Avanço do mar em praias famosas preocupa Pernambuco

Em Porto de Galinhas, passeios turísticos são adiados por avanços repentinos da maré; na praia de Boa Viagem, em Recife, barracas são recuadas para fugir do avanço do oceano

Por Geovanna Paz e Adriana Amâncio | ODS 11ODS 13
Publicada em 4 de fevereiro de 2026 - 09:38  -  Atualizada em 4 de fevereiro de 2026 - 09:48
Tempo de leitura: 16 min

Calçadão destruído pelo avanço da maré em Itamaracá: aumento do nível do mar ameaça cabanas e barracas e preocupa comerciantes em praias de Pernambuco (Foto: Paulo José Vieira / Arquivo Pessoal)

Pernambuco reúne alguns dos destinos mais cobiçados do verão. Águas mornas e cristalinas, paisagens de tirar o fôlego atraem famosos e turistas de diversas partes do Brasil e de vários continentes, local perfeito para quem quer descansar e para os empreendedores que esperam pela época mais quente do ano para faturar.  Mas o que era para ser um paraíso, virou motivo de dor de cabeça devido ao avanço do mar, fruto da combinação entre eventos climáticos extremos e o crescente desenvolvimento da infraestrutura nas praias.

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O estudo Caracterização do Litoral Central de Pernambuco (Brasil) quanto ao processo erosivo em curto e médio-termo , publicado na Quaternary and Environmental Geosciences, revista especializada em geociências ambientais, mediu o problema em algumas das principais praias do estado. A praia de Boa Viagem, por exemplo, repleta de turistas para a temporada de verão e o carnaval, foi classificada como de erosão recorrente, com forte urbanização e limitação natural da praia. 

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Em resumo, o levantamento concluiu que a capacidade da praia de se adaptar a efeitos climáticos tais como ondas de calor, secas e extremos de precipitação, cada vez mais comuns nos ecossistemas costeiros, está limitada por interferências urbanas. “A redução do espaço dificulta que as costas arenosas e seus habitats se adaptem ao aumento do nível do mar por meio da retração para o interior – um fenômeno chamado de “compressão costeira”, diz um trecho do estudo.

Avanço do mar em Porto de Galinhas: erosão costeira atrapalha passeios turísticos (Foto: Divulgação)
Avanço do mar em Porto de Galinhas: erosão costeira atrapalha passeios turísticos (Foto: Divulgação)

Em Porto de Galinhas, um dos paraísos naturais que atrai pessoas de todos os lugares do mundo, “alguns passeios turísticos dependem da condição climática”, conta Leandro Gonçalves, 39 anos, natural de São Paulo, que há nove anos atua como gerente de hotel na praia. “Hoje mesmo chegou um hóspede querendo ver o encontro do rio Ipojuca com o mar. Eu disse que não era seguro porque a maré estava alta, ele estava com criança, então, era perigoso”, relembra.

Segundo Gonçalves, sempre que a maré sobe causa erosão e deixa a faixa de corais exposta. “Antigamente, na faixa de areia tinha coqueiros, mas o mar levou todos, hoje, ele só não atinge as casas por causa dos muros de contenção construídos pelos donos, se não fosse isso, não sobraria nada”, avalia. 

As pessoas querem construir casas, bares e restaurantes quase dentro da água; só que o mar não perdoa

Christina Araújo
Oceanógrafa e pesquisadora

Uma das autoras do estudo, Christina Araújo, pesquisadora e professora de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), detalha que há duas causas por trás desse aumento do nível do mar. “Primeiro a expansão térmica da água do mar, por conta do aquecimento global, muito gás carbônico sendo liberado no meio ambiente e na atmosfera por conta de combustível fóssil, então essa quantidade de gás carbônico faz com que aumente a temperatura global”, pontua. Ou seja, quando a água aquece, ela expande e vai ocupar espaço causando elevação do nível do mar. “A segunda causa é o derretimento das geleiras também causado pelo aquecimento global”, complementa.

Ao longo das últimas décadas, esse aumento vem sendo registrado em milímetros por ano, mas se intensificou ao longo do tempo, explica a pesquisadora. “Desde 1990 que vem se acompanhando e o aumento é pequeno de apenas 2 milímetros por ano, isso até os anos 2000. De 2014 pra cá, dobrou e está em 4,8 quase 5 milímetros por ano”, informa. Se esse valor for projetado para todo continente, o impacto é bem maior, detalha Araújo.

Quando esse avanço é projetado para ampla escala, o problema é bem maior. “Para cada centímetro do nível de aumento do mar, há um avanço de quase 1 metro do continente. Para cada centímetro que aumenta na altura dele, ele pode entrar no continente cerca de 1 metro”, pondera. 

