Sítio da Tia Naná: Anderson Shon pinga melanina em narrativa que apagou o povo preto

Escritor e educador decide revisitar a famosa obra de Monteiro Lobato, transformando a empregada Tia Nastácia na personagem principal

Por Nathalia Ferreira | ODS 10
Publicada em 29 de janeiro de 2026 - 09:27  -  Atualizada em 29 de janeiro de 2026 - 09:47
Tempo de leitura: 13 min

Anderson Shon escreveu O Sítio da Tia Naná como forma de ressignificar uma história já contada, transformando-a em amor, melanina e afeto (Foto: Arquivo Pessoal)

Durante sua infância, você pôde apenas ser criança? Podendo ter espaço e possibilidade de se divertir, assistir a desenhos, ser quem você quiser e criar seu mundo de faz de conta? Essa foi a realidade do baiano Anderson Shon, que estava o tempo todo brincando com seus bonecos e criando narrativas para eles. Hoje, aos 37 anos, ele acredita que “ser escritor é brincar de bonecos para sempre, criar personagens, situações e resolvê-las”

Shon é o autor do livro O Sítio da Tia Naná. A obra, lançada no ano passado, nasceu da necessidade que Shon sentiu de colocar melanina na série de livros de Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica-pau Amarelo – lançados nos anos 1930, os livros, de grande sucesso entre crianças e adultos, foram, décadas depois, criticados por pesquisadores e críticos por suas conotações racistas, que geraram até denúncias no Supremo Tribunal Federal (STF). 

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O primeiro contato de Anderson com a literatura foi a partir de Maurício de Sousa. “Eu ia para a casa do meu primo e lá tinha uma infinidade de Turma da Mônica, e assim eu passava minhas tardes, lendo os quadrinhos. Mas os livros que mais me interessavam na casa dele eram um livro de bolos confeitados; eu lia e achava divertidíssimas as receitas e as fotos, e uma enciclopédia de animais esquisitos”. Além disso, o jovem adorava ler toda e qualquer placa que encontrava na rua durante as viagens de ônibus que fazia em Salvador. 

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Já Monteiro Lobato, Shon conheceu por meio da série televisiva do Sítio do Pica-pau Amarelo (1977). “Eu lembro exatamente que estava na sala de espera do Hospital Espírito Naval, lá no Rio de Janeiro, e na televisão estava passando algum episódio que envolvia Lobisomem”.

O educador conta que sua memória acabou normalizando a ideia de a Tia Nastácia ser a empregada, o Saci ser mau e o Tio Bernabé, que surgiu na segunda edição do seriado, ser colocado como burro. “Apesar de assistir muito, o sítio não me engajava, não ficava dentro de mim após terminar. Ao contrário de Cavaleiros do Zodíaco, que, quando acabava, eu transformava em meus bonecos”, completa.

Poesia e inquietações

Alguns anos mais tarde, Anderson passou a ter contato com mais livros e com as aulas de redação, nas quais se divertia escrevendo sobre seus episódios de desenhos prediletos, relacionados ao gênero textual estudado. Durante a faculdade de Publicidade e Propaganda, ele começou a escrever poemas sobre seu cotidiano, mas divulgava apenas na rede social da época. 

“Ao me formar, decido não seguir na área; comecei a perceber como a publicidade é a engrenagem do capitalismo, isso me deixou mal e preferi migrar para educação. Comecei a ensinar redação e meu contato com livros, sobretudo didáticos, aumentou. Eu escrevia para mim mesmo, naquele sonho de ser autor massa, descoberto e publicado por uma editora. Naquela época eu não entendia que a coisa não funcionava desse jeito”, recorda. 

O educador contou que, com cerca de 22 anos, descobriu a autopublicação: “Eu lancei meu primeiro livro em 23 de novembro de 2013. Um Poeta Crônico é uma junção das poesias que escrevia, tendo uma coisa em comum: o cotidiano”. 

Em seu primeiro lançamento, Shon não sabia o que esperar. Seus alunos, parentes e amigos foram prestigiá-lo e se posicionaram em uma fila, o que o fez se questionar: “Pô, mas essas pessoas têm contato comigo no cotidiano, por que elas estão fazendo uma fila para falar comigo? Existe alguma coisa que é especial nisso, elas querem o autógrafo, tirar foto. Talvez isso seja um pouco do poder da literatura, as pessoas querendo te acessar”. 

Foi nesse momento que ele se sentiu um escritor. “Eu queria que mais filas fossem formadas, isso foi a realização de um sonho e eu sabia que alguma coisa diferente iria acontecer na minha vida”.

