carlos Drummond de Andrade. Também frequentavam a mesa de Mário, os jovens jornalistas Carlos Lacerda, Lucio Rangel e Moacyr Werneck de Castro, o teatrólogo Pascoal Carlos Magno, os atores Procópio Ferreira e Grande Otelo.

A Taberna da Glória sitiada pelas obras do Metrô em 1972: fechamento abalou a vida cultural da cidade (Foto: Reprodução / Jornal do Brasil)
A Taberna da Glória sitiada pelas obras do Metrô em 1972: fechamento abalou a vida cultural da cidade (Foto: Reprodução / Jornal do Brasil)

Muitas destas noites acabavam em cantoria porque, desde então, a Taberna da Glória tinha tradição de abrigar a música: de pequenos conjuntos musicais a rodas de samba se exibiam em um tablado. E Mário de Andrade – além de poeta, contista, cronista e romancista – era musicólogo, com obras sobre a música brasileira. O depois famoso maestro Guerra Peixe, arranjador e violonista, começou sua carreira num trio que se apresentava no bar ainda nos anos 30. Histórias sobre a era do rádio nos anos 1940 e 1950 acabavam nas mesas ou nas rodas de samba da Taberna da Glória – histórias que tinham como protagonistas Nelson Gonçalves, Geraldo Pereira, Cyro Monteiro, Lamartine Babo, Ary Barroso, Elizeth Cardoso, Vinícius de Moraes.

Em uma roda de samba, no dia 15 de agosto de 1963, o produtor, compositor e poeta Hermínio Bello de Carvalho ouviu Clementina de Jesus, a quem lançaria para o sucesso: uma carreira de cantora iniciada aos 62 anos de idade. Com toda essa história, houve comoção na vida cultural carioca, quando foi anunciado no começo dos anos 1970 que a Taberna da Glória, instalada no térreo de um sobrado de três andares, “com um imenso balcão de mármore rosa e largas janelas”, na descrição de Hermínio, seria demolido para as obras do metrô.

A Taberna da Glória no Século 21: placa escondida ao lado da porta com registros mais conhecidos da história é a única reverência à memória gloriosa da casa (Foto: Oscar Valporto)
A Taberna da Glória no Século 21: placa escondida ao lado da porta com registros mais conhecidos da história é a única reverência à memória gloriosa da casa (Foto: Oscar Valporto)

O Jornal do Brasil acompanhou a última noite da Taberna da Glória, lotada após o anúncio da distribuição gratuita de chope pela Brahma, no dia 15 de dezembro de 1972: estiveram lá antigo frequentadores como o compositor Braguinha (João de Barros), Pascoal Carlos Magno, o jornalista Prudente de Moraes Neto e a própria Clementina de Jesus; e também a então ‘nova’ geração de frequentadores como o agitador cultural Albino Pinheiro, fundador da Banda de Ipanema, o humorista e escritor Millôr Fernandes, o cantor e compositor Paulinho da Viola. O Museu da Imagem e do Som (MIS) fez gravações de depoimentos naquela noite, conduzidas pelo jornalista Nelson Motta.

Após o fim das obras, a Taberna da Glória bem perto de sua localização anterior, aos pés do outeiro da Igreja de Nossa Senhora da Glória, em 1979, e lá está até hoje. Mas quem entra no amplo salão ou estaciona nas mesas na calçada dificilmente conseguirá imaginar a história que passou por ali. Há um placa discreta perto da entrada que lembra o porre de Noel e Aracy e a descoberta de Clementina por Hermínio. Há fotos antigas do bairro da Glória no salão, mas não da antiga taberna (que estão à disposição nos arquivos dos jornais). Nada que lembre o grande Mário de Andrade, no seu segundo lar nos anos de exílio no Rio; nada nas paredes sobre outros frequentadores ilustres, sobre Guerra Peixe e seu violino ou Nelson Cavaquinho e seu violão; nada sobre Madame Satã, Grande Otelo ou Ibrahim Sued, todos personagens das reportagens do Jornal do Brasil na época do fechamento.

O salão da Taberna da Glória em 2026: fotos do Hotel Glória e dos Arcos da Lapa, mas nada para reverenciar a história do bar e de seus frequentadores (Foto: Oscar Valporto)
O salão da Taberna da Glória em 2026: fotos do Hotel Glória e dos Arcos da Lapa, mas nada para reverenciar a história do bar e de seus frequentadores (Foto: Oscar Valporto)

Na presença digital da Taberna, na internet ou nas redes sociais, são repetidas as passagens famosas (Noel e Aracy, Hermínio e Clementina) como propaganda pobre da história de um lugar que não cultiva seu passado.  No Século 21, no bar-restaurante da Glória, serve-se comida honesta e cerveja gelada, mas falta memória no cardápio. Nada ali é capaz de remeter ao lugar que Hermínio Bello de Carvalho – frequentador desde a infância – ajudou a reverenciar nas suas “Cartas Cariocas” (fictícias missivas a Mário de Andrade, com seguidas citações à taberna) ou no livro em homenagem seus 80 anos, com textos e crônicas, batizado de “Taberna da Glória e outras glórias”.

Posso estar enganado (não sou especialista em música) mas devem ser poucos os bares ou restaurantes que tenham se tornado nome de música – nenhum outro certamente nome de uma canção gravada por uma frequentadora divina como Elizeth Cardoso. “Taberna da Glória” – de Vital Lima e, claro, Hermínio Bello de Carvalho – está no álbum ‘A Cantadeira do Amor’, de 1978.
“Repetindo velhos tempos
Eu me atiço o coração
E nos porões da memória
Vou naufragando em velhas paixões

E quase sempre retorno
Envolto em trepes de dor
À velha Taberna da Glória
Que os meus erros sempre abençoou

E no espelho embaçado
Lembro que o prato do dia
Não me servia o remorso
Nem me cobrava a ironia

Meus olhos sentam à mesa
Lembrando tempos antigos
E hoje a memória se inferna
Pois numa outra taberna
Estão meus velhos amigos

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