Mar avança e encosta nas barracas na praia de Boa Viagem, em Recife: capital pernambucana entre as mais ameaçadas pelo aumento do nível dos oceanos (Foto: Paulo Júnior / Arquivo Pessoal)
Mar avança e encosta nas barracas na praia de Boa Viagem, em Recife: capital pernambucana entre as mais ameaçadas pelo aumento do nível dos oceanos (Foto: Paulo Júnior / Arquivo Pessoal)

Boa Viagem: erosão pontual mas recorrente

O estudo ainda destaca que a praia de Boa Viagem apresenta redução significativa da pós-praia, elemento fundamental para a dissipação da energia das ondas. Em alguns trechos, a pós-praia é inexistente, situação que deixa a orla vulnerável. O levantamento concluiu que esse trecho tem erosão costeira pontual, porém recorrente, com forte urbanização e limitação da dinâmica natural da praia. 

A ocupação intensiva da orla de Boa Viagem limita a capacidade de adaptação natural da praia frente às variações do nível do mar e às mudanças nas condições oceanográficas, tornando a área altamente dependente de soluções artificiais de contenção. Os processos erosivos e de construção do calçadão e prédios iniciaram em 1990, tendo como consequência ressacas, marés de sizígia e condições oceanográficas extremas. “As pessoas foram construindo muito próximo da praia. Fora as pessoas que querem construir casas, bares e restaurantes quase dentro da água; só que o mar não perdoa”, comenta a pesquisadora Christina Araújo. 

Há cerca de dois anos, comerciantes que atuam próximo ao Parque Dona Lindu convivem com a erosão costeira, a deterioração do calçadão e a dificuldade de acesso à faixa de areia, cenário que afasta turistas, compromete a mobilidade e ameaça a subsistência de pequenos empreendedores.

Segundo o comerciante Paulo Júnior, que vende bebidas e refeições na área, o acesso à areia da praia dificulta a vinda de turistas por ser uma descida escorregadia. Para tentar minimizar o problema, os próprios barraqueiros improvisam soluções. Sacos de trigo reaproveitados, comprados em padarias, são preenchidos com areia e organizados como uma espécie de escada improvisada, a estratégia ajuda algumas pessoas, mas não todas. “Um cadeirante ou um idoso não consegue descer. A escada hoje tem cerca de um metro e meio de altura”, relatou o vendedor.

Após o inverno a situação se agravou, o calçadão ficou mais danificado e com pedras soltas. Além da insegurança, o impacto financeiro é direto. O faturamento mal cobre os custos básicos do trabalho, como gelo, depósito e pagamento de funcionários. “Às vezes, mesmo trabalhando, chego em casa só com o dinheiro do pão. E em alguns dias, nem isso”, lamenta o barraqueiro.

Eu tinha cerca de 150 metros da barraca até a beira-mar. Hoje, só tenho 10 metros. Tem área da minha cabana em que a água levou tudo

Paulo José
Dono de barraca em Itamaracá

Ele conta que a equipe de manutenção da Emlurb espalhava areia em alguns trechos da orla para melhorar o acesso, mas interrompeu o serviço, há dois anos. O empreendedor relata que chegou a questionar o fiscal do órgão sobre a razão para o cancelamento do serviço. “Fui informado que a ordem “vem de cima” e que  ele não pode passar por cima dessa decisão porque também é funcionário”. Paulo diz ter retrucado, afirmando que  “entende, mas o problema é que sem a areia não dá para resolver. Quando vinham ajeitar antes, retiravam as pedras do lugar, colocavam corretamente e deixavam organizado. Mas com o tempo, o mar batia novamente, a água derrubava tudo, eles voltavam, tiravam a areia e recolocavam. Só que chegou um ponto em que foram retirando a areia repetidas até não sobrar mais nada”.

Ainda de acordo com o comerciante, o fiscal disse que não tinha ordem para fazer manutenção no ponto do quiosque 38 porque a prefeitura não tinha verba para fazer algo e a equipe não tinha autorização para fazer. Para amenizar o problema tinha que colocar pelo menos 5 caminhões de areia. “Se eu pudesse, colocava os cinco sacos de areia agora, mas infelizmente não posso”, teria dito o fiscal, acrescentando que autorização e investimento estavam destinados para o local em frente ao Hotel Plaza. Paulo acredita que uma solução mais eficaz seria colocar engorda como foi feito na praia de Candeias, porque a água batia na pista e quase entrava nos prédios. A reportagem do #Colabora procurou a Emlurb mas não teve retorno até a conclusão dessa reportagem. 

A situação dificulta até mesmo a montagem do guarda-sol, às vezes é preciso colocar muitas pedras ao lado da outra para manter o cabo para o uso do cliente. “Um turista que chega e vê essa situação não fica. Eu mesmo não ficaria”, lamenta. O Dona Lindu é um trecho crítico, mas não é o mais, toda a área do enrocamento é muito crítica. Nas marés mais altas, de 2.6, 2.7, 2.8, a água passa quase por cima do enrocamento dando pancadas, molhando o calçadão. Nas imediações do Pina, a praia é mais larga, não tem muro de pedra e, no Segundo Jardim, tem dunas, vegetação, essas áreas são menos suscetíveis a elevação do nível do mar.