O processo por trás de O Sítio de Tia Naná 

A ideia do livro nasceu de uma conversa durante a participação de Anderson Shon em um podcast sobre a série Lovecraft Country, da HBO, obra que reimagina o universo de H.P. Lovecraft sob a perspectiva negra. Assim como Lovecraft, Monteiro Lobato produziu narrativas permeadas por racismo. “Eu estava comentando o que o autor tinha feito e falei: ‘Bem que podia fazer isso daqui com o Monteiro Lobato, sabe? Fazer um território Lobato, que era a mesma coisa, pegar toda a mitologia dele e ser protagonizada por pessoas pretas’”.

Anderson não executou o projeto de imediato; ele queria ver por quanto tempo ia pensar na ideia de reescrever a obra de Lobato, para saber se valeria a pena. Quando eu percebi que era uma ideia boa, eu fui ler o original de Reinações de Narizinho e foi aí que descobri o quanto era horrível e tinha ódio”.

O sentido da Tia Naná é sobre aquilombar, acolhimento, afeto e sobre ressignificar para conseguir encontrar flores no deserto… Eu escrevo para que as crianças, como eu fui um dia, possam se ver representadas

Anderson Shon
Escritor e educador

Nas obras há diálogos e citações racistas de forma escancarada: as crianças negam as histórias contadas pela Tia Nastácia, dizendo que eram chatas e bobas; há comparação dos “beiços” dela com uma mula; anulação de sua identidade, referindo-se a ela como “a preta”.

Em um trecho, Narizinho fala: “Eu não vou beber café para não ser preta como a tia Nastácia”. “Eu li essa frase, parei, li de novo, e então eu deixei de lado. Eu fiquei com aquilo em mim, e depois eu fui tomar banho e percebi que eu estava me sentindo sujo por eu ter lido aquilo”, afirmou Shon. 

Diante dessa indignação, o poeta percebeu que a construção de sua história “não seria sobre inventar personagens para protagonizar a narrativa, mas sim dar o protagonismo a quem sempre esteve ali”. A partir disso, ele começou a imaginar qual seria o contexto da Tia Nastácia depois do sítio. 

Segundo o escritor, a obra é uma resposta a Monteiro Lobato e à série Vagalume, que excluíram pessoas e autores negros por tantos anos. Em O Sítio de Tia Naná, a personagem principal trabalha em um orfanato que está prestes a fechar e ali divide com as crianças suas histórias do que acontecia no sítio. Ela continua frequentando o espaço mágico para visitar sua velha amiga, Dona Mélia [Dona Benta], até que a senhora falece e deixa para Naná a propriedade de herança; então a protagonista leva as crianças para viver com ela. 

“As crianças não são mais órfãs, elas passam a ser filhos dela. E aí a segunda parte do livro, O Quilombo da Tia Naná, é sobre crianças pretas podendo aproveitar das histórias mágicas do sítio”, contou o escritor. Shon opta por usar outros nomes para não “perpetuar o legado deles”, além de evitar problemas com direitos autorais posteriormente. 

Então, o autor escolheu o nome de sua protagonista: “Trocando com um amigo, eu falei que estava pensando em chamar a tia de Naná, porque é um apelido carinhoso para Nastácia. E ele falou: ‘Ah, e tem relação também com a Orixá, né?’” Lendo sobre a entidade, o educador descobriu que ela era uma “mãezona” e sentiu que “o universo conectou tudo”. “O livro é todo em tons de roxo, porque são as cores de Nanã”, afirmou. 

Foto colorida de Anderson Shon falando sobre as obras Estados Unidos da África e do O Sítio da Tia Naná com crianças do Pelourinho, em Salvador
Anderson Shon fala sobre as obras Estados Unidos da África e do O Sítio da Tia Naná com crianças do Pelourinho, em Salvador (Foto: Reprodução/Instagram)

Personagens e referências

O poeta quis dar voz às crianças na história: Saci, por exemplo, é impactado pela inocência de Leandro, que é um personagem autista.  “Os nomes dos personagens têm referências a pessoas pretas que me inspiraram”, revela o autor. “Lélia de Lélia Gonzalez, Leandro é o nome de batismo do Emicida, Nina de Nina Simone, Nelson de Nelson Mandela, Silvinho, porque Silvio Almeida me ensinou muito com sua escrita e o curso que fiz com ele, mas hoje percebo que ele tem que pagar pelo que ele fez”, detalha.