Paulo José em seu bar à beira-mar: mudança acelerada da faixa de areia (Foto: Arquivo Pessoal)
Paulo José em seu bar à beira-mar: mudança acelerada da faixa de areia (Foto: Arquivo Pessoal)

Cenário nas praias pode piorar

Os impactos do avanço do mar não se restringem à orla urbana do Recife. Na Ilha de Itamaracá, no Litoral Norte de Pernambuco, o fenômeno tem alterado a praia, colocando em risco o sustento de famílias que vivem do turismo local. Proprietário do bar e restaurante Coco Loco, Paulo José Vieira acompanha de perto a mudança acelerada da faixa de areia onde trabalha, há 32 anos. Segundo ele, a distância entre a barraca e o mar diminuiu de forma alarmante. “Eu tinha cerca de 150 metros da barraca até a beira-mar. Hoje, só tenho 10 metros”, relata. Em um trecho o mar levou parte do estabelecimento. “Tem área da minha cabana em que a água levou tudo”.

Paulo afirma que o avanço do mar se intensificou de forma repentina. De acordo com ele, a mudança mais severa ocorreu a partir de agosto de 2025 e segue avançando em 2026. A barraca é a única fonte de renda da família, Paulo, a esposa e as filhas trabalham juntos para manter o funcionamento do restaurante e das barracas, que dependem diretamente do estado da praia e dos clientes. 

A família também sofre com o impacto financeiro devido a percepção de alguns turistas com a qualidade do local. “Por causa do avanço, muita gente colocou pedra, e o cisco que vem do mar junto com o vento, traz mal cheiro e muitas pessoas não querem comer peixe por causa do cheiro da água”, conta. Apesar das dificuldades, Paulo ressalta que a praia ainda é frequentada por clientes fiéis e turistas que vêm conhecer a região, ainda assim, o cenário preocupa quem depende do turismo para sobreviver. 

Essa não é a primeira vez que o barraqueiro enfrenta perdas. Ao longo desses anos ele já precisou reconstruir o negócio após fortes chuvas e até um incêndio. “Já perdi a barraca pra chuva, já pegou fogo, mas com a ajuda de Deus e das minhas filhas consegui me reestruturar”, afirma. 

Nas praias de Itamaracá, mar cada vez mais perto de bares e barracas: crise climática impulsiona avanço do oceano (Foto: Paulo José Vieira / Arquivo Pessoal)
Nas praias de Itamaracá, mar cada vez mais perto de bares e barracas: crise climática impulsiona avanço do oceano (Foto: Paulo José Vieira / Arquivo Pessoal)

A pesquisadora Christina Araújo analisa que “a Ilha de Itamaracá têm os seus processos de erosão, que quando chega destrói as construções na beira-mar. Já foram feitas obras com tocos de coqueiros para segurar um pouco o mar, mas é algo temporário, se o mar avançar corre o risco de destruir os próprios restaurantes”, concluiu.

Recife é a 16ª cidade mais vulnerável às mudanças climáticas, segundo o Painel Governamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A cidade é vulnerável porque é litorânea localizada em uma frente marinha, o que envolve não só a área da praia, mas outros bairros, a exemplo do bairro do Recife [conhecido como Recife Antigo], separado do mar pelo rio Capibaribe. 

Em âmbito global, as previsões seguem desanimadoras, analisa a pesquisadora Christina Araújo. “No pior cenário, em 100 anos, a gente pode ter uma elevação de 1 metro do nível do mar e se nada for feito, em 100 anos, podemos ter uma elevação de 1 metro na vertical, na horizontal, do nível médio do mar. Em 50 anos, a metade disso, 50 centímetro  [já terá avançado]”, arremata a professora da UFPE.

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Procurada pela reportagem do #Colabora, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha afirmou em nota “que está intensificando esforços para diminuir a erosão nos municípios do litoral na construção de estratégias conjuntas para recuperação das faixas de areia”. O órgão afirmou também que “está em andamento a contratação de uma empresa especializada para a elaboração de estudos técnicos e projetos de engenharia, que visam conter a erosão costeira e recompor praias em trechos da orla marítima do Estado”.

 

Geovanna Paz e Adriana Amâncio

Geovanna Paz, é jornalista de Recife (PE), formada pela UNINASSAU, com experiência em produção e redação de matérias esportivas e atuação como crítica de cinema; atualmente trabalha com foco em meio ambiente e temas sociais; Adriana Amâncio, jornalista pernambucana com mestrado profissional em marketing digital e 15 anos de experiência em reportagens investigativas, já conquistou os prêmios InfoEnergia de Eficiência Energética da Agência Bori, Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, Sassá de Jornalismo em Direitos Humanos.

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