Dois outros nomes foram inspirados em mulheres do convívio de Anderson. “Gegeu é o apelido da minha mãe, e Eliana foi a minha primeira sogra, que viveu em um orfanato e é uma mulher preta, chefe de família, e isso foi impactante para mim, porque, mesmo sendo a vida de muitas mulheres, esse foi o meu primeiro contato com essa realidade”.

No livro, há também alusões diretas à obra de Monteiro Lobato. Shon descobriu que o autor foi um dos primeiros acionistas de petróleo no Brasil. Então, em seu livro tem um líquido preto que é fonte da magia do sítio. Além disso, o vilão da história é Mago Caju, sendo que o apelido de Lobato era Juca. O personagem tem as mesmas características da “inspiração”, e, nessa história, o final dele não é de tanto sucesso e relevância como em vida. Frases problemáticas também foram ressignificadas, como “o café é a bebida que faz da gente melhor“. 

Shon admite que, mesmo tendo escrito a história com um sentimento de raiva, o que prevalece, além de “dar voz e representatividade às pessoas pretas, que tiveram pouco acesso à produção literária, é o amor que emana do livro”. 

“O sentido da Tia Naná é sobre aquilombar, acolhimento, afeto e sobre ressignificar para conseguir encontrar flores no deserto. A capa é com todas as pessoas abraçadas, e isso para mim é fundamental para perpetuar algo bacana na minha literatura. Eu escrevo para que as crianças, como eu fui um dia, possam se ver representadas e acredito que, ao agradar o Shon criança, estarei agradando muitas outras pessoas”, declara.

Conexões e acessos pela literatura

Desde que se tornou um escritor publicado, Anderson transformou sonhos em realidade ao encontrar suas maiores referências. “Eu conheci o Maurício de Sousa, eu tive aula com Ana Maria Gonçalves, ela me ensinou literatura e foi incrível. Fiz oficinas também com Silvio Almeida, Roberta Estrela D’Alva, Marcelino Freire e Socorro Acioli”.

Shon pode levar sua escrita para lugares que ele nem imaginava. “Ano passado eu fiz 127 eventos, viajei para lugares como Goiás. Nada me levaria a Goiás se não fosse a literatura. Nas palestras, as pessoas me reconheciam e falavam: ‘Eu sei qual é o seu livro’”. 

Uma estudante se identificou como negra a partir do acesso à HQ Estados Unidos da África, também escrita por Anderson e ilustrada por Daniel Cesart. “Isso significa uma das maiores revoluções para o gênero de quadrinhos, que ainda é considerado para crianças pelo sistema de educação”. A intenção do poeta foi fazer um Superman preto, “com uma versão dele como rei africano”. Seu quadrinho está em cinco escolas de Salvador como material didático e para o escritor fazia sentido que esse livro fosse levado para a África. 

“Por meio de um projeto, lançamos o quadrinho em Angola, onde realizamos oficinas de roteiro e ilustração, além de uma exposição. Foi uma experiência surreal porque, quando você chega num lugar que todo mundo é retinto, você percebe que você está em casa”. Na volta, fomos a São Paulo receber nosso primeiro HQ Mix em 2024; vencemos como Publicação Independente de Edição Única e Daniel como Ilustrador Revelação”, conta. 

“Eu me senti muito feliz por essa obra, pelo tanto que ela demandou e tem me retribuído. Para ser mais perfeito ainda, o próprio HQ Mix reconheceu nossa trajetória em Angola com o prêmio de Relevância Internacional”, acrescenta o autor do Sitio da Tia Naná.

Anderson tem um objetivo claro com a sua literatura: “Pingar melanina em tudo que eu puder”. Segundo ele, o próximo lançamento será também em quadrinho, em parceria com Daniel Cesart: A Última Revolta Malê. “A gente vai criar um slasher — gênero de terror — um Pânico, Jason, Freddy Krueger, só que preto e abordando a história do maior levante de escravizados que teve no Brasil”, explica.

De olho no futuro, Shon planeja um segundo lançamento internacional: “Quero produzir um quadrinho que não tem diálogo; assim, as barreiras diminuem e depois fazer uma tradução de capa e levá-lo para o Japão”.

Nathalia Ferreira

Jornalista com pós-graduação em Social Media e MBA em Digital Business. Possui experiência em comunicação digital e redação jornalística com passagem no Notícia Preta e RedeTV!. Nathalia acredita que a comunicação deve dialogar com o social, as políticas públicas e a diversidade e, por isso, se dedica à construção de narrativas acessíveis, ancestrais, plurais e, sobretudo, transformadoras.